Não é difícil ter um filho. Dar-lhe colo, alimentá-lo,
ensinar-lhe a fazer o símbolo do rock com os dedos. Adormecê-lo, levá-lo a
passear, dar-lhe banho e ter a certeza que tem as orelhas limpas.
Difícil é transformarmo-nos numa família. Uma família a sério,
que come à mesa toda junta, que vai a sítios, que passa férias, que vai às
compras ao supermercado. Porque no início despacha-se a criança, dá-se o banho,
o jantar na cadeirinha alta e cama. Só depois é que tratamos de nós. Faço o
jantar, ele põe a mesa e passeia o cão. Sentamo-nos a comer, a ver televisão e
a conversar.
Tudo gira em torno dela, fazemos o possível para que ela
esteja satisfeita, para que durma as horas que é suposto, para que coma sempre
a horas. Não almoçamos fora ao fim-de-semana como gostaríamos porque ela tem de
almoçar e dormir a sesta. Não a maçamos com idas ao supermercado, a menos que
seja coisa rápida, tratamos a nossa filha como se fosse uma visita de cerimónia
e parece que estamos sempre desejosos que a visita vá dormir para que possamos
estar descansados. Mas por outro lado é uma chatice quando a visita dorme
porque depois temos de esperar que acorde para podermos sair de casa. Só que a
visita veio para ficar e a vida em família nem sempre cumpre horários nem
regras. E a família é constituída por três pessoas e não duas. E essa dinâmica
é, para mim, o mais difícil. Vê-la como parte da família em vez de um ser
planeta cujos satélites somos nós. Encontrar-me no meio desta confusão que é
ter uma criança em casa, de ser mãe, de ter de dizer que não, de ter de dançar
em vez de andar porque a minha filha acha que vive num musical da Broadway e
que eu sou uma jukebox.
De repente, comer ao mesmo tempo que ela – ou ela ao mesmo
tempo que nós, à mesa – tornou-se num dos maiores desafios da nossa vida
familiar. Tão grande que ainda não conseguimos atingir o objectivo. Também
ainda não dominamos a mestria de estarmos juntos também quando estamos com ela
– normalmente está um com ela e o outro a tratar de assuntos, ou estamos os
dois virados só para ela porque a menina precisa de atenção a todo o instante e
eu não quero que ela cresça com falta de confiança.
Não é difícil pôr um ser humano no mundo, difícil é deixá-lo
fazer parte da família. Isso e conseguir que tenha as unhas limpas.