domingo, 8 de fevereiro de 2015

A moda das cesarianas

Estão na moda os turbantes, as t-shirts com statements (estilo "Last clean t-shirt" ou "I have nothing to wear"), roupa com franjas e... as cesarianas. 
Parece ser in marcar data e hora da cirurgia sem que ela seja realmente necessária. Há dias em que não vai dar mesmo jeito porque há mais que fazer. Assim o check in fica agendado, quarto reservado e vidinha organizada que há mais na vida do que um parto.

Mães que fizeram cesariana, não me queiram chacinar já. Percebo que quem tenha consentido em marcar a operação não havendo necessidade médica, o tenha feito porque alguém a convenceu de que não haveria diferença nenhuma e que não haveria risco algum (ver este vídeo para se rirem um bocado). Como não confiar no nosso médico? Ainda por cima estamos numa fase mais susceptível de ceder a pressões e a ansiedade pode ser nossa inimiga. E há quem queira tanto ouvir isso do médico que nem levanta uma única questão. (Claro que há sempre excepções e, por exemplo, uma situação anterior de parto "normal" traumatizante parece-me uma razão perfeitamente legítima para não se querer repetir a dose, entre muitos outros motivos e não quero ser eu a julgá-los).

Quando a minha obstetra (do privado) me disse, um mês antes, que provavelmente teria de fazer cesariana, chorei. Não estava à espera, não queria, confesso. Depois lá me mentalizei de que se tivesse de ser, seria. Que o importante era o parto correr bem e a minha filha nascer saudável. Contaram-me histórias com final feliz para me alegrarem e já estava preparada mentalmente. Acabou por não ser preciso porque, dias antes da já agendada cesariana, as águas rebentaram e tentámos o parto normal. Pode, afinal, não ser preciso. E é assim que se deve encarar uma cesariana: só quando é preciso (antecipando algum problema ou mesmo na hora do parto) e não porque se quer ou só porque sim.

Claro que as cesarianas já salvaram muitas vidas, claro que é graças às cesarianas que muitos bebés e mães sobreviveram e também deve ser terrível deixar um parto "normal" prolongar-se até às últimas forças por teimosia, pondo em risco ambos, mas esta prática quando é por "dá cá aquela palha" devia ser pensada, reflectida e muito questionada! Por que razão no privado há tantas cesarianas? Não estará o dinheiro metido ao barulho? Não será mais conveniente para alguns médicos (disse alguns, ok?) ter a vidinha planeada do que partos imprevistos e imprevisíveis? Não se fará uma melhor gestão do hospital desta forma? E como saber se o que nos dizem (de ter passado muito tempo desde que a bolsa rompeu, do colo assim e assado, ou do cordão à volta do pescoço) é mesmo verdade? 

A verdade, é que numa cesariana há riscos (neste artigo do Público):
- As complicações resultantes da anestesia são duas vezes superiores e as lesões urológicas acontecem 31 vezes mais.
- Os recém-nascidos ficam com riscos respiratórios cinco vezes superiores, acrescidos na infância de um risco de diabetes e de asma 25% superior aos dos partos normais.
- O risco de grandes hemorragias é 11 vezes maior.
- Após a cirurgia o risco de infecção também é 11 vezes superior, enquanto o de trombo-embolismo quadruplica. 
- O óbito materno acontece cinco vezes mais nos partos por cesariana. 
- Numa gravidez posterior também podem surgir mais problemas com a placenta, sendo o risco de morte do feto 1,6 vezes superior.

Em 2014, segundo o artigo, os hospitais públicos conseguiram baixar taxas de cesariana para 28% e atendem grávidas de maior risco. No privado a taxa ronda os 67%. O resultado global é de 33%, uma meta muito acima do recomendado pela OMS e o segundo pior valor da União Europeia, apenas ultrapassado por Itália. 
Então no Brasil, li algures, é um número enorme! Alguém confirma?

É esta a minha proposta: pensar um bocadinho melhor antes de escolher fazer uma cesariana só porque sim.

20 comentários:

  1. Eu tive uma cesariana no privado, não por opção minha mas da Maria que decidiu ficar sentada! Não quisemos arriscar os métodos existentes para tentar dar a volta ao pé pelo que optamos pela cesariana. Correu tudo bem e a recuperação foi espetacular!

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  2. Eu fiz cesariana, com tudo marcado por opção minha não do meu médico! Fiz porque tenho uma irmã com uma parelesia cerebral graças a um parto normal que correu muito mal e porque sou muito medricas nesta coisa de partos, medicos e hospitais! Se estivesse gravida voltava a fazer cesariana mas desta vez com anestesia geral. Sei que não é o melhor nem para mim nem para a minha filha mas foi a minha opção. LS

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  3. Eu tinha tanto pânico do parto que chorei qd soube q a mh filha estava já em posição para nascer as 30semanas. E mesmo verdade. Dizia que se pudesse não assistia ao parto e tudo.... Exagero de uma medricas de primeira viagem... O tempo foi passando e nas últimas semanas nem sequer pensei no tema parto... Aliás eu não queria nada que chegasse o dia "p" estava toda feliz a curtir a barriga... No dia "p" entrei em pânico mas não devido ao tipo de parto mas sim as circunstâncias que o envolviam (ahhhh nada como dar a luz no sofá da sala :) ). Já no hospital vi o horror que sofrem as mulheres que tem de fazer cesariana e as que levam epidural... Duas horas após o parto da minha filha eu já andava e elas gemiam de dores. Sim tive uma recuperação excelente e sei que não somos todas iguais mas naquele momento agradeci o facto de ter parido naturalmente e hoje passei de medricas para uma apoiante do parto natural com ou sem epidural. Uma cesariana e uma operação e deve ser feita quando existem riscos reais para mãe e bebê pois um parto não deve ser sinônimo de sofrimento ou até morte. Encarar uma cesariana como uma ida ao cabeleireiro com hora e dia marcado também me mete confusão e não devia de ser permitido.
    (Desculpem a falta de acentos)

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  4. Dois partos normais e espero que os próximos (sim, próximos, gostava de ter mais dois) também o sejam! Tenho uma amiga que decidiu ter a segunda filha (note que no primeiro, ela não sentiu dores nenhumas) no particular para poder ter uma cesariana! Azar dela, a filha decidiu nascer mais cedo e teve que ser parto normal, e sentiu as dores todas. É a vida!

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  5. Além das cesarianas agendadas só porque sim, há também a moda das induções agendadas só porque sim. Induções essas que acabam frequentemente em cesarianas porque a criança ainda não está pronta para nascer e a indução não resulta como devia!

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    1. O meu parto foi i duzido ás 40 semanas de gestaçao porque tive uma pré eclampsia, estive mais de 24 horas em trabalho de parto infelizmente tive que ir de urgência para um cesariana porque meu filho estava em sofrimento fetal.

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  6. Também via as cesarianas dessa maneira, só devem ser feitas quando necessário. A minha opinião mudou quando tive o parto normal ha 2 meses atrás. Foi horrível e o pós parto ainda pior! Jurei para nunca mais. Como quero ter mais filhos, disse logo ao meu obstetra/ginecologista, na consulta de revisão pós parto, que o próximo é cesariana e não quero mais conversas. Claro que me falou nos benefícios do parto normal e nos perigos das cesarianas, e é médico no privado. E mesmo as enfermeiras que tiveram comigo quando fiz o parto, disseram-me "Isso dizem todas quando saem daqui mas o tempo passa e esquecem-se e voltam a repetir a dose, até porque um parto nunca é igual a outro"..Pois é, mas não me conhecem mesmo para me dizer isso, nunca me irei esquecer do que sofri e ainda sofro quando me lembro daquele dia. Foi um trauma para mim e não volto a repetir.

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  7. Entrei em trabalho de parto e tudo indicava que iria ser parto normal, mas... após 19 horas naquilo (não dilatei) e com um CTG a dar indicações de sofrimento do bebé lá fomos para cesariana... Por vezes é mesmo preciso! Se tiver um segundo gostaria de experimentar a sensação de parto norrmal, mas... nunca se sabe...
    Natália Antunes

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  8. Para mim cesariana deverá ser o último recurso, mas também não concordo em que se deixe a mãe e o bebé durante horas e horas em sofrimento a ver se a mãe dilata e se faz parto normal.

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  9. O meu caso foi exactamente ao contrário, às 35 semanas, um bebé com restricção de crescimento que precisava de sair cá para fora, um corpo que não estava preparado de maneira nenhuma (como seria de esperar), uma cesariana aconselhada e mesmo assim eu quis tentar um parto "normal", tal não tinha sido a lavagem cerebral durante a gravidez. Resultado: 3 dias a brincar às inducções (que não pegavam por nada), uma dilatação inexistente, para acabar no que eu tentava evitar, cesariana! Hoje tenho a noção de que por estar numa altura mais fragilizada e rodeada de gente tão fundamentalista deixei-me levar nesses extremismos que colocaram a minha vida e a da minha filha em riscos desnecessários. Nunca mais, vou deixar de ouvir as vozes ao meu redor e vou concentrar-me mais no que EU sinto e penso em relação aos diversos assuntos. Infelizmente nem sempre as situações são tão lineares como se tenta fazer parecer, (claro que cada um tenta falar na sua experiência), no meu caso especifico passei por situações bastante evitáveis por dar ouvidos (demais, confesso) a opiniões extremistas e extremadas!
    GV

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    1. Concordo que devemos fazer ouvidos moucos a tantas opiniões e até aos preconceitos que trazemos connosco e ouvir-nos mais na altura. E o seu caso é a prova de que se a cesariana foi aconselhada, havia razões para tal. Mas percebo que na altura seja difícil!

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    2. E aqui também falo na falta de informação por parte do corpo médico. Quando pedi parac tentar um parto "normal" ao invés de prontamente acederem deviam ter-me informado das vantagens e desvantagens de ambos os cenários no meu caso, para poder tomar essa decisão de forma informada. Esse passo falhou. Mas eu também não questionei porque lá está, fui formatada para esse pensamento economicista (eles só querem é dinheiro).
      Sei que hoje uma das nossas desvantagens é existir demasiada innformação e estar acesssível a demasiada gente. Filtrar por vezes torna-se tarefa inglória e dificulta muito.
      GV

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  10. Tão verdade, isto!!! Haja alguém que me compreende :) Parabens pelo blog, é fantástico!

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  11. Eu desde sempre tive receio do parto, fosse ele normal ou cesariana (um pouco mais cesariana) pelo que desde sempre disse que seria por forma a ser o + benéfico para a minha filha. Na última consulta com a obstetra, uns dias antes do parto, ela disse-me que a bebé estava com uma posição que iria dificultar o parto normal, mas nada que não se resolvesse.
    De salientar que eu foi sempre seguida por uma obstetra particular, com seguro para partos mas que decidi ter no público (o marido tinha medo de que algo acontecesse no privado e termos que ser enviadas para o público).
    A 3 dias de completar as 40 semanas rebentaram-me as águas e lá foi eu para o hospital. Pouca dilatação, nada de contrações e tiveram que induzir o parto. Demorei bastante para conseguir fazer a dilatação, estive bastantes horas com dores por ainda não ter dilatação suficiente para a epidural. Estive 24h para que conseguisse a dilatação total e depois de várias tentativas para a expulsão, a obstetra que estava comigo confirmou o que a minha tinha dito: posição muito complicada para nascer de parto normal. Naquela hora chorei. Chorei de medo (porque tinha realmente medo da cesariana), chorei de cansaço, chorei de felicidade (porque a minha filha ia finalmente nascer!).
    Tudo isto para dizer que, felizmente, a cesariana correu bem, a recuperação foi óptima e não tinha grandes dores.
    Neste momento, 15 meses após o parto, continuo a dizer que num 2º filho, preferia cesariana porque fiquei com medo do parto normal....

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    1. Tenho uma opinião muito semelhante. Dias antes do parto, o obstetra disse-me a mesma coisa, mas ainda assim tentou-se fazer a indução para parto normal (sim, indução. Às vezes é mesmo necessário haver hora marcada: 40 semanas com placenta muito envelhecida e sem sinais de parto não permitem muitas esperas). Pouco tempo depois a bebé entrou em sofrimento e seguimos para a cesariana. Tal como a Paulinha, tive uma recuperação fantástica.
      O que me assusta muito é quererem diminuir o número de cesarianas a todo o custo, deixando as mulheres com demasiadas horas de trabalho de parto e com memórias terríveis de um momento que devia ser muito bonito.
      Cada caso é um caso, há induções e cesarianas necessárias, as situações não devem ser vistas como números...

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  12. O pior é que o problema é maior que fazer ou não fazer cesariana. As mulheres temem o parto natural porque a obstetrícia praticada na sua maioria em portugal é desumana e desactualizada. Enfermeiras parteiras com discurso de sargento, maternidades com falta de pessoal, falta de camas e partos apressados com oxitocina artificial, tratar de grávidas em portugal é virar frangos. Em vários hospitais públicos da zona de Lisboa tenho ouvido os mesmos relatos. Chega-se ao cúmulo de em nome da saúde tratar-se a grávida como um objecto, a quem se faz coisas, não existem consentimentos informados ou sequer clarificações "vamos fazer isto porque...". Quantas de nós e quantas nós conhecemos que sofreram episiotomia? (quando a OMS desaconselha largamente! A taxa esperada e a real são altamente dispares) Próximo parto, se o houver, há-de ser natural, mas no privado para fazerem como eu quero e acompanhada por uma doula para me ajudar a fazer vingar o meu plano de parto!

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  13. Olá Joana(s), moro no Brasil, São Paulo, e confirmo que aqui é mil vezes pior é chocante/alarmante....em 100 partos 4 são normais (isto na rede privada)...de todos as minhas amigas que já tiveram filhos aqui (e são bastantes), só uma foi parto normal...é um assunto que já nem pergunto nem faço questões pois aqui o normal é ser cesariana (?!!!) e tenho certeza que na maioria das razões é pelos causas que enunciou, comodidade do médico e da grávida. Estou a planear engravidar este ano, e a luta por aqui é encontrar um médico que faça parto normal :(
    Por aqui reza-se para não se demorar muito a engravidar, por tdo correr super bem durante na gravidez e na hora h a médica não me deixar na mão e resolver colocar a faca na minha barriga.
    beijo grande para vocês, vou acompanhado daqui

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  14. Eu sempre quis ter um parto normal.
    Infelizmente tive problemas de tensão arterial elevada e o parto acabou por ser induzido. Estava tudo encaminhado para ser parto normal, mas de repente o bebé "subiu" e acabou por ter de ser cesariana.
    Não recuperei mal, mas levei o dobro do tempo em relação a amaigas que tiveram parto normal. Vamos ver se no segundo consigo que seja normal. :-P

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