quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Filhodependentes

Vamos começar por confessar: pertencemos todas ao grupo de pessoas que consegue estar a falar ininterruptamente durante 30 minutos sobre os nossos filhos, não é?

Mas se bem se lembram, há uns aninhos, revirávamos os olhos quando na mesa ao lado, no restaurante ou na cantina do trabalho, ouvíamos uma grupeta de mães a falar de cocós, do infantário, das roupas que se esfolam nos joelhos, das viroses que por aí andam. 

Dizíamos ao nosso grupo de amigos “Ai! Eu quando for mãe não vou ser assim. Quero ter vida própria. Quero ser interessante”. Pois, minhas queridas, a verdade é que nos tornamos no grupo de filhodependentes que não sabem quando parar. Cinema? “O último filme que vi foi o Avatar…” Música nova? “A Galinha Pintadinha conta?” O Sócrates foi preso em Évora? “São todos iguais”. Por muito que queiramos não conseguimos ter grandes temas de conversa nem sair das frases feitas.
Mas vamos tentar?

Eis o que vos proponho, qual guru: fazer um exercício simples para tentarmos curar esta filhodependência.

Inspira. Expira.
Primeiro passo: assumir que somos chatas.
Todas juntas, dizer esta mantra: “Eu, mãe da Isabel (nome do vosso filho, ou seria só parvo), sou chata. Ninguém quer saber da cor do ranho da minha filha. Ninguém ganha nada com a informação de que ela já come sopa com carne. Todos os bebés fazem isso.”
Inspira. Expira.

Segundo passo: ler nas entrelinhas. No início vai ser difícil controlarmo-nos, mas o mais importante é perceber que já estamos a ser chatas. Quando?

  1. Quando percebemos que ninguém nos está a fazer perguntas há, pelo menos, 5 minutos.
  2. Quando o interlocutor ficou com os olhos molhados. Não, ele não está comovido, apenas acabou de bocejar discretamente.
  3. Quando o interlocutor faz comentários como “ah, que giro”, “hã hã”, “tão bom”, a olhar para o telemóvel. Não é tão giro, nem tão bom. Ele está só a ser simpático.
  4. Quando o interlocutor tenta mudar o assunto nem que seja para falar da meteorologia e nós aproveitamos para dizer que temos o miúdo constipado ou que lhe comprámos um gorro novo. Ninguém quer saber!
  5. Quando o interlocutor revira os olhos. Não, ele não está a ver a mosca a passar, nem lhe entrou nada para o olho. Ele só não quer ouvir-nos mais!

Terceiro passo: fazer uma lista de coisas interessantes para dizer. Enquanto estamos na sanita, pegar no telemóvel e ler as gordas das notícias. Mesmo que não consigamos aprofundar muito os assuntos, podemos lançar temas novos! E não, notícias que envolvam criancinhas não contam!

Quarto passo: para que esta mudança nas vossas vidas não seja muito repentina, ponham um penso no braço. O penso é o "A Mãe é que sabe". Venham cá pôr a conversa em dia, contar-nos como é o ranho dos vossos filhos e ser chatas. Nós não nos importamos.

6 comentários:

  1. Já apanhei mtas secas, já fiz que me interessava, já fiz que "aí tão lindo" e não achar nada... Mas não posso é dar grandes secas. Sou a ultima a ter filhos, por isso já todas passaram pelo mm que eu!!!

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  2. Amei! É mesmo isso. Pior é apercebermo-nos que um desses pontos que referiste está a acontecer e, mesmo assim, o desejo de continuar a desfiar histórias e mais histórias das nossas crias continua. :D
    Mas também conheço mães que detestam falar dessas coisas e que preferem continuar a afirmar a sua condição de mulher. Não condeno, atenção, mas desconheço as razões para tal acontecer.

    Beijinhos, Joana!

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    1. Carla, um meio termo parece-me bem! Mas eu confesso que adoro que me perguntem pela Isabel. É uma simples pergunta de circunstância, mas eu aproveito para fazer a lista das novidades! Who cares?! ahah

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  3. Acho que vou imprimir a lista e afixar na parede, no carro, na porta do frigorífico... eheheheh... Realmente antes de ser mãe achava uma seca as mulheres que passavam a vida a falar dos filhos... Mas que raio de interesse tem falar-se acerca dos tipos de cocó que um filho faz??? E quem é que quer saber se ele se baba muito ou quantas vezes acorda para mamar???
    Pois... a resposta é "as outras mães"... parece que a partir do momento em que temos um filho passamos a fazer parte do "mundo encantado das mães" em que tudo o que era nojeira e desinteressante até então passa a ser tema de conversas de horas... ihihihihi... mas é tão bom termos filhos para falar de coisas destas...
    Ah!!! E devo dizer que ainda pior que o mundo das mães é "o mundo encantado das avós"... Elas têm as mesmas conversas que nós mães mas repetem-nas milhões de vezes como se fosse a primeira vez...

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  4. Desde miuda que sempre adorei conversas de mães, ficava sempre ao pé da minha mãe e das amigas a ouvir o como foi o parto, como eram os bebes, as histórias engraçadas, por aí. Cresci e tornei-me mãe e continuo a adorar trocar experiências. No emprego tínhamos uma sala de almoço onde colegas (homens e mulheres) falávamos dos nossos pimpolhos ,do que tínhamos comprado, como fazíamos etc, até que os outros sem filhos comiam num ápice e iam à vida deles. Entretanto deixamos de ter esse espaço mas as conversas continuam! Não há nada melhor que trocar gracinhas e mostrar fotos deles :) mas tento sempre estar minimamente informada, para manter conversas a nível social, para não parecer que estou a leste (apesar de às vezes estar!).

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