2.04.2015

Sou culpada e gosto.

Assim que sabemos que estamos grávidas, nasce logo a culpa de mãe. É algo que sentimos desde o início. Às vezes até ainda antes de sabermos que estamos populadas por dentro. 

"Devia deixar de fumar porque estou a tentar engravidar", "Devia fazer mais exercício físico", etc. 

Há até outras mulheres que podiam dar óptimas mães que sentem tanto essa culpa antes de seja do que for que até preferem nem o ser. Era o meu caso, modéstia à parte. Achava que não ia ser uma mãe de jeito (até conhecer o meu velhote - são só 9 anos de diferença, estou a brincar, mais ou menos, claro.). 

Acho que a culpa, esta culpa, é uma coisa boa se for bem direccionada. Funciono bem com ela. É essa culpa que me faz esforçar mais (claro que também é o amor), mas o "sair de casa", sentar-me com ela no chão a brincar em vez de ficar só a vê-la do sofá, fazer sopas novas sempre que possa para não andar sempre a embuchar a mesma, etc.

Desde a gravidez que a sinto e muito e isso reparava-se no meu pânico quando descobria que algo era abortivo: 

"A canela é abortiva? E eu que comi meio arroz doce no outro dia? Meu deus, o que fui eu fazer? A miúda ainda nem nasceu e eu já sou péssima mãe!"

As hormonas ajudam muito a que esta culpa seja, muitas vezes, confundida com loucura. Porém, a verdade, pelo menos no meu caso, é que aprendemos a lidar com ela. 

Acho que, o melhor, visto que ela não vai desaparecer, é torná-la nossa amiga. Vamos tentar ver nela uma força para sermos ainda melhores mães, para aquele extra mile. 

A culpa já me ajudou tantas, mas tantas vezes. 

A ganhar coragem para entrar no quarto e tapá-la com a manta (mesmo correndo o risco de a acordar), a ir passear com ela para um jardim, mesmo não me apetecendo sair de casa há uns dias, a superar questões de amamentação, etc. 

Obrigada, culpa. 


Caiu da cama!

Caiu da cama. Não demorei sequer vinte segundos e ela caiu da cama.


Tinha cinco ou seis meses. Deixei-a lá, no meio da cama, de barriga para cima, porque "ela ainda não rebola" e, afinal, rebolou. Alguma vez é a primeira. Foi dessa vez. Fui à casa de banho a correr (literalmente) buscar a escova porque "é aqui mesmo ao lado" e ouvi um estrondo abafado. Senti. Percebi nesse momento que a Isabel tinha acabado de cair da minha cama. Silêncio. Pareceram-me horas. Chora, chora, pedi, enquanto corria para lá. Chorou. Chorou muito. Eu chorei mais ainda. Agarrei nela, beijei-a, pedi-lhe desculpa e fui à procura de sangue na cabeça. Ou de um inchaço. Nada. Passei-lhe a mão uma e mais uma vez. Chorei. Ela parou de chorar. Beijei-a na cara e ela sorriu. A culpa. "Tens uma mãe tão estúpida e ainda me sorris, filha? Não mereço. Zanga-te! Não mereço."

Liguei ao David. "O que faço? Vou ao Hospital?" "Se ela te parece bem, não vale a pena. Vigia."
Quis vigiá-la. Quis tudo menos levá-la à creche. Pedi que me avisassem caso ela vomitasse ou ficasse sonolenta. Passei o dia todo mal-disposta. Como podia ter cometido um erro tão grande? Se sabia que podia acontecer, por que é que não preveni? 

Quando a fui buscar e ela me sorriu, prometi a mim mesma que nunca mais ia ser uma mãe desnaturada. 

Nem um mês depois, sentei-a no sofá para conseguir estender o tapete no chão. Fiquei à altura dela para ter um reflexo rápido caso ela se armasse em Kamikaze. Foram dois segundos, não fui a tempo. Caiu. Em cima do tapete, mas caiu. Chorei. Fiquei doente. Duas vezes? A primeira ainda foi um erro de principiante, completamente escusado mas quem nunca errou que atire a primeira pedra. Agora uma segunda vez?... Onde é que eu estava com a cabeça?

Entretanto, ela já caiu mais vezes. Mas por ela. Distâncias mais curtas ou porque se queria meter em pé ou porque estava em pé e se queria sentar. Sem que eu a pudesse ajudar. Mas aí caiu sozinha, sem que eu sentisse o peso da responsabilidade. Porque faz parte e nem sempre estamos lá para a aparar todas as quedas.

Agora quedas da cama e do sofá? Escusadas, completamente escusadas.

Que este texto, recém-mamãs, vos seja útil. Não vacilar. Não dar hipótese. Neste caso acabou por correu bem, mas podia ter corrido muito pior.

2.03.2015

Às mulheres da minha vida

Às mulheres da minha vida. As mulheres que me ensinaram a ser mulher e mãe, se é que isso se aprende. Às mulheres que são para mim um exemplo e por quem me esforço para ser melhor. Às mulheres que me deram vida.


avó Rosel
mãe de quatro, mulher de fibra, que ainda hoje com 79 anos (acabados de fazer) trabalha no que pode e sabe para continuar a viver e a sobreviver e ainda ajuda filhos e netos com o que vai podendo. faz os melhores pastéis de bacalhau de que há memória, croquetes e rissóis e lá vai ela à cidade vendê-los pelos cafés e restaurantes. faz o melhor arroz doce, as azevias e broas e o bolo de amêndoa molhado e delicioso. tem naquelas paredes frias de casa as melhores memórias da minha infância, as castanhas assadas na lareira, os natais e as noites intermináveis de conversa à mesa, as danças e as gargalhadas. levei-a há um ano e meio a conhecer Londres e foi como viajar com uma criança, de olhos deliciosamente ávidos de ver o mundo, mas um saber enciclopédico e romanceado de tudo o que são histórias de reis e rainhas. a pessoa sempre disposta a ajudar, mesmo que as articulações já pesem e as mãos enrugadas e um pouco disformes sejam sinónimo de muitos anos, de muito esforço, de muito trabalho. vejo nela a alegria que não nos pode deixar nunca, a gargalhada fácil, mesmo que a vida nos pregue duras partidas, como a de a deixar sem um filho.


mãe Isabel
mãe de dois, mulher de fibra, que ainda tem mais força e garra do que eu. dá aulas, motiva os alunos, tem fome de saber mais. mulher que me incentivou a seguir os meus sonhos, por mais difíceis que parecessem. que me levou, muitas vezes por semana, ora às danças de salão, ora à ginástica, ora à natação. abdicou de tanto por nós. sofreu e ergueu-se. deu-me colo e ajudou-me a ultrapassar os desgostos do primeiro amor. foi minha mãe e amiga. contou-me histórias todos os dias, deixou-me dormir na cama dela, deu-me explicações de filosofia, fez arroz com atum todas as vezes que lhe pedi, chorou comigo quando lhe contei que estava grávida. a avó dedicada, capaz de fazer mais de 100 quilómetros só para passar a folga com a neta. a pessoa que me ajuda a organizar a vida e a cabeça, que me lembra que tenho de comprar legumes, pão e nestum. a mãe que se emociona com as minhas conquistas, que me ama incondicionalmente. a mulher guerreira que aprendeu a meditar e a concentrar-se no mais importante. a pessoa que me fala de filmes, livros e bandas de que nunca ouvi falar. a mãe que errou algumas vezes, como qualquer mãe, mas que soube transformar as fraquezas em aprendizagens. a pessoa em quem me revejo e que mais falta me faz. a mãe, a minha mãe.




filha Isabel
filha de 10 meses, que em tão pouco tempo me ensinou tanto. a ter medo e inseguranças, mas a ultrapassá-las com amor. a pessoa que fez crescer em mim as garras e a afiar os dentes, que me faz despertar à mínima respiração, que me fez desdobrar em mil e descobrir em mim talentos adormecidos. a pessoa que me estimula, todos os dias, todas as horas a crescer com ela, a ser melhor, a separar o importante do acessório. a bebé pequenina que me faz crescer o coração, que fica de um tamanho que nunca pensei ser possível. a pessoa que me faz perder horas de sono, mas ganhar dias de sol, mesmo quando chove. a filha com que sempre sonhei e que me transformou para sempre.


Obrigada às três.

Joana