segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Gritei com ela e não me arrependo.

A quantidade de coisas que juramos a pés juntos que nunca iremos fazer quando somos mães, quando acabamos de ser mães ou até mesmo quando julgamos que já somos mães há tempo suficiente para nos conhecermos enquanto mães... 

Já mudei mais vezes de opinião do que de roupa interior (é uma forma de dizer - mudo de roupa interior diariamente, não se "preocupem") e o que tenho aprendido é que isso não tem problema algum. Cada vez menos fecho portas a novos ensinamentos ou a novos pontos de vista. Não estou sempre certa, ninguém está. Raramente se está. Não há um sempre. Bem, adiante que isto não é um teste de filosofia. 

Cresci a ter a certeza que se algum dia tivesse filhos que não iria gritar com eles. Durante estes três anos praticamente que não usei outro tom de voz com a Irene a não ser um calmo e, às vezes, um calmo que roçava um calmo altamente mamado em comprimidos que, se falassem assim comigo, iria ficar ainda mais passada da cabeça. 

Sei que há as mães que gritam e que vão ler este post e pensar: 

"Ahhhh eu já sabia! Ninguém consegue/deve não gritar em determinadas situações. Eles têm de perceber quem manda! Isso da parentalidade positiva é muito giro, mas é deve ser para quem tem filhos atordoados"

Também sei que há as mães que não gritam e que vão pensar: 

"Está já passou para o lado do demónio. Como lhe gritou uma vez e não se quer sentir culpada, cá está ela a inventar coisas."

Mas também existem as mães como eu: 

As mães que juraram a si mesmas que nunca iriam gritar por já terem sentido medo, por já terem chorado e por não se sentirem compreendidas. 

As mães que querem muito que os filhos se sintam ouvidos, amados e olhados nos olhos quando estão mais vulneráveis e não se conseguem expressar.

As mães que já gritaram aqui e acolá (ou, se calhar, nem gritaram, mas acham que sim) e que se comeram vivas com culpa por estarem a fazer o que juraram que nunca o iriam fazer.

Ontem gritei com a Irene e não me arrependo. 

Ela quer dormir com o ar condicionado ligado (desligo depois de sair) e desconfio que seja para ter a luz dele acesa (daquelas azuis tipo a Wii, sabem?). Não me deixa confortável porque sei que se dispersa mais facilmente e prefiro que estejamos no escuro. E, então, avisei-a que se fizesse mais barulho (depois de alguns minutos de muita paciência) que iria desligar o ar condicionado e que não havia volta a dar. 

Chorou. Chorou e gritou tanto que parecia um episódio da American Horror Story como se (últimoa season) a Condessa (Lady Gaga, by the way) se tivesse envolvido numa luta louca com aquele monstro gosmoso que tem um cone de aço na pélvis (tudo vocabulário que sempre esperei escrever num blog de maternidade #not). A janela estava aberta (sim, viva ao efeito do AC) e pensei que talvez até chamassem a polícia por acharem que estava a tratar dela como se fosse um leitãozinho da bairrada para jantar. 

Deixei espernear um bocadinho. Afinal de contas ela estava muito triste e zangada e fazia sentido, juntando ainda a questão de ser final de dia e de ter sono. Reparei que sozinha não iria parar, que já estava num ciclo. Reparei que a Irene estava a ficar exausta. Lembrei-me do Cesar Milan, um tipo mexicano que é especialista em cães (apesar de dizerem que os mal trata fisicamente, parte do que ele diz parece fazer algum sentido) e usei a técnica dele, a "snap out of it". Como não achei fixe dar-lhe com um calcanhar enquanto ela andava (daí a parte dos maus tratos físicos aos cães, calculo) enchi o peito (era bom que isto fosse literal... haha), engrossei a voz e saiu-me: "IRENE, JÁ CHEGA, IRENE!"). 



Fiquei à espera que ela chorasse mais e que ficasse magoada comigo, mas não. Embrulhou-se em mim, ainda a soluçar, mas um soluçar de quem tinha sido distraída. Expliquei que desliguei o AC para lhe ensinar uma lição e que ela agora sabia que quando a mãe diz que vai fazer é porque vai fazer. 

Ainda pediu várias vezes o AC, mas fui insistente na lição (e com uma vontade enorme de lhe fazer a vontade, mas não podia tê-la feito passar por todo este carrossel de emoções para não servirem para nada) e resultou. No dia seguinte, quando disse "a mãe desliga o AC", depois de lhe dar os minutinhos habituais para ela se passar na cama (a Irene antes de adormecer parece que tem de descomprimir imensa energia, parece ligada à corrente), compreendeu e soube que eu estava a falar a sério. 

Este grito não foi porque eu estava num dia mau. Este grito não foi para ela ter medo de mim ou "para saber quem manda" por eu não conseguir ser criativa por estar cansada ou zangada o que for, foi um grito para a ajudar. Já fiz com bater palmas, mas sinto que a assustei mais com as palmas do que com a voz grossa e mais alta. 

Há de haver dias para os outros gritos e lidarei/lidaremos com isso. 

Nada é certo em todas as situações. Aquela frase que sempre me enervou é verdade: cada caso é um caso. 

Desta vez não me senti culpada por gritar.

Nunca me esquecerei, porém, do que senti sempre que gritavam comigo e do que ainda sinto por "uma vez" terem gritado tanto. Não é sistema, é sintoma.

Não vou activar um sistema auto-carnívoro da minha filha em que ela grite sozinha com ela o resto da vida. Não vou activar um sistema auto-carnívoro da minha filha em que ela grite sozinha com ela o resto da vida. Não vou activar um sistema auto-carnívoro da minha filha em que ela grite sozinha com ela o resto da vida. 




Fotografia: The Love Project 
Pulseira: Portugal Jewels
Smartwatch: Fóssil 


a Mãe é que sabe Instagram



14 comentários:

  1. Trata-te! Urgentemente. Para vosso bem.

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  2. Olá Joana, será que faria sentido publicares mais textos sobre a forma como a tua educação moldou a pessoa e a mãe que és hoje? As coisas boas e as coisas más. E a Joana Paixão Brás também, claro.
    Como mãe tento muito não repetir com as minhas filhas os erros que acho que os meus pais cometeram (julgo que todas somos assim) para não quebrar nelas algo que acho que, de alguma forma ficou quebrado em mim. Como mãe, causar algum tipo de trauma nas minhas filhas é o que mais receio.
    Lembrei-me disto por teres falado de gritos e, embora eu não grite com as minhas filhas, às vezes sinto que posso ser demasiado autoritária com elas. Não grito mas repreendo bastante (quando acho necessário) e não sei até que ponto isso pode ser demais...
    Compreendo que é um tema muito pessoal por isso é mais do que natural que não queiram falar disso mas, se acharem que há espaço ou pertinência para isso, creio que ajudava muitas mães.

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    1. Oh querida, é autoritária com as meninas? Repreende-as? Realmente irão ficar traumatizadas. Por favor pare com essa attitude e deixe-as fazer tudo o que elas querem, até mandar em si, no pai e nos restantes adultos. Afinal, são crianças ou pessoas?

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    2. Oh anónimo das 21:50, que comentário mais parvo. Então vem uma mãe com uma preocupação válida fazer um pedido/sugestão destas, uma mãe que quer o melhor para as suas filhas e pensa naquilo que faz - pelo que parece, ao contrário do anónimo - e vem para aqui achincalhá-la? Ainda por cima com um argumento sem pés nem cabeça - sim, diga lá, crianças não são pessoas, é? Irra!!

      Carla, essa seria uma ideia muito boa, mas é também algo muito pessoal. Aconselho-lhe o livro "Raising a secure child" de Hoffman, Cooper e Powell, que trata muito bem desse assunto!

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    3. Inês, muito obrigada pela dica do livro. Já estou a ver em ebook. :)

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    4. Acho que crianças e pessoas são a mesma coisa.

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    5. Boa sorte, Carla! É muito corajoso da sua parte procurar respostas nesse sítio. Mas vale a pena. Força!

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  3. Aí estes anónimos. Se não gostam de ler o blog, simples... NÃO LEIAM! Beijos Joanaa e respetivas pequenitas!

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  4. Os tratamentos existem para todas as pessoas. Eu cá acredito que todos podíamos beneficiar deles �� beijinhos para as duas!

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  5. É a opinião do anónimo(a). Podemos ou não concordar, mas desde que seja feita de forma educada e sem ofender, há que respeitar. Ou só se pode opinar para dar palmadinhas nas costas? Qualquer opinião é válida, mesmo que seja diferente da nossa. Desde que não seja ofensiva.

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  6. Joana, aqui a luz do AC resolveu-se com um pedaço de fita cola preta em cima ;)

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  7. Joana quando começo a ler os teus post s perco me .. embrulhas muito.. e desisto ..

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  8. Nunca percebi estes comentários à escrita da Joana Gama, que se "perdem". Por acaso até gosto bastante, sinto que visualizo muito mais a situação do que, por exemplo, através da escrita da Joama Paixão Brás. Mas perdem-se? Como assim? É a gozar, certo?

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    1. Acho que deve ser uma aposta, a ver se conseguem que a Joana faça um post em forma de fluxograma. Ainda vamos descobrir um grupo do Facebook criado pra isso!!! :D

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