3.20.2015

a Mãe dá (#15) - Esperança (peça com César Mourão)

Não vou tecer grandes comentários à qualidade do espectáculo porque, por ser esposa de um dos autores (o outro é o próprio César), acho que não me levariam a sério. Mesmo que não fosse esposa dele, já não me levariam na mesma, não é? 

Posso dizer-vos o que senti ao ver a peça. Senti que estava a ver um daqueles filmes que, mesmo com sono, não iríamos para a cama sem ver o final. Mesmo que estivesse gravado na box. Mesmo que tivéssemos tido uma daquelas noites, por causa dos nossos filhos, em que acordámos 41 vezes. 

Ficamos a gostar da velha Esperança. Costumemos dar ouvidos aos nossos velhotes ou não, temos muito gosto em ouvir esta Esperança que tanto desconversa mas, afinal de contas, vai conversando durante toda a peça. É uma velha que está muito viva apesar de estar num hospital. Apesar de só ter sido "o que a deixaram ser". É uma velha à portuguesa, que se vai queixando de estar cansada, mas que manda as suas larachas para fazer rir, aproveitando as histórias dos outros. Nós conhecemos esta velha que, segundo César Mourão, é a junção de muitas velhas que ele já conheceu e observou. 

Sugiro que conheçam a Esperança. Que vejam o César a dar corpo (que, estranhamente até lhe assenta bem) a esta velha e também que oiçam o coração que foi posto neste texto. 





19 março a 5 abril

4ª a sábado - 21h30 | domingo 18h | M16

3 abril não há espetáculo

autoria CÉSAR MOURÃO E FREDERICO POMBARES

interpretação CÉSAR MOURÃO

encenação ANDRÉ PAES LEME

produção H2N


Temos, claro, um bilhete duplo para vos oferecer. 

Condições:
O vencedor será anunciado no dia 21 de março de 2015, sendo aceites inscrições até às 23h59 do dia anterior.
O vencedor será escolhido aleatoriamente através de random.org.
Só é válida uma participação por endereço de e-mail.
O bilhete duplo atribuído é para domingo, dia 22 de Março às 18h.






3.19.2015

o meu pai

Lembro-me de muitas coisas boas do meu pai. Começo por me lembrar das mais de 6h por semana no bowling do Colombo quando era o fim-de-semana dele ou a sexta-feira. Estava sempre ansiosa para que ele me fosse buscar à escola para irmos jogar. Tínhamos o nosso cumprimento especial quando fazíamos strikes. Era foleiro, mas eu adorava e não tinha vergonha. O meu pai dá um saltinho quando vai a correr pela pista para fazer o lançamento. Acho que é de ter feito ginástica e não consegue deixar de fazer a chamada. Ia pedindo imperiais e eu pepsis à medida que os jogos iam passando. Já conhecíamos toda a gente de lá. Pelo nome. Tínhamos a nossa própria bola de bowling, saco, sapatos e luvas. Ainda hoje temos. Os sapatos já apodreceram. Já não vamos jogar há demasiado tempo. Será que o velhote ainda consegue lançar uma bola de 14oz sem se partir todo? Ou será que a filha já não consegue lançar uma de 13 e finger por já ter sido mãe e sentir que irá estar no pós parto para sempre?

Lembro-me de muitas coisas boas do meu pai. Lembro-me de ser sempre ele o centro das atenções de todos os sítios onde íamos. Jantares de amigos dele. Eventos. Convívios. O meu pai era sempre quem falava mais alto, quem fazia rir toda a gente, quem falava mais, quem esclarecia quem não soubesse algo sobre fosse o que fosse. Ele sabe muito de muita coisa. Muita coisa que não me interessa, mas que, na altura, adorei saber. Ainda hoje não faço a mínima ideia de saber os tipos de gases (nem sei bem o que é isto) com uma mnemónica. ManteigaÉparaBarrarPão: Metano, Etano, Propano, Bentano e Pentano.  O meu pai tinha um rol de 15 anedotas, todas alinhadas para o "momento das anedotas" nos convívios. Eu também. Às vezes até já tínhamos um número juntos. 

Passámos muitos jantares a comer a minha comida preferida (na altura): bife na pedra. Íamos sempre jantar fora à sexta. Comi muitas picanhas, muitos bifes na pedra e nunca faltava o  Sumol de Ananás que o meu pai me dizia sempre que era o que a minha mãe bebia com caracóis. A mim ou a quem estivesse connosco: "a Sílvia era capaz de comer caracóis a beber um sumol de Ananás". Passámos mais de metade desses jantares com o meu pai a tentar explicar-me a diferença entre memória RAM e a memória do disco rígido. Olhando para trás, como é que eu não conseguia perceber? 

Lembro-me de quando morava com a minha mãe em Santiago do Cacém ou Santo André e de ter ido ao colo do meu pai, num dos fins de semana em que ele lá foi ter, a segurar o volante numa estrada que me parecia perigosa. Lembro-me de dois microscópios que o meu pai me deu, porque era o que ele gostava e sabia ensinar. Examinávamos as águas das poças da chuva. 

O meu pai tentava ensinar-me inglês. E brincava comigo. Sempre gostei de inglês por causa dele. Sempre gostei de ciências por causa dele. Não tanto como ele, claro. Pedir-lhe ajuda era um martírio. Perguntar-lhe sobre ciências do 7ºano era pedir uma ensaboadela de Química do 3º ano da faculdade. Sempre gostei que o meu pai me levasse a sério. Que ouvisse as minhas opiniões como se elas quisessem dizer alguma coisa. Lembro-me de ter tantas conversas com ele nos nossos lanches no Marajá, ao pé da casa do Avô Alfredo onde depois ele veio a morar, sobre religião, eutanásia, filosofia, casamento, adopção, etc. Tinha o quê? 10 anos? 10 anos e já sabia quem eram os Genesis, Doors, Pink Floyd, Marillion, Skunk Anansie, Pretenders, 4 Non Blondes e, sim, já tinha ouvido o "Viagens" do Pedro Abrunhosa muitas vezes. 

O meu pai brincava comigo e fazia batatas fritas das congeladas, as minhas preferidas. O meu  pai cozinhava muito bem. Gostava de por chouriço em tudo ou bacon. Comia sempre as gorduras dos meus bifes porque eu punha na beira do prato. Antes disso, refilava comigo a dizer que eu estava a desperdiçar comida e, com os talheres, preparava-me a comida e dizia "vês? olha tanta carne! tanta carne!". Fazia um arroz que eu adorava. Não gostava de fazer sopa ou, pelo menos, marchavam sempre instantâneas. Tínhamos um aquário de 60 litros, com um limpa fundos. Tenho fobia de peixes mas adorava o nosso aquário. Ainda hoje tenho pesadelos com ele, que os peixes estão mortos, a boiar. Comprou-me periquitos. Agora que penso nisso, ele tinha de os aguentar a semana toda para depois eu só os ver ao fim-de-semana. Desapareceram um dia. Acho que os deu à senhora que tomava conta do meu avô. Ele vivia em casa do meu avô que estava acamado. 

Lembro-me de estar sempre à espera de sexta-feira. Sempre por volta das 4 quando o meu pai me ia buscar ao colégio. Na quinta-feira já adormecia a pensar nisso. Passava sexta-feira toda aos saltinhos a esperar que o meu pai me fosse buscar. Lembro-me dele me ter oferecido um bip do Portugal Radical e eu estar louca para que dissesse que vinha a caminho. Só ele tinha o número do meu bip. Estava sempre ansiosa pelo bowling, pelo lanche com leite Ucal "ligeiramente aquecido" que era como ele pedia sempre o meu leite e ainda agora quando peço um leite Ucal, o peço assim. 

O meu pai chora a ouvir música. E nem é por se lembrar de nada. "Choro porque é bonito, não sentes?". O meu pai deu-me a liberdade de ter alma de artista. De não achar que é estúpido sentir coisas a mais, por coisas que não vemos os outros a sentir. 

Odiava o Domingo. Tinhamos hora de recolha. Ele tinha que me deixar em casa da minha mãe às 21h30. Nunca queria ir. Tinha acabado o fim-de-semana ou a sexta-feira e a vida ia voltar à normalidade. Ia voltar às aulas, aos jantares a horas, a ter hora de deitar, a não ter ninguém para jogar computador comigo. 

O meu pai conduz muito nervosamente. É daqueles que se cola ao carro da frente se ele vai devagar na faixa da esquerda. Só quando comecei a crescer é que tinha medo. Fazíamos Amadora-Oeiras em 10 minutos. Sempre a ouvir música. Ele deixava-me cantar. Não dizia que cantava bem, mas aturava-me tanto, sem me mandar calar....

Houve uma altura, que me pareceu uma década, que deixei de ter sextas-feiras, deixei de ter fins-de-semana e todos os dias eram iguais. Já não havia nada por que ansiar. Tinha-se acabado o bowling, os jantares fora, o jogar computador juntos, o ir buscar-me à escola, tudo. O meu pai foi para Moçambique dar aulas. Moçambique, onde nasceu. Falava muito de ser "Africano" e de ter nascido em Moçambique. Sempre falou muito do passado, fosse o passado mais passado ou o passado mais médio mal passado. Foi. 

Adorou Moçambique. Adoraram, ele e a Bibi, minha madrasta, mãe do meu irmãozinho Tiago. É uma história que ninguém tira a meu pai. Aposto que adora sempre que o tema é África para poder falar tudo o que sabe sobre Moçambique. Se eu que já fui passar lá férias, sinto o mesmo, imagino ele. Quero dizer que sei a moeda, o nome de bebidas, algumas palavras no dialecto deles, imagino o meu pai que adora o seu Maputo "que dantes não era, eu nasci em Lourenço Marques". 

Choro como se ele não estivesse cá, mas está. Mora ali, a menos de 10km de mim. Raramente nos vemos. Raramente falamos. Toda a gente brinca a dizer que os "Gama Freire" são assim. E são mesmo. Acho que ninguém sente a obrigatoriedade de falar com alguém nesta família  mas que se sente sempre terrivelmente culpado por isso, quanto mais apertado for o laço familiar. Gosto quando o meu pai comenta o que ponho no Facebook, gosto quando faz like. 

Sei que a vida dele não muda muito ao ponto de ter que saber novidades dele frequentemente. Sei como é a rotina dele desde que ele se levanta até que vai para a faculdade e sei como ele é quando chega a casa até se ir deitar. 

Sei que o conheço tão, mas tão bem. Posso não ter vivido os dias da semana com ele desde sempre. Só todas as sextas e fins-de-semana alternados, mas lembro-me de tantas coisas boas do meu pai. Sou tanto dele. 

Sou a que fala alto. A que ri alto. A que faz rir toda a gente. A que finge que percebe de tudo ou que, pelo menos, a que percebe mais de temas que não interessam a ninguém. Sou quem chora sem vergonha. Tenho um lado artístico que julgo vir do professor de Química que é o meu pai. Parece estúpido, mas é o que é. 

Lembro-me de tantas coisas boas. Lembro-me de estar calor e do meu pai me dizer "vai ver a pequena Sereia que te imaginas logo a tomar banho no mar e ficas com menos calor". Funciona. Lembro-me dos scones com batido de banana no moinho de Linda-a-Velha. Lembro-me de termos acampado uma tarde na mata de lá. 

Vou ser como o meu pai para a Irene. Parva, brincalhona, dar-lhe instrumentos musicais para ela ter tão bom ouvido para a música, vou deixá-la sentir, vou ouvir sempre as opiniões dela, mesmo que tenha 10 anos. Vou explicar 40 vezes a mesma coisa. Vou falar sempre apaixonada por tudo, sempre com a esperança de que ela se apaixone também. Vou andar de baloiço com ela e não ficar a vê-la a andar sozinha. 

Vou ser mãe muito também como o meu Pai.



Espero ser sempre aos olhos dele, a menina que no infantário de uma terra qualquer das 40 em que morei estava a pisar as uvas com os pés cheia de afinco para dar uma garrafa de vinho ao pai no dia do pai apesar de saber que o pai nem gostava muito de vinho. E que ele nunca bebeu. Eu não percebia porquê. Agora percebo. 

3.18.2015

Partilhar é tão bonito (mas custa).

Ontem foi a primeira vez que a Irene esteve sem nenhum de nós os dois. Quando fui trabalhar, ela ficou com o Frederico que tratou dela tão bem quanto eu ou, se calhar, até melhor visto que não é tão ansioso.

Ontem foi a primeira vez. O Frederico tem uma peça no Trindade e eu tive mesmo que ir espreitar o ensaio para não perder mais uma coisa que ele fez. À noite não gosto mesmo de sair porque gosto que ela mantenha a rotina do sono dela e não quero que ela acorde e a mãe não esteja em casa. 

Sei que, para muita gente, deixar o filho com alguém só quando ele já tem um ano parece absurdo, mas foi quando me senti preparada. Além disso, acho que tenho muita sorte em não ter precisado antes.  O não estar a trabalhar e o Frederico ser freelancer, faz com que ambos tenhamos conseguido estar sempre com ela ou, em excepções, sempre um de nós. 

Fui eu quem sugeriu que ontem ela ficasse com a Avó Doce (como lhe chamamos porque é como ela trata a Irene) e o avô Virgílio (ainda não arranjámos alguma mas, se ele deixar, ficará vivi só por não ter nada que ver com ele - depois digo que foi a neta quem inventou e pronto).

Chegaram quando ela estava a dormir. Óptimo timing. Depois era só acordar, dar a papa, brincar e esperar por nós para o jantar. Claro que a minha sogra chegou com dois sacos da Zara cheios de roupa (voltei a dar-lhe luz verde para comprar, depois de me ter enchido os armários quando a Irene era recém-nascida) e roupa linda. Sempre que se compra na Zara é seguro. 

Saímos, fomos ao ensaio de imprensa da peça e acabei por ficar mais tempo do que era suposto para conseguir assistir ao ensaio geral e, assim, poder ver o trabalho do Frederico (e do César Mourão e do resto da equipa, claro), na íntegra. Não estava nervosa. Estrava mesmo tranquila. Senão teria vindo assim que acabaram as entrevistas. Decidi ficar mais tempo.

De notar que não nos sentimos diferentes. Não nos sentimos mais felizes ou menos felizes. Senti-me apenas com ainda mais saudades da Irene por nenhum de nós estar com ela.  Ela está todas as semanas com os avós, iria ficar em casa com eles, por isso era tudo mais do que familiar. 

A única diferença e que fez muita diferença foi termos andado de mãos dadas. Já não andávamos de mãos dadas desde que fui para o hospital com contracções. Em casa seria estúpido andarmos de mãos dadas e na rua, anda sempre um com a Irene e o outro "à vontade".  Gostei de lhe dar as mãos. Senti borboletas (sinto todos os dias mas, desta vez, foi por lhe ter dado as mãos).  Tinha saudades de vê-lo um bocadinho mais como Frederico.  :)



Pelo que os avós me foram dizendo pelo WhatsApp (simmmmmmmm!!! Não andamos aqui a brincar!!! Avós super postos a par do que se passa!!! Só não descarregam o Tinder porque estão bem casados um com o outro) estava tudo a correr mais do que bem. Irene super bem disposta, a dançar, cantar, a fazer como faz o urso. A ser palhacinha como os genes da mãe lhe dizem para ser, no fundo. 

Eu estava muito feliz e relaxada. Nunca pensei. Realmente fazer as coisas só quando já estamos preparadas tem outro impacto. Oiço e leio relatos de mães que tentam afastar-se antes dos filhos, antes de terem a certeza e é sempre muito penoso para elas. Divertem-se mas tão menos do que se adiassem esse momento para mais tarde. Se me tivesse afastado da Irene antes (que me afastei, estou a dizer... partilhá-la com os avós, sem nem eu nem o Frederico estarmos presentes, deixá-la "sozinha"), acho que não iria ser saudável para ninguém. Eu iria estar ansiosa (senti-a muito muito dependente de mim - acho que é normal um bebé precisar da mãe, independências só quando forem maiorzinhos, no caso da Irene quando tiver 55) e, por estar ansiosa, o Frederico não iria gostar tanto da minha companhia, chatearia muito os avós a todos os segundos, etc. 

Foi perfeito.

Tirando o facto de termos apanhado imenso trânsito e não termos chegado a tempo de fazer o jantar da Irene. Enfardou meio litro de sopa que era o que havia (e já comeu muito mais do que era costume). 



Cheguei e claro que chorei. Chorei porque senti a minha filha muito mais longe de mim por nenhum de nós ter estado com ela. Roubei-a logo a toda a gente e fui dar-lhe banho para me por a par das novidades. Segundo o que a Irene disse: "bfdjksfs,dbfhskldjrnfljksbldf". Inacreditável. Depois voltei e estava toda orgulhosa de mais este marco na vida de todos. A Irene tomou conta dos avós, os avós dela, os pais foram namorar e estiveram bem e, acima de tudo, fomos todos muito felizes ontem à tarde, apesar de não termos estado todos juntos. 

Tenho muita sorte com esta minha nova família. Tanta sorte que até escolhi o apelido para meu.

Tanta sorte que até os deixei tomar conta da minha filha, ficando eu descansada.

No final, estava tão contente pela minha sogra, por ter podido ser avó sem me ter sempre a olhar-lhe por cima do ombro. Ela é um anjo. Mesmo. 

A Irene é de todos. Devagarinho para a mãe não ter um AVC, mas é.

Obrigada avó Doce e Vivi.