2.02.2015

Afinal havia outra (#04) - "Mãe, viste o monstro azul?"

Mortinha de saudades do pai que estava longe há duas semanas – e com apenas dois anos e meio - a Maria Rita voltou-se para mim e disse: “Ó mãe, se as nuvens fossem minhas amigas sopravam sopravam sopravam e o avião do pai chegava cá mais depressa!”



Uma pessoa passa os nove meses da gravidez a falar com eles, a cantar para eles – pobres coitados! - a partilhar tudo com eles. Mal nascem, queremos contar-lhes as histórias que nos contaram em crianças e dizer-lhes tudo. Tudo! E depois eles começam a falar e nós perdemos o pio.

Quando as nuvens sopraram sopraram sopraram e o tal avião do pai chegou, houve uma tarde em que ela pediu uma bolacha de chocolate. Estávamos na cozinha e o pai disse-lhe que se quisesse podia comer uma bolacha maria – “das outras não”. Ela olhou para mim, olhou para ele, voltou a olhar para mim e disse, apontando para o pai: “Quando é que ele volta para o Brasil?”

Com quatro anos, as “saídas” dela continuam a ser espontaneamente engraçadas, mas estão cada vez mais salpicadas de curiosidade. Há umas semanas, estávamos a passear e ela perguntou-nos o que é que era aquela casa junto ao mar, que parecia um castelo. O pai disse-lhe: “Aquele era o castelo do Príncipe do Mar!”. “Então e porque é que já não é?”, perguntou ela logo de seguida. “Filha… já não é porque ele já não vive lá”. Dois segundos de silêncio: "Porque já não vive lá ou porque isto é só uma história inventada?".

A dúvida fica no ar, para dar trabalho à imaginação – à dela, desassossegada por natureza, e à nossa também. Como daquela vez em que entrei na sala e ela perguntou se eu tinha visto o monstro azul. “Monstro azul, monstro azul… mas que raio?!” Eu juro que pensei em bonecos, livros, puzzles e até roupa com estampagens de um monstro azul, mas nada. Na minha cabeça, só princesas da Disney. “Monstro azul, filha? Não sei do que é que estás a falar…” “Ah, esquece mãe, claro que não viste porque assim que tu entraste ele escondeu-se debaixo do sofá!”

A imaginação das crianças não conhece limites. Inventam jogos, canções, palavras, tudo e mais alguma coisa. Tanta coisa que eu dou por mim a invejar o “disco rígido” delas. Dava-me jeito na altura de responder a saídas do género “estava aqui a imaginar que amanhã não tinha escola e estava a ser tão bom!”. Não estamos preparados para isto e muito menos para conversas sobre namorados:

Eu: então, o teu namorado ainda é o Vasco?

Ela: sim, ele não mudou de nome...

Eu: pois, eu sei, mas podia ser outro, tipo o Rodrigo ou o Martim...

Ela: achas mãe?! O Rodrigo e o Martim portam-se mal e não comem o almoço todo!

Eu: e o Vasco porta-se bem é?

Ela: também não, mas é o mais bonito...


Catarina Raminhos
mãe da Maria Rita, de 4 anos, e da Maria Inês, de 2 anos

Colo? És a minha mãe, por acaso?

Eu sabia que este dia ia chegar. No fundo, no fundo, eu sabia. Durante 9 meses, a Isabel ia com todos, salvo seja. Família, amigos, amigos dos amigos, o colinho de todos era bem-vindo.


Agora? Parece que está a ser raptada. Colinho só o da mãe, do pai, da avó Béu e das educadoras. Ui, ui, que ela vira fera! Agora já faz uma selecção apertada, consoante o vínculo que criou com as pessoas. Claro que depois os outros avós e os tios ficam cheios de pena, mas é a vida. Assim à distância está tudo muito bem, sorri para todos os desconhecidos que se metam com ela, mete-se com toda a gente, agora confianças dessas? Nem pensar. Só ao fim de umas boas horas de ambientação é que a conseguem conquistar e nem sempre!

Não sei se são como eu, mas adoro que a minha filha seja sociável, que digam que é simpática e sorridente. Sinceramente, custa-me ver as reações das pessoas e ter de estar a justificar "ela faz isso com toda a gente agora, não é por seres tu". Por um lado, adoro ver que é em mim que ela confia e que é de mim que ela precisa, mas espero que ela não esteja sempre de volta das minhas saias, porque acho um piadão a crianças bem-dispostas, dadas e cheias de lata.

Espero que isto, tal como todos dizem - e os livros -, seja apenas uma fase, um marco no desenvolvimento psicológico e emocional da Isabel. 

Também acontece(u) convosco?

2.01.2015

PPP - Preparação para o Pai

Olá, Pai.

Quero só dizer-te umas coisas, pode ser?

1 - Dá muitos beijinhos à mãe porque ela anda com mil e tal coisas na cabeça por minha causa. Além de andar super inchada e com os pés todos gordos, não consegue dormir bem durante a noite (por culpa de alguém que não vou mencionar hehe) e por ter sempre muito xixi. 

2 - A mãe sempre gostou de ouvir que é bonita mas, se puderes, diz-lhe mais umas vezes. Mesmo que ela pareça um McBacon, se ela se sentir bem com ela própria, vai ser ainda mais queridinha contigo. E vais ver que, como que por magia, vai ter menos desconforto, mesmo que já esteja grávida de 15 meses e meio. 



3 - Pai, mesmo que não entendas que a mãe quer comprar uma lima, um corta-unhas e uma tesoura, já que todos servem para o mesmo, deixa-a estar. Ela precisa de tudo o que vai comprar, nem que seja para não ficar nervosa a pensar no que lhe falta. 

4 - Eu percebo, pai. Eu não vou sequer reparar que estou num quarto nos primeiros meses de vida, para quê a pressa? A mãe quer que eu tenha o quarto mais bonito do mundo. E, se pensares bem, mesmo que dê muito trabalho andar a pintar paredes e a colar autocolantes, não é uma vontade muito querida da parte da mamã?




5 - Se é estúpido falares para uma barriga insuflada? É, mas isso descansa a mãe e também faz com que me habitue à tua voz. Descansa a mãe porque te vê a seres (já antes de eu nascer) o pai mais querido e dedicado do mundo (mesmo que seja parvo o que ela te pede) e é bom habituar-me à tua voz, para ser mais fácil acalmar-me contigo quando estiver cá fora. 

6 - A mãe às vezes é parvinha. Não lhe digas que te disse isto, mas é verdade. Ela às vezes faz birras por coisas estúpidas e muito mais agora que anda cansada e enervada. Não é que tenhas de deixar que ela ganhe, mas pensa que as coisas não estão propriamente a ficar mais fáceis para ela e que tu e eu beneficiamos dessa vitória de a deixares ficar com a bicicleta. 




7 - Sei que andas muito preocupado que me venha a faltar alguma coisa. Não te preocupes muito, vamos sempre safarmo-nos. Há várias maneiras de fazer cada coisa e temos só de fazer algumas escolhas. Aquilo de que realmente precisamos já temos: amor. Parece conversa parva, mas é verdade, pai. Se houver e se se puder, porreiro, senão acredita que vamos ser a melhor família do mundo e vou fazer-te super orgulhoso.

8 - Aproveita agora para namorar. Não que a mãe vá desaparecer, mas sou eu quem vai mandar durante uns tempos lá em casa. Apesar de ires ter saudades dela, preferes que seja assim, não é? Depois devolvo-ta e ainda mais bonita porque, além da tua namorada, é também a mãe do teu filhote. 



9 - Quando eu nascer, não tenhas medo de me tocar. Preciso muito, muito de ti. Quero cheirar-te, sentir o teu calor, tudo. Lá por não ter morado em ti durante meses, vou morar contigo durante anos e amar-te durante toda a minha vida. Mexe em mim, estás naturalmente equipado também para me manusear. Eu sou o teu bebé.

10 - Não te esqueças: posso ainda não estar cá fora, mas já és o meu pai. Estes 9 meses são também para aprenderes a ser arrebatado por tantos sentimentos, para depois não explodires quando me vires pela primeira vez.