5.10.2020

Adormeceu a soluçar com saudades da avó

E partiu-me o coração. 



Por um lado, tento imaginar que se estivéssemos emigrados também seria impossível estabelecerem contacto físico com os avós e a vida seguia. 
Por outro, sei que eles estão ali. E elas também. O meu pai sozinho há dois meses. A minha mãe tem um ecrã cheio de corações e máscaras do messenger a enfeitá-la. E o cheiro? E os abraços quentinhos? Elas sentem falta deles. Eu também. 

Eu achava que o pior já tinha passado, em termos de habituação, de mudança de rotinas. Psicologicamente, sinto-me mais estável até. Mas noto-as, nos últimos dias, mais desejosas de voltar. De voltar a ver os amigos, a escola (a Isabel pede-me - por favor, mãe! - para pelo menos ir um dia a esta escola, antes de mudar para a escola onde vai fazer o primeiro ciclo), os avós e os tios, as primas. Não é que estejam o dia todo a bater nessa tecla, mas de vez em quando descomprimem expressando a frustração de lhes terem alterado o esquema todo. 

Quando? Pergunto-me muitas vezes. Quando poderemos ver os meus pais e a minha avó? O máximo que aconteceu foi no dia 16 de março a minha mãe escrever na estrada, lá em baixo, "parabéns Isabel" e vir cantar os parabéns da rua. Ainda nem os visitei (mesmo mantendo distanciamento) por achar que dificilmente conseguirão manter uma distância de segurança. Que, por muito que lhes explique as regras, vai ser doloroso não poderem interagir fisicamente com eles. E quero protegê-los. E aos outros. 

Mas até quando? Também se perguntam isto? Até quando teremos de privar avós e netos ao que de mais precioso têm na vida uns dos outros? Até termos imunidade de grupo? Até encontrarem uma vacina? E haverá vacina para este vazio? Para acalmar os soluços da Luísa, que vêm normalmente à noite quando me pede para lhe cantar a música do Vitinho (a mesma que a minha mãe lhe costumava cantar quando a adormecia)? 

Acredito muito nesta necessidade deste isolamento (e os resultados estão à vista: fomos alunos bem comportados e estamos a ter boas notas). Temos de continuar a respeitar a distância, a higienização e tudo o mais, em prol de todos. Esta responsabilidade e consciência colectiva é bonita de se ver e traz frutos. Mas pergunto-me muitas vezes pelas lesões do coração. Nos colos vazios de netos, nas recém-mães sem rede de apoio, na solidão de muitos, que deixa mossa. 

Temos de dar mais colo uns aos outros, mesmo que de forma virtual. Palavras de esperança. Memórias boas, que havemos de repetir. Disse baixinho a Luísa: "está quase, um dia vais voltar a estar com a vovó". E vai.  


17 comentários:

  1. Lindo, pode me seguir também? Beijinhos

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  2. O que já fizemos foi o seguinte: perto da nossa casa existe uma mata, aonde costumamos ir dar alguns passeios higiénicos. E já fomos dar passeio com os avós. A minha filha sabe que não pode chegar perto dos avós, vamos com a devida distância. Ela fica feliz da vida por vê-los, por falar com eles, por lhes contar as suas histórias :) Foi a solução de equilíbrio que encontrámos.

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  3. Mas a Joana e o marido continuam a trabalhar fora? Ou a sua mãe? Eu e o meu marido estamos em teletrabalho desde 13/3 e a nossa filha (1 ano) connosco em casa. Ficámos as primeiras 3 semanas em casa e sem ver ninguém, o mesmo fizeram os meus pais, já reformados e que moram a 5min a pé de nós. Após esse tempo, nenhum de nós tinha sintomas, como tínhamos estado isolados 3 semanas e assim íamos continuar, passámos a ver-nos na casa deles e a deixar lá a neta umas horas por dia. Nós só saímos para ir às compras/farmácia e pequenos passeios ao ar livre bem cedo e sem contacto com ninguém e com as devidas precauções, por isso a possibilidade de estarmos infectados é diminuta, por isso optámos por estar todos juntos e ter contacto, é o melhor momento do dia para eles e para a neta quando se encontram e brincam juntos.

    Isto irá acabar quando tivermos de regressar ao trabalho presencial e ela à creche, provavelmente em julho. Aí não me sinto à vontade em vê-los, já que vamos estar os 3 expostos diariamente e podemos contagiá-los, mesmo sem termos sintomas. Mas para já vamos aproveitando!

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    1. O risco é diminuto, é verdade, mas conheço quem estava já em casa há 3 semanas, só com saídas para compras de supermercado, e bastante cuidadoso, e mesmo assim apanhou o vírus. É normal que mesmo que esteja em casa em
      Isolamento não se sinta confortável em andar a fazer visitas a não ser que não haja mesmo outras saídas.

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    2. E essa pessoa não tinha mesmo contato com mais ninguém que não estivesse em isolamento (tipo o cônjuge continuar a trabalhar)? Tem ideia de como ou onde apanhou? Numa ida ao supermercado? É que já li vários artigos e estudos que dizem que a grande maioria dos casos vêm de contato direto com pessoas já infetadas, se estivermos em isolamento com família nas mesmas condições será muito difícil apanhar numa saída às compras (com cuidados)...

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    3. Não, tanto ele como a mulher estavam em teletrabalho. E ele é muito paranóico quanto aos cuidados a ter daí termos todos ficado espantados como énorme que apanhou.

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  4. E muito complicado para nós, mas para eles é muito pior. Querem passear, estar com os amiguinhos na escola e não podem. Resta-lhes estar em casa com os pais dia após dia. E muito cansativo para eles, ainda mais não apercebendo porquê.

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  5. Olá Joana,
    Claro que tive de chorar um bocadinho com este texto. O sentimento é o mesmo: o desalento momentâneo e a sensação de não saber a profundidade deste poço. Estou grávida de 31 semanas do meu primeiro filho e vejo os meus pais apenas quando me trazem compras a porta (tentando poupar-me a mim e ao meu marido de sair, já que tem de ir comprar também para eles), momentos que ainda doem mais pelo sentimento de culpa da minha parte e pelo olhar de carinho e de dor que sai diretamente deles quando percebem que a minha barriga cresceu mais um bocadinho a uma distância que não estava programada.
    O que a Luísa chora enquanto criança que tenta compreender, eu choro enquanto futura mãe que se está a deparar com a maternidade e um vírus pela primeira vez, ao mesmo tempo. É assustador. Mas resta-nos esperar e agarrar-nos aos dias bons para superarmos os maus.
    Obrigado pela partilha, porque muita gente tenta passar um lado positivo que muitas vezes nem sequer sente, não falando dos seus “breakdowns”. Mas esses acredito que existam para todos nesta situação, e acho mais saudável se os partilharmos para podermos, como referiu, “dar mais colo uns aos outros”.
    Um beijinho grande com desejos não só de saúde como também de serenidade 😘

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  6. Boa tarde Joana,

    A sua mãe está em casa a trabalhar? Não seria vantajoso nesta altura deixar as meninas passar um dia com os avós ?
    Não haverá uma cura mágica de uma dia para o outro. Mesmo com uma vacina não chegará a todos de uma maneira rápida.
    Penso que com os cuidados de higiene necessários o mais importante agora é o amor.
    Atenção também estou em isolamento e apenas saio para o essencial mas não se esqueça ... não há vacina para a depressão e é algo real mesmo em crianças tao pequenas .
    Não é de todo uma crítica apenas uma opinião é uma maneira mas calma de ver as coisas :) certamente a Joana saberá o melhor para as meninas

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  7. Pergunto-me se não vamos antes morrer da cura, enquanto estamos a fugir do mal!
    Receio que ao estarmos a proteger os nossos filhos e os nossos pais, estejamos a provocar um sofrimento que me parece um preço demasiado caro a pagar.
    No dia em que a minha irmã me ligou a dizer "a tua sobrinha só chora e diz que lhe doi a barriga porque tem saudades tuas" não quis mais saber do vírus, nem dos riscos, nem dos medos. Se o meu abraço ia curar as dores de barriga da minha menina de 6 anos, pois que assim fosse!
    E curou mesmo. E hoje mantemos os abraços, e elas abraçam os avós, com a força do amor e do medo, mas não sabemos o dia de amanhã e não queremos perder os abraços que ainda podemos dar hoje. Claro que não somos de risco. Vivemos num sítio onde ainda há poucos casos conhecidos, não temos comportamentos de risco. Mas não posso jurar que não faria igual mesmo se as condições fossem outras. Porque só vivemos uma vida, e se temos de viver sem abraços e sem amor, e com dor de barriga de saudades, então nem sei se vale a pena viver!

    Um beijinho e que tudo corra bem. As suas filhas são um amor!

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  8. Ola Joana.
    Acho muito importante avós verem netos e vice-versa. Não sabemos o dia de amanhã. Mas...não deve haver abraços e beijinhos... e mascaras postas...
    Já fiz isso com os meus pais e a minha filha, depois de estarem mais de um mês sem se verem pessoalmente.
    É estranho, é diferente, mas é melhor do que nada! Bjs

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  9. Nós temos estado em casa, a avó tem estado em casa.. Já fomos visitar, e passeamos na rua com ela. Não há beijinhos nem grandes abraços.

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  10. Completamente de acordo. Não imagino como estaria a minha mãe se estivesse sem ver as netas desde o início de março. Nas últimas semanas temos feito algumas visitas e conto continuar a fazê-lo até sermos obrigados a sair de casa.
    Um beijinho, Joana. As tuas filhas são o máximo.

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  11. Também concordo que é possível as meninas verem os avós. Que tal um passeio ao ar livre mantendo a distância?

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  12. Passados 2 meses de distanciamento social entre pais e avós, em que tanto eu como o meu marido estivemos (e estamos) em teletrabalho, com uma filha de 2,5 anos, não aguentei mais e tive de pedir ajuda. A minha filha sempre esteve com os avós, está separação estava a provacar-lhe alguma ansiedade, apesar de tão nova. Eu, derivado de toda a logística e stress diários tive vários episódios de cair redonda na cama, tal era o cansaço extremo, a minha atividade é bastante exigente...tal como uma criança de 2,5 anos.
    Com todas as precauções possíveis, pedi aoseus pais para regressarem, precisávamos de ajuda, mas com as devidas cautelas. Tenho medo? Sim, tenho. Os riscos foram ponderados, considero-os avós "novos", nenhum tem aínda 65 anos e têm uma saúde bastante boa. Decidimos arriscar. Não era para ser já, mas a situação estava a ficar incomportável...estive quase para meter baixa.
    Algum dia temos de voltar às rotinas, dentro da nova "normalidade" e acho que a minha filha estar com os avós não deve ser pior do que os filhos dos pais que não têm outro remédio senão retomarem a creche. Cada caso é um caso e...que tudo corra pelo melhor. :-)

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  13. A tua mãe certamente sai para fazer as compras, certo? Com o teu pai provavelmente passa-se o mesmo. Nessas saídas, ainda que breves e cuidadosas, cruzam-se com dezenas de pessoas. Ou seja, qualquer um deles está exposto ao contágio.
    As tuas filhas não têm ido à escola, certamente não vão contigo fazer as compras ao supermercado, nem recebem ou vão brincar para casa de amiguinhos. E isto acontece há mais de 14 dias, pelo que com alguma segurança podes assumir que não estão infectadas. Assim sendo, não vejo como poderão os teus pais ser expostos a um maior risco ao contactarem com as netas. De certeza que pesando o risco/benefício do encontro entre avós e netas o prato vai pesar muito mais no prato do benefício.

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  14. Joana, Também não vejo motivo para as tuas filhas não estarem uma tarde de vez em quando com os avós. Ainda por cima penso que os teus pais (posso estar errada) nem têm ainda 65 anos nem doenças. Olha aqui
    https://www.publico.pt/2020/05/06/sociedade/noticia/convivio-avos-netos-depende-tipo-avos-falar-1915368

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