quinta-feira, 19 de março de 2015

o meu pai

Lembro-me de muitas coisas boas do meu pai. Começo por me lembrar das mais de 6h por semana no bowling do Colombo quando era o fim-de-semana dele ou a sexta-feira. Estava sempre ansiosa para que ele me fosse buscar à escola para irmos jogar. Tínhamos o nosso cumprimento especial quando fazíamos strikes. Era foleiro, mas eu adorava e não tinha vergonha. O meu pai dá um saltinho quando vai a correr pela pista para fazer o lançamento. Acho que é de ter feito ginástica e não consegue deixar de fazer a chamada. Ia pedindo imperiais e eu pepsis à medida que os jogos iam passando. Já conhecíamos toda a gente de lá. Pelo nome. Tínhamos a nossa própria bola de bowling, saco, sapatos e luvas. Ainda hoje temos. Os sapatos já apodreceram. Já não vamos jogar há demasiado tempo. Será que o velhote ainda consegue lançar uma bola de 14oz sem se partir todo? Ou será que a filha já não consegue lançar uma de 13 e finger por já ter sido mãe e sentir que irá estar no pós parto para sempre?

Lembro-me de muitas coisas boas do meu pai. Lembro-me de ser sempre ele o centro das atenções de todos os sítios onde íamos. Jantares de amigos dele. Eventos. Convívios. O meu pai era sempre quem falava mais alto, quem fazia rir toda a gente, quem falava mais, quem esclarecia quem não soubesse algo sobre fosse o que fosse. Ele sabe muito de muita coisa. Muita coisa que não me interessa, mas que, na altura, adorei saber. Ainda hoje não faço a mínima ideia de saber os tipos de gases (nem sei bem o que é isto) com uma mnemónica. ManteigaÉparaBarrarPão: Metano, Etano, Propano, Bentano e Pentano.  O meu pai tinha um rol de 15 anedotas, todas alinhadas para o "momento das anedotas" nos convívios. Eu também. Às vezes até já tínhamos um número juntos. 

Passámos muitos jantares a comer a minha comida preferida (na altura): bife na pedra. Íamos sempre jantar fora à sexta. Comi muitas picanhas, muitos bifes na pedra e nunca faltava o  Sumol de Ananás que o meu pai me dizia sempre que era o que a minha mãe bebia com caracóis. A mim ou a quem estivesse connosco: "a Sílvia era capaz de comer caracóis a beber um sumol de Ananás". Passámos mais de metade desses jantares com o meu pai a tentar explicar-me a diferença entre memória RAM e a memória do disco rígido. Olhando para trás, como é que eu não conseguia perceber? 

Lembro-me de quando morava com a minha mãe em Santiago do Cacém ou Santo André e de ter ido ao colo do meu pai, num dos fins de semana em que ele lá foi ter, a segurar o volante numa estrada que me parecia perigosa. Lembro-me de dois microscópios que o meu pai me deu, porque era o que ele gostava e sabia ensinar. Examinávamos as águas das poças da chuva. 

O meu pai tentava ensinar-me inglês. E brincava comigo. Sempre gostei de inglês por causa dele. Sempre gostei de ciências por causa dele. Não tanto como ele, claro. Pedir-lhe ajuda era um martírio. Perguntar-lhe sobre ciências do 7ºano era pedir uma ensaboadela de Química do 3º ano da faculdade. Sempre gostei que o meu pai me levasse a sério. Que ouvisse as minhas opiniões como se elas quisessem dizer alguma coisa. Lembro-me de ter tantas conversas com ele nos nossos lanches no Marajá, ao pé da casa do Avô Alfredo onde depois ele veio a morar, sobre religião, eutanásia, filosofia, casamento, adopção, etc. Tinha o quê? 10 anos? 10 anos e já sabia quem eram os Genesis, Doors, Pink Floyd, Marillion, Skunk Anansie, Pretenders, 4 Non Blondes e, sim, já tinha ouvido o "Viagens" do Pedro Abrunhosa muitas vezes. 

O meu pai brincava comigo e fazia batatas fritas das congeladas, as minhas preferidas. O meu  pai cozinhava muito bem. Gostava de por chouriço em tudo ou bacon. Comia sempre as gorduras dos meus bifes porque eu punha na beira do prato. Antes disso, refilava comigo a dizer que eu estava a desperdiçar comida e, com os talheres, preparava-me a comida e dizia "vês? olha tanta carne! tanta carne!". Fazia um arroz que eu adorava. Não gostava de fazer sopa ou, pelo menos, marchavam sempre instantâneas. Tínhamos um aquário de 60 litros, com um limpa fundos. Tenho fobia de peixes mas adorava o nosso aquário. Ainda hoje tenho pesadelos com ele, que os peixes estão mortos, a boiar. Comprou-me periquitos. Agora que penso nisso, ele tinha de os aguentar a semana toda para depois eu só os ver ao fim-de-semana. Desapareceram um dia. Acho que os deu à senhora que tomava conta do meu avô. Ele vivia em casa do meu avô que estava acamado. 

Lembro-me de estar sempre à espera de sexta-feira. Sempre por volta das 4 quando o meu pai me ia buscar ao colégio. Na quinta-feira já adormecia a pensar nisso. Passava sexta-feira toda aos saltinhos a esperar que o meu pai me fosse buscar. Lembro-me dele me ter oferecido um bip do Portugal Radical e eu estar louca para que dissesse que vinha a caminho. Só ele tinha o número do meu bip. Estava sempre ansiosa pelo bowling, pelo lanche com leite Ucal "ligeiramente aquecido" que era como ele pedia sempre o meu leite e ainda agora quando peço um leite Ucal, o peço assim. 

O meu pai chora a ouvir música. E nem é por se lembrar de nada. "Choro porque é bonito, não sentes?". O meu pai deu-me a liberdade de ter alma de artista. De não achar que é estúpido sentir coisas a mais, por coisas que não vemos os outros a sentir. 

Odiava o Domingo. Tinhamos hora de recolha. Ele tinha que me deixar em casa da minha mãe às 21h30. Nunca queria ir. Tinha acabado o fim-de-semana ou a sexta-feira e a vida ia voltar à normalidade. Ia voltar às aulas, aos jantares a horas, a ter hora de deitar, a não ter ninguém para jogar computador comigo. 

O meu pai conduz muito nervosamente. É daqueles que se cola ao carro da frente se ele vai devagar na faixa da esquerda. Só quando comecei a crescer é que tinha medo. Fazíamos Amadora-Oeiras em 10 minutos. Sempre a ouvir música. Ele deixava-me cantar. Não dizia que cantava bem, mas aturava-me tanto, sem me mandar calar....

Houve uma altura, que me pareceu uma década, que deixei de ter sextas-feiras, deixei de ter fins-de-semana e todos os dias eram iguais. Já não havia nada por que ansiar. Tinha-se acabado o bowling, os jantares fora, o jogar computador juntos, o ir buscar-me à escola, tudo. O meu pai foi para Moçambique dar aulas. Moçambique, onde nasceu. Falava muito de ser "Africano" e de ter nascido em Moçambique. Sempre falou muito do passado, fosse o passado mais passado ou o passado mais médio mal passado. Foi. 

Adorou Moçambique. Adoraram, ele e a Bibi, minha madrasta, mãe do meu irmãozinho Tiago. É uma história que ninguém tira a meu pai. Aposto que adora sempre que o tema é África para poder falar tudo o que sabe sobre Moçambique. Se eu que já fui passar lá férias, sinto o mesmo, imagino ele. Quero dizer que sei a moeda, o nome de bebidas, algumas palavras no dialecto deles, imagino o meu pai que adora o seu Maputo "que dantes não era, eu nasci em Lourenço Marques". 

Choro como se ele não estivesse cá, mas está. Mora ali, a menos de 10km de mim. Raramente nos vemos. Raramente falamos. Toda a gente brinca a dizer que os "Gama Freire" são assim. E são mesmo. Acho que ninguém sente a obrigatoriedade de falar com alguém nesta família  mas que se sente sempre terrivelmente culpado por isso, quanto mais apertado for o laço familiar. Gosto quando o meu pai comenta o que ponho no Facebook, gosto quando faz like. 

Sei que a vida dele não muda muito ao ponto de ter que saber novidades dele frequentemente. Sei como é a rotina dele desde que ele se levanta até que vai para a faculdade e sei como ele é quando chega a casa até se ir deitar. 

Sei que o conheço tão, mas tão bem. Posso não ter vivido os dias da semana com ele desde sempre. Só todas as sextas e fins-de-semana alternados, mas lembro-me de tantas coisas boas do meu pai. Sou tanto dele. 

Sou a que fala alto. A que ri alto. A que faz rir toda a gente. A que finge que percebe de tudo ou que, pelo menos, a que percebe mais de temas que não interessam a ninguém. Sou quem chora sem vergonha. Tenho um lado artístico que julgo vir do professor de Química que é o meu pai. Parece estúpido, mas é o que é. 

Lembro-me de tantas coisas boas. Lembro-me de estar calor e do meu pai me dizer "vai ver a pequena Sereia que te imaginas logo a tomar banho no mar e ficas com menos calor". Funciona. Lembro-me dos scones com batido de banana no moinho de Linda-a-Velha. Lembro-me de termos acampado uma tarde na mata de lá. 

Vou ser como o meu pai para a Irene. Parva, brincalhona, dar-lhe instrumentos musicais para ela ter tão bom ouvido para a música, vou deixá-la sentir, vou ouvir sempre as opiniões dela, mesmo que tenha 10 anos. Vou explicar 40 vezes a mesma coisa. Vou falar sempre apaixonada por tudo, sempre com a esperança de que ela se apaixone também. Vou andar de baloiço com ela e não ficar a vê-la a andar sozinha. 

Vou ser mãe muito também como o meu Pai.



Espero ser sempre aos olhos dele, a menina que no infantário de uma terra qualquer das 40 em que morei estava a pisar as uvas com os pés cheia de afinco para dar uma garrafa de vinho ao pai no dia do pai apesar de saber que o pai nem gostava muito de vinho. E que ele nunca bebeu. Eu não percebia porquê. Agora percebo. 

6 comentários:

  1. Joana, que texto lindo, lindo, lindo! Tive uma relação igual com o meu pai, com visitas ao fim-de-semana e a aprender o que não interessa a ninguém, mas sempre feliz por tê-lo ali ao meu lado com as suas histórias malucas. Feliz dia do pai**

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  2. O melhor que li até hoje. Que pena tenho eu de não ter histórias destas para contar :(

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  3. O seu pai foi meu professor no ist... Fui uma péssima aluna... Confesso que não tinha o mínimo jeito para a sua cadeita... Mas adorava as histórias que ele contava entre um e outro cigarro! Tem um pai com uma inteligência fenomenal... E invejável!

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  4. O seu pai foi meu professor no ist... Fui uma péssima aluna... Confesso que não tinha o mínimo jeito para a sua cadeita... Mas adorava as histórias que ele contava entre um e outro cigarro! Tem um pai com uma inteligência fenomenal... E invejável!

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  5. Deve estar tão mas tão orgulhoso com este texto!

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  6. É muito bom escrever assim sobre alguém que está vivo! Parabéns!!

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