1.20.2015

Escrevo-vos directamente do meu carro

Não, não se preocupem, não estou a conduzir. Tenho calças de cabedal (ou de plástico, o efeito é o mesmo) mas não sou o Toy que conduzia com os joelhos para poder ter as mãos livres para o telemóvel.

Todos os dias, ou quase, passo cerca de 30 minutos no carro, por volta das 18h30, com a Isabel a dormir lá atrás.
Todos os dias tenho a mesma dúvida: deixo-a acabar a sesta ou levo-a para casa? Já me aconteceu acordá-la sem querer no caminho, mas também já correu bem e continuou a dormir em casa. Esta sesta, depois da creche, é fundamental para ela ficar bem-disposta e jantar bem. E mesmo assim tenho invariavelmente de fazer as maiores macacadas para ela comer tudo, antes de começar a esfregar os olhos e a besuntar-se toda com sopa.

Dei por mim a pensar nas pequenas coisas que fazemos pelos filhos. Esta é uma delas: medir os prós e os contras de tudo e privilegiar o que é melhor para eles em detrimento do que nos é confortável e do que nos dá jeito. Passa a dar-nos jeito que eles estejam bem, isso sim.



1.19.2015

O meu pipi tem um contexto.

Caso ainda não tenham reparado, sou mulher. É verdade. Apesar de não parecer uma fada madrinha ambulante como a Joana Paixão Brás e de ter passado a maior parte da minha vida vestida como se fosse jogar futsal, o meu pipi tem um contexto. 

Tem, tem! Eu até sou aquela que se ri das mesmas piadas dos rapazes, não costumo ter muitas coisas de mulher para falar com as amigas (que amigas? - não, não precisam de chorar, não tenho mesmo jeito para me dar com mulheres, só com mulheres que tenham uma paciência incrível para me aturar), só fiz depilação a cera naquilo que disse há pouco que tinha contexto este ano e já lá vão 28 anos que o tenho, só fiz pedicure duas vezes e, da última, não consegui andar durante um mês (merd* de pedicure: "tem a pele dos pés muito sensível, não tem, D.Joana?", "Diz isso por ter todos os dedos cheios de sangue ou decidiu atirar para o ar, sua valente...")... Pronto. Já perceberam a ideia. Apesar de agora me maquilhar (porque tenho uma rosácea maior do que a daquela personagem do Herman que fazia um programa desportivo e porque, como me visto melhor, sinto que não devo andar com a mesma cara de traseiro - achei que "cu" era demasiado ofensivo e quero manter as minhas leitoras mais susceptíveis comigo), continuo sem ter muito jeito para ser mulher, a verdade é essa. E acho que todas vocês me topam se eu tentar andar de saltos num centro comercial ou se tentar fazer risco com o lápis. Notam que sou uma poser ou/e uma iniciada nisto, apesar de já ser adulta. 

Sabem onde é que eu sei que sou mesmo muito mulher? A estacionar. Epá, já sei que há para aí grandes campeãs que não fazem jus ao estereótipo, mas eu faço. Eu sou aquela adulta que, ao brincar com aquela caixa com buracos e para por formas, em vez de pensar um bocadinho onde pôr a estrela e pôr no sítio certo, não. Prefiro tentar por a estrela no círculo, no quadrado, na casa, no hexágono, até acertar no sítio certo e ficar contente com a surpresa.

O mesmo a estacionar. Ora bem, sendo condutora de domingo (porque sempre andei de transportes), a minha arte de estacionamento ainda não está bem desenvolvida apesar dos meus quase 30 anos de idade. 

Houve uma óptima fase (tentem imaginar passarinhos a cantar), que foi a quando estava grávida em que podia ir aos centros comerciais a horas absurdas (em que são só velhotes e outras prenhas) e conseguia estacionar ou nos lugares enormes para barrigudas ou então atravessada em 3 ou quatro lugares, à vontadinha. 

Agora as coisas pioraram novamente (imaginem uma música dos Sepultura). Sujeito-me (porque posso e acho que deve ser assim, já que posso) aos horários de sono da Irene e, por isso, arrisco-me a ir à hora de maior fluxo (sim, a mim também me vem à cabeça "período" sempre que oiço essa palavra) ao centro comercial. O que é que acontece? Os lugares de crianças de colo, grávidas, famílias (ou lá o que é), estão todos ocupados e aqui a pequena tem de estacionar num sítio entre dois carros (nível um) e de maneira a que consiga tirar o ovo (nível 2) ou, até, deixar o ovo mas conseguir tirar de lá a criança para pôr no carrinho (nível 3). 

Por que é que os centros comerciais não têm mais lugares para nós? Acham que somos todas grandes campeãs a estacionar? Se calhar, vocês até são, mas eu continuo sempre aquela rapariga que põe a estrela no quadrado. 

Por que é que as outras pessoas insistem em não centrar os carros nas marcas de estacionamento? Se não têm a dificuldade acrescida de ter de tirar um mini ser humano da parte de trás, será que podiam deixar aquilo alinhadinho (como se fosse um poema) no lugar para nos poder deixar estacionar entre carros? 

Por que é que não fazem um ovo que deslize de um lado do banco para o outro com um comando? Com o ovinho estamos limitadas e temos sempre de estacionar mais à larga no lado onde está o ovo. As vezes que já me apeteceu trocar o ovo de lado (como, mais ou menos, aquilo onde se põe a gasolina do carro), mas que, infelizmente, dá muito trabalho e teria de mostrar o fio dental a toda a gente do parque de estacionamento. 

São todas campeãs a estacionar ou o vosso pipi também tem um contexto?

Sei que, pelo início, isto não parecia ir dar a um post sobre estacionamento, mas a vida é assim: cheia de surpresas. 

Catarina e as Marias (#01) - Filha, vais ter uma mana!

Com apenas 18 meses, a Maria Rita recebeu a notícia: “Filha, vais ter uma mana!”. Não queríamos só uma, por isso decidimos lançar-nos à aventura, sem medos – com alguns, na verdade.





Ela reagiu com alguma indiferença, e foi também com indiferença que começou a ver a barriga da mãe crescer. Só nos últimos meses é que ficava mais colada ao meu umbigo e chamava pela “Minês” – na esperança de receber alguma mensagem vinda do interior daquele enorme balão (estão a ver as fotos? Ainda faltavam dois meses inteirinhos…).

Mas o balão rebentou, tinha a Maria Rita dois anos, e aí é que foram elas. Quando regressei a casa com a mana bebé nos braços, os olhos dela pareciam os de um cachorrinho abandonado e só lhe faltou fazer o pino para chamar a atenção. Aí eu percebi claramente que dar-lhe uma irmã foi, ao mesmo tempo, a melhor e a pior que coisa que lhe podíamos ter feito. Mas, caramba, eu também tive duas irmãs e só me fez bem. Ninguém morre por causa dos irmãos – quer dizer, tirando Abel e Caim… 

No meio das mazelas resultantes de um parto natural de um bebé de quase 4,5 quilos (não, não me enganei a escrever, a miúda parecia mesmo um bezerrinho), das fissuras nos mamilos e da desregulação hormonal - céus, que quadro de terror! - eu deparei-me com mais um drama. E agora? Como é que vamos fazer isto?

Mas atenção “mães de primeira viagem com vontade de se lançarem na segunda”, é mais cansativo do que difícil. Com as tarefas bem partilhadas a coisa dá-se. A mãe dá de mamar, o pai põe a arrotar e chama-se a filhota mais velha para o colo da mãe. Ou então, na ausência do pai, dá-se a maminha a uma e conta-se uma história acabadinha de inventar à outra.

Não há cá super-mães nem super-mulheres, não me venham com tretas! Nos primeiros meses temos de olhar à volta, ver a sala num estado de calamidade e pensar: “que arrumadinho que isto está!”. Ou então comer frango de churrasco três vezes na mesma semana e pensar que é importante variar a alimentação e por isso “hoje vai de arroz porque da outra vez foram batatas de pacote”. Isso e sabermos dar desconto a nós próprias – confesso que demorei algum tempo a pôr isto em prática...

Ainda hoje não sei se o que fiz nesses primeiros meses é o mais acertado - provavelmente porque isso não existe. E não sei se não acabei por dar mais atenção à mais velha, por saber que estava mais atenta a tudo, mais sensível. Mas à medida que o tempo foi passando fui – fomos – tentando equilibrar as coisas tranquilamente, de forma natural.


A verdade é que elas dão-se bem, da forma como os irmãos se dão bem: não podem viver uma sem a outra, nem uma com a outra. Lutam – literalmente – pelas mesmas bonecas, lápis de cor, casacos, bolachas... Mas brincam muito as duas, têm grandes conversas e olhar para elas é maravilhoso. A mais velha finge que sabe ler e conta histórias à mais nova, que ouve muito atentamente (durante os dois minutos que são o limite máximo de paciência dela para qualquer tarefa). Dão beijos uma à outra, abraçam-se muito e dizem que gostam da outra. E o meu coração de mãe acredita que, por agora, isto é capaz de chegar…


Catarina Fernandes Raminhos, 34 anos, tem duas filhas, a Maria Rita, 4 anos, e a Maria Inês, 2 anos. É casada com António Raminhos, humorista, coisa que às vezes não deve ter gracinha nenhuma. Assim que engravidou, foram viver para o campo, onde querem criar as filhas no meio das galinhas, salvo seja, e receber sacos de laranjas (sabem pouco...). É a mais recente colaboradora do blogue "A Mãe é que sabe", com a rubrica "Catarina e as Marias".