quinta-feira, 5 de março de 2015

Afinal Havia Outra (#12) - Quando o final não é o esperado.

Após um início conturbado, a minha gravidez foi decorrendo normalmente. Às 19 semanas uma indisposição e algumas dores na zona dos rins levaram-me à urgência. Análises, exames, ecografias… e as palavras mágicas: está tudo bem com o bebé, é uma criança saudável e as dores significam que a mãe tem que abrandar o ritmo. Saí do hospital naquele dia levíssima… tive a certeza naquele dia que ia ser mãe de um menino, estava tudo bem com o bebé e prometi a mim mesma que teria mais calma. Isto passou-se num domingo, e na sexta-feira seguinte tinha marcado a ecografia morfológica no Centro de Entrecampos. Desta vez nem ia nervosa, pelo contrário, ia extremamente confiante…

Mais ou menos 40 minutos depois de ter começado a ecografia o médico pede à assistente para ligar para Santa Marta para falar com o médico de serviço e em simultâneo pede-me para mudar para outra sala, porque havia qualquer coisa que não conseguia ver bem no bebé com aquele aparelho. Ok! Deve ser normal este procedimento, enquanto me instalo ele trata de outros assuntos, pensei para comigo! Entretanto começo a ouvir a conversa do médico com Santa Marta: “Podes atender uma paciente que aqui tenho… ela não é de Lisboa… sim, há qualquer coisa no coração do bebé que eu não consigo ver…. “Hããã? Como? Coração? Do meu bebé???? O quê?... (escusado será dizer que nesta época a minha ignorância levava-me a pensar que problemas de coração eram só para maiores de 50!!!). O meu coração parou com o choque, para a seguir disparar desenfreadamente. A minha vida ficou suspensa naquele momento, os meus sonhos desmoronavam-se, as palavras do médico ecoavam-me na mente, as lágrimas corriam livremente… o meu bebé tinha um problema, e agora?

Já passava das 22 horas daquele dia 14 de Março quando segui para o Hospital de Santa Marta onde tinha o Dr. Macedo à minha espera. Após um ecocardiograma e muitas perguntas saí sem um diagnóstico definido, o bebé estava atravessado e não era possível afirmar com certeza qual era o problema, voltaria daí a 15 dias para confirmar. Estava tão mal nesse dia que pedi ao médico que me adiantasse os diagnósticos possíveis e mesmo contrariado ele lá avançou as hipóteses: poderia ser uma CIV (comunicação intraventricular) – era o melhor diagnóstico – ou uma Tetralogia de Fallot, (levei semanas para fixar este nome) que seria a situação mais grave. Isto implicava que o bebé teria que ser operado ao coração pelo menos uma vez, ou mais, dependendo como a situação fosse evoluindo.

Foram 15 dias angustiantes… interiormente só pedia para não me perguntarem pelo bebé, estava de rastos e não conseguia perceber o que tinha corrido mal, e não era isto que esperava quando engravidei. Não sabia como lidar com tudo o que estava a acontecer, até que num desses dias o meu marido disse-me: “Estás grávida de 22 semanas e não há nada que possamos fazer, temos que o aceitar e que o amar independentemente de como ele vier!”. Acho que era aquilo que eu precisava ouvir.

No dia 27 de Março tive a confirmação… o meu bebé tinha uma Tetralogia de Fallot! Repeti-lhe todos os dias que ele seria um lutador e que nós estaríamos sempre lá para ele.

Passei a ser seguida na Maternidade Alfredo da Costa, nas consultas de alto risco e em simultâneo no Hospital de Santa Marta. No dia 20 de Maio, um mês antes da data prevista, entrei em trabalho de parto. Fui internada na MAC, onde ele nasceu no dia 21 de Maio. Foi para os cuidados intensivos de onde teve alta dois dias depois.

Passaram quase 18 anos, ele foi operado aos 2 meses, fez a cirurgia correctiva aos 16 meses, e teve que fazer nova cirurgia há cerca de dois anos. Prevê-se que daqui a 15 anos a válvula tenha que ser novamente substituída.

Ele é um menino extraordinário e muito especial. Não tem grandes limitações e faz a sua vida normalmente como qualquer jovem da sua idade. E é muito mais do que aquilo que eu sonhei... Com ele aprendi a ser mãe... a mãe que ele precisa... (Quatro anos após o seu nascimento demos-lhe um irmão, que nasceu sem problemas de maior!)

Quando o final não é aquele que esperamos e a mãe não sabe, a mãe aprende… e a uma velocidade surpreendente!

Alzira Maia Ferreira

4 comentários:

  1. Fantástico o seu testemunho Alzira. É importante saber que independentemente de tudo uma mãe arranja sempre força e coragem para lidar com o inesperado, com o desconhecido, com o aterrador. Porque pelos nossos filhos somos capazes de tudo.
    Obrigada e felicidades para toda a família.

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  2. Impossível não me cairem umas lágrimas ao ler este testemunho... consegui visualizar o local onde ouviu as primeiras palavras dessa noticia pois também eu fiz a eco morfologica no centro ecografico de entrecampos e adorei... porque não são rápidos... demora muito, mas fazem o trabalho que têm a fazer com muita atenção... eu mesma tive de voltar uns dias depois ao centro ecografico para repetir o ecocardiograma... fui sozinha e apanhei um valente susto... felizmente não havia nada no coraçao do meu principe... mas as suas palavras fizeram lembrar-me cada segundo que passei lá... e consegui imaginar a sua angustia... claro que não calculo a tamanha preocupaçao que vos acompanha a vida toda mas felizmente o vosso filho está bem... felizmente o seu marido deu a força necessaria no momento certo. Obrigada pelo seu testemunho que nos faz ver como somos pequeninos perante estas situações mas como nos tornamos tão indispensaveis e tão fortes
    quando tem de ser.
    Felicidades!!! Bjs

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  3. A mãe aprende a ser mãe! Engraçado, a minha mãe também se chama Alzira e eu nasci a 21 de maio! Felicidades

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  4. Parabéns e obrigada pelo testemunho!
    Eu também tive um susto desses quando estava de 5 meses:a eco morfológica não deu os valores, tive de fazer o ecocardiograma e esse foi o dia mais angustiante da minha vida. A médica que fez o exame, gravada também não escondeu a sua emoção e eu fiquei gélida e só pedia a Deus para aquilo ser um pesadelo. Passados 2 dias repeti e a médica já estava com outra cara e ficou mais tranquila com os resultados, mas mesmo assim fui seguida sempre até ao parto e nasceu sem nenhuma complicação cardíaca.
    Felicidades... Bjs

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