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4.16.2016

Voltei lá, ao meu passado.

Voltei há um mês e pouco à minha terra: aos cheiros, à comida caseira, às memórias. Voltei a ter mais tempo e calma, como quando era criança. Um dia destes, passei de carro em frente à minha escola primária e resolvi parar. Não entrei, mas fiquei ali um bocadinho. Vi o sítio onde dançávamos e cantávamos as músicas dos Onda Choc e dos Ministars, onde fingíamos que uma era professora de ginástica e as outras atletas, onde brincávamos aos "bebés espertos". Lembrei a minha professora São, rígida mas inesquecível, as visitas de estudo ao Portugal dos Pequeninos e a Lisboa, os namoricos com o Zé Diogo, dos olhos verdes (era o namorado de todas), os casamentos (casei com o Nuno, mas - desculpa Nuno! - o meu coração sempre foi do Zé Diogo), as festas de anos da Telma, sempre maravilhosas, cheias de luzes de discoteca, de música e de slows (onde, mais uma vez, todas queríamos dançar com o Zé Diogo). O dia em que despejei um leite com chocolate, daqueles que davam na escola, em cima da camisa azul bebé do Ursinho, já nem me recordo porquê, coitado. Vivi de novo o dia em que se forravam as sebentas amarelas e em que escrevia nas primeiras folhas "lição número 1". Recordei as idas para casa, a pé, com a Priscila, a minha melhor amiga, que vivia no rés-do-chão do meu prédio. Senti-me livre, novamente. A apanhar as azedas pelo caminho e a chupá-las. Vi-me novamente na festa final do 4º ano, a cantar e a dançar, e regressei ainda à festa de Natal (seria do primeiro ou do segundo ano?), em que fizemos um coro e a Marta era a mais alta e a Telma e a Tatiana as mais baixinhas. 

No nosso primeiro dia de escola: a Priscila, eu e o meu irmão Frederico.

Na festa de final de ano, a despedida, antes de mudar de escola e enfrentar o 5º ano.

Tive saudades. Saudades de ter tudo pela frente, de não ter medo, de ser um livro em branco, onde tudo ainda se poderia escrever. Mas muito do que se veio a escrever não apagaria, nunca. Por mais feliz que tenha sido a minha infância, os dias mais marcantes - conscientemente - vieram depois, muitos anos mais tarde, com a Isabel e com a Luísa, que vive em mim. Voltei lá, ao meu passado, e tive saudades. Mas o futuro vai ser do caraças.

5.16.2015

Eu tinha uma melhor amiga.

Eu tinha uma melhor amiga, como quase todas as meninas da minha idade. Tinha um nome estranho, mas, por gostar tanto dela, tornou-se num nome incontestavelmente bonito. Chamava-se Priscila. A Priscila morava no rés-do-chão do meu prédio e, às vezes, depois da ama, eu ficava na rua a jogar à bola com ela. Mandava-lhe a bola e ela apanhava, debruçada no parapeito da janela. Tínhamos exactamente a mesma idade e fomos para o primeiro ano juntas. Íamos as duas a pé para a escola. Um dia chateámo-nos e ficámos uns bons 40 minutos sem nos falarmos. Éramos inseparáveis e as nossas mães chegaram a comprar-nos roupas iguais. Lembro-me de um vestido da Benetton a condizer. E assim crescemos. A trocar roupa, a engordar e a ter as primeiras borbulhas. Lembro-me de nos pesarmos na farmácia, uma a seguir à outra, uma pior que a outra. Ela ganhou mamas, eu nem por isso. Eu fiquei mais alta e ela mais baixa. Lembro-me de irmos ao cinema, de fazermos disparates. Quando tínhamos trocos, íamos ao café Montecarlo comprar gomas e pastilhas de melão, que a minha mãe descobria pelo cheiro, a léguas.
Lembro-me da gargalhada bem sonora da Priscila. Dos olhinhos meigos. Lembro-me de quando me veio contar, a chorar, que ia ter irmãos gémeos. Lembro-me dela cuidar deles e de, às vezes, perder a paciência. "São terríveis", desabafava, com um sorriso. Um dia levámo-los ao cinema e não se calaram enquanto ela não os encheu de pipocas.
Lembro-me da primeira grande paixão dela e de estar ao lado dela, no meu quarto, à noite, quando trocou as primeiras SMS de amor. Vibrámos com aquilo. Os primeiros namorados "a sério". Lembro-me de dormirmos juntas, de conversarmos até tarde e de tentarmos controlar o riso, para os meus pais não ouvirem. Lembro-me de passarmos férias juntas, no Algarve. De trocarmos promessas, de nunca nos separarmos, de sermos madrinhas das filhas uma da outra.

Um dia, a Priscila disse-me que ia mudar de cidade. Chorámos muito, não queríamos. Como viveríamos uma sem a outra, se éramos unha e carne? Como colmatar a falta dela, se ninguém me conhecia melhor? Se nos adorávamos e raramente discutíamos? Prometemos que ninguém nos iria afastar. Que iríamos continuar próximas. Que a nossa amizade ia ser para SEMPRE.

A verdade é que a vida acabou por nos separar. Se nos primeiros três anos conseguimos ainda ver-nos algumas vezes, depois fomos perdendo o rasto uma da outra. Mas quando ela me ligou a contar que estava grávida, chorámos juntas. Fui visitá-la poucos dias depois da Carlota nascer. Que saudades da minha melhor amiga. Depois disso, nunca mais nos vimos, já lá vão uns cinco anos. Já tentámos, mas na verdade nunca tentámos mesmo, com vontade. A vida acabou por nos dar outros amigos, outras rotinas, outras vidas. Mas tenho a certeza de que ainda gostamos muito uma da outra e que as memórias não se apagam nunca. Memórias que fizeram de nós aquilo que hoje somos. Uma amizade assim é transformadora. E, apesar de não parecer, é para a vida. Tenho a certeza de que ela me adora e que tem saudades, tal como eu tenho. Sei que um dia ainda vamos estar juntas e que as nossas filhas vão brincar juntas. Quando? Não sei. Um dia...

E quando esse dia chegar, tenho a certeza de que vamos dar um abraço forte e sentir que o tempo não passou por nós. Que somos as mesmas. Que conseguimos ser aquelas meninas, de mãos dadas, no primeiro dia de escola.



É uma amizade destas que eu espero que a Isabel e a Irene tenham. Que sejam a Priscila e a Joana, a emprestar calças de ganga uma à outra. A chorar juntas os primeiros desgostos de amor. A marcar a vida uma da outra para sempre.














As mães delas já casaram até os pares de sapatos (e sem combinar)! Por isso, elas que não se armem em parvas e que sejam as melhores amigas, para não ter de me chatear! Bem, bem.



Ah! Obrigada, Little i, pelos panamás das miúdas!

3.07.2015

Fui uma criança feliz

Tenho tantas e tão boas memórias da minha infância. Dos verões na praia da Cabana do Pescador, de fazer amigas todos os dias, de apanhar boleias nas ondas, dos banhos de mangueira e balde, dos pequenos-almoços no terraço, das manhãs de fim-de-semana passadas na cama dos meus pais, da minha professora São, da natação, da ginástica e de brincar às barbies até tarde, de jogar ao elástico e de ter a perna alta, das cartas de amor com sim, não e talvez, das visitas de estudo, dos cadernos impecáveis e das 5 cores diferentes de canetas, dos livros forrados, da mochila eastpak "à crescida", das minhas biqueiras de aço, quando achava que me davam estilo, de ouvir as cassetes dos onda choc e dos mini-stars, das primeiras paixões em que queria morrer, da primeira vez em que andei de avião e comi lambecas em Porto Santo, da minha melhor amiga Priscila, de brincar na rua até tarde, dos ataques de cócegas do meu pai, das festas de anos incríveis da Telma com luzinhas de discoteca, de implicar com o meu irmão, de ir comprar gomas e pampilhos com as moedas da semanada, dos Onda Choc, de responder às cartas de fãs, de querer ter mamas, de andar de bicicleta na aldeia da minha avó Rosel, das excursões com a minha avó Isabel e com os velhotes todos, dos natais e dos meus primos sempre à batatada, de comer caracóis, de olhar para a minha mãe e de ver nela a mulher mais bonita do mundo, das férias de três meses que se tornavam entediantes, dos meus patins em linha e das quedas aparatosas, de estar na segunda fila e de ir ao quadro, de comprar umas calças à boca de sino azuis de veludo. Fui uma criança feliz e espero que a minha filha também o seja.