sábado, 16 de julho de 2016

A Avó culpada de tudo.

No outro dia fui de ambulância com a Irene para o hospital (contei aqui). À saída, quando estava à espera que o Frederico fosse buscar o carro (com nervos, não quis estar à procura de lugar perto do hospital e estacionou no primeiro que lhe apareceu à frente), meti conversa com a avó da menina.

A avó da menina tinha estado na sala de espera com a mãe da menina. A menina tinha partido o braço e mais tarde viria chorar horrores e gritar horrores ao ponto da Irene, na sala de espera onde a menina já não estava, chorar por a ouvir. 

Já não sei quem começou a conversa. Devo ter sido eu. Gosto de conversar. Disse-lhe: "a sua menina, como está?". 




A senhora começou a ficar visivelmente comovida. A menina e a mãe da menina não estavam com ela, creio que tivessem ido fazer alguns exames. Lá me explicou: 

- Ela costuma ficar com a outra avó. Fica sempre com a outra avó. Nunca ficou comigo. Desta vez ficou, porque a avó com quem ela costuma ficar sempre foi de férias. Tinha de acontecer comigo. O meu filho bem me disse ao telefone: "eu já sabia, tinhas de ser tu!". Ele disse que a culpa era toda minha. A menina tinha estado lá fora a brincar com umas pinhas, trouxe-a para casa para lanchar e ela pediu um baralho de cartas que eu dei. Dei e fui preparar o lanche. Parece que a menina escorregou numa carta e partiu o braço. Eu não vi. Eu estava a fazer o lanche. Escorregou numa carta. Coitadinha da minha menina, ela nem costuma ficar comigo. 

Tentei, como ando a tentar aprender agora, não ficar pelas emoções mais básicas e de lhe dizer que era normal que o filho dela estivesse chateado. A filha dele tinha acabado de partir um braço. Quando estamos chateados, costuma ir tudo à frente. 

Disse-lhe que a menina até ia gostar de ter o gesso e de escrever nele, apesar de saber que isso não ajudava aquela avó em nada porque a menina dela tinha escorregado num baralho de cartas que ela lhe tinha dado, porque a outra avó tinha ido de férias. 

A menina partiu um braço e a avó que já andava de coração partido, partiu-o ainda um bocadinho mais. 

Depois lembrei-me como poderia ajudar esta avó. Pedi-lhe para me falar mais da sua menina (o carro do Frederico estava mesmo longe) e os olhos dela iluminaram-se, todo o rosto dela ganhou vida (juventude até, pareceu-me) e lá contou que a menina andava a perguntar aos médicos como ia ser a operação, como é que a iam por a dormir. "Ela é mesmo muito esperta, é um orgulho". 

Acho que a ajudou falar um bocadinho. 

Coitadinha desta avó que só lhe deu um baralho de cartas. 

17 comentários:

  1. Coitada da senhora! Que sentimento de culpa! Agora talvez nem nunca mais a deixam ficar com a neta!!

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  2. Coitada da avó!! foi mesmo azar!!! espero que quando as coisas esfriarem deixe de se sentir tão culpada!!

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  3. Depois de passar um tempo, os pais vão certamente deixá-la voltar a ficar com a neta.
    É normal, "a quente" reagirem de uma forma mais emocional e ficarem muito chateados. Quem não ficaria?! Quando se trata dos nossos filhos, o nosso lado emocional sobrepõe-se sempre e se os vemos magoados ou feridos, ainda pior.
    Mas, depois do susto passar, vão perceber que foi um acidente e que podia acontecer com a outra avó e com eles também. Acho eu.

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    1. Isso não justifica a crueldade das palavras para com a mãe e avó desta menina!!! Acidentes acontecem e calhou ser com a avó mas podia ter sido com a outra avó ou até com os pais. Acho desumano acusarem uma avó tão extremosa por uma fatalidade que ninguém teve culpa!

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  4. Acho que não podemos tomar posições s saber o que se passou ao certo...até pode ter sido só azar mas tb pode ter sido desleixe... Não sabendo não acuso nem desculpa a senhora.Acredito que obviamente não foi propositadamente mas pode até ter sido grande descuido, as crianças precisam de muita atenção e nem toda a gente está preparada para cuidar de uma...

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  5. Se há coisa de que me orgulho enquanto mãe é de nestes 7 anos nunca, mas nunca ter culpado, mesmo nervosa, os meus pais ou sogros de algo! Se deixamos os nossos filhos ao cuidado de alguém temos que confiar, se não confiamos mais vale não deixar. O meu ficou com uma espinha na garganta, tinha 5 anos e foi em casa da minha mãe. Acham que eu lhe ia dizer que tinha que ser ali? que ela tinha tirado mal a espinha? Isso não se pode fazer. Acalmei filho e acalmei mãe e ficou tudo bem!

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    1. É sempre mais fácil culpar as pessoas .. mas ainda bem que há quem não o faça e entenda que as coisas acontecem pq sim.. Pq as crianças não são de plástico.
      Beijo e obrigada por ter esse cuidado.

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    2. Concordo consigo. Se aconteceu, foi de certo um acidente e os avós, sejam maternos ou paternos, ficam ainda pior que os netos. E no meu caso (e de ambos os lados) são ainda mais cuidadosos com os netos do que com os filhos/as. E quando acontece connosco? Sim, os acidentes também podem acontecer quando estão connosco...

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    3. Concordo plenamente e tb eu tenho essa posição! Mas conheço mt boa gente que acha que estranhos são mais competentes do que os avós! Acidentes acontecem em todo o lado... aredito que a quente se possa dizer o que não se quer mas este post acaba tb por trazer à baila a triste realidade de muitos avós... os meus são e foram únicos na minha vida. Espero que este filho tenha consciência do que disse e peça desculpa... um dia tb vai ser avô.

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  6. Ah! e a ideia de que só nós somos extremosas e cuidadosas o suficiente para tomar conta dos nossos filhos, também me parece egoísta e redutor, assim como achar que a nossa mãe também é melhor cuidadora que a nossa sogra...e por aí fora....

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  7. Acidentes acontecem e é por isso é que se chamam acidentes.
    Quando se está nervoso diz-se coisas que não se devem dizer, infelizmente.
    Espero que a situação esteja mais calma para o lado da senhora.

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  8. Existem sempre os familiares incompetentes que serão sempre incompetentes se não tiverem a oportunidade de mostrar que são competentes ou que têm vontade de aprender.
    Esta avó querida tem um ferida profunda no coração. Espero que filho, nora e neta a ajudem a sarar.

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    1. Muito bem dito! A minha mãe achava-se incompetente até eu lhe ter feito acreditar e meu marido também que ela era MUITO competente. Esteve com o meu filho 18 meses e eu só pedia que me contassem tudo o que acontecia, para eu saber o que fazer caso houvesse algo estranho. Sempre me provaram que podia confiar. A mãe do meu marido vêm para nossa casa uma semana por mês e toma conta do meu filho. As coisas acontecem, infeliz ou felizmente é assim. eles não são de porcelana, podem cair para a seguir se levantarem!

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  9. Com as avós paternas é "sempre" assim e eu com três filhos rapazes.

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  10. A história não deve ser assim tão simples, para o filho e a nora fazerem esse juízo de valor da senhora e não terem confiado nela até esse momento. Devemos sempre ouvir os 2 lados da história, é muito fácil julgar só por um... Para se partir um osso é necessário um traumatismo forte que dificilmente se compreende com o escorregar numa carta e cair da própria altura! Para ser correcto e não existirem juízos de valor sobre os pais, devia tê-los ouvido e colocado a sua versão aqui no seu post.

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    1. Para se partir um osso, ainda por cima, um osso de uma criança, não é preciso um traumatismo forte, basta um pequeno impacto, nem sequer é preciso cair. Por isso, é bastante compreensível que ao escorregar a crianças parta o braço.

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    2. A minha filha tem uma amiga que partiu um pé quando estava a escovar os dentes... estava a saltitar e o pé caiu mal no chão. a mina afilhada partiu um braço ao cair de um sofá... e tantas outras situações nesse género vão acontecendo todos os dias. Nada justifica a crueldade das palavras que foram ditas, a nao ser que a avó a tivesse empurrado propositadamente. Nao tendo sido esse o caso, parece-me uma crueldade injuatificada...

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