3.07.2019

O que os nossos filhos serão é o que lhes dissermos.

E mostrarmos. Que nada ou quase nada se resume apenas ao verbal. Nós funcionamos, na minha opinião, tendo como referência as pessoas mais próximas de nós e as mais marcantes que, em princípio, serão os pais ou quem terá exercido essa função. 

Eles funcionam como uma lente do mundo que nos é passada (não só geneticamente), mas em tudo o resto ao longo da vida, especialmente nos primeiros anos de vida. 

São importantes e fulcrais os rótulos que nos põem, mesmo que sem querer. São rótulos que podem durar anos e anos e que, sem consciência disso - até porque as palavra dos pais, para nós, até muito tarde, são a verdade - poderão limitar a vida e, acima de tudo, a percepção que os "filhos" têm de si. 


Concretizando: se estiver constantemente a dizer à Irene que ela é desastrada, que não tem jeito com as mãos, o mais provável é que ela venha a interiorizar o que eu disse e que não desenvolva essa capacidade por assumir o rótulo que lhe dei - injustamente já que tendo 4 anos, é natural que ainda esteja a desenvolver muitas aptidões, principalmente as que exigem minúcia. 

Isso dos rótulos, um dia a ver se me alongo. No outro dia apercebi-me que, por sempre querer ter um namorado (sentia-me sempre muito sozinha e pouco gostada) fui alvo de rótulos atrás de rótulos, tão cedo quanto aos 10 anos. A ver se um dia refletimos todas sobre isso e no que podemos fazer para que a geração dos nossos filhos não sofra tanto e não faça sofrer tanto os outros e tão cedo.

Isso começa antes. Aquilo que lhes dizemos que eles são e que lhes mostramos que eles são para nós. Actos, palavras e vá, não omissões. Não digo para andarmos sempre hiper mega ultra conscientes de tudo o que dizemos e fazemos, mas sim, termos uma noção geral presente de que estamos a moldar e a construir não só um ser humano, mas a percepção que ele terá de si próprio e dos outros também. 

A Irene não é desastrada, ela tem quatro anos. 

Ela não é teimosa, ela quer muito algo.

Ela não é mentirosa, está a aprender a lidar com as ferramentas que nos fazem ter aquilo que achamos que precisamos. 

Ela não é birrenta para ir dormir, ela provavelmente já estará a ir para a cama fora da hora dela e todos nós, privados de sono, somos insuportáveis, principalmente se alguém estiver a dar-nos ordens. 

O primeiro instinto, o mais básico, é rotular os outros. Até os nossos filhos, tal como nós fomos rotulados. O próximo passo, difícil já que temos tanto para fazer, resolver e assegurar, é ganhar tempo a tentar perceber se tal será justo e não poderemos estar a ser parte do problema. 


"Não tens jeitinho nenhum para desenhar, dá cá que eu faço isso". 

Uma das coisas que mais gostei de aprender até hoje é que, com treino, todos melhoramos em princípio a nossa aptidão para fazer algo. Até a desenhar, cantar, escrever, saltar, correr... tudo. 

Os rótulos são uma preguicite nossa, uma defesa nossa para nos sentirmos melhores connosco, mas não é necessário que seja à custa dos outros e até dos nossos filhos. 

Não é só o não dizer. É ver. Compreender. Aceitar. Ensinar. Abraçar e... muito importante: olhar nos olhos. 

Lembro-me que o momento que mais me marcou até agora de ser mãe da Irene foi quando uma vez, a primeira vez, trocamos olhares e estavamos completamente focadas uma na outra. Esta sintonia além de trazer serotina para a família (sempre vantajosa a milhares de níveis) faz com que surja a "auto-estima" nos nossos filhos.

"Auto" não por ter sido automática mas de "estima por si". E nós somos os primeiros (mães e pais e familiares próximos) a sermos os olhos daquilo que eles são e daquilo em que eles acreditam que poderão vir a ser. 

Hoje não consigo porque só dormi 4 horas (fui actuar à Universidade de Aveiro ontem e voltei hoje de comboio, estou de rastos - espero que este post esteja a fazer sentido), mas a ver se um dia fazemos todas o exercício de pensar quem queremos que os nossos filhos sejam e de vermos aquilo em que podemos ser úteis, além das funções básicas de assegurar a alimentação, segurança e afecto. 

Eu quero que a Irene tenha muita confiança em si e que seja compreensiva e empática, para também ser consigo mesma. 

E vocês?

Conseguem pensar que parte daquilo que vocês acham que vocês são foi transmitida pelos vossos pais? Que rótulos? Que orgulhos? :)

Acho que fritei os 2 minutos de cérebro que me restavam para hoje, mas fica aqui a intenção. É o que está na minha cabeça desde ontem, no espectáculo (e conversa) em que se falou de Tabus... 





3.06.2019

“Às vezes gostava de não ter uma irmã, de ser só eu”

“Às vezes gostava de não ter uma irmã, de ser só eu”

Foi este o desabafo da Isabel, à noite, com o pai, enquanto este as estava a adormecer. E antes disso, entre lágrimas disse algo como “não quero a Luísa”.
Duas coisas: primeiro, a Isabel adora a irmã. Vê-se mesmo que se sente orgulhosa dela e até mesmo quando lhe perguntaram se ela queria outra mana, ela respondeu, da forma mais querida do mundo que não, que queria a Luísa, sem ter percebido que a pergunta era se queria ter mais uma irmã. Depois, disse que queria 5 manos.
Segundo: é muito mas mesmo muito importante que ela se expresse tão bem. Que se sinta à vontade para o fazer com os pais. É que nunca deixe de sentir que pode dizer tudo, desabafar sobre o que precisar.
Claro que nos custa ouvir algo assim; claro que pensamos logo em que é que estamos a falhar.
Quando já dormiam, conversámos sobre isto. A Isabel não parece, muitas vezes, uma miúda de 4 anos. Tem conversas e uma sensibilidade que não esperávamos tão cedo. Fala sobre a morte, tem raciocínios que nos deixam de boca aberta, confronta-nos com coisas que dissemos há meses, analisa e faz perguntas: “gostava que me explicasses, por favor, porque eu não percebi, por que é que antes disseste que a máscara era cara, mas depois compraste outra que foi mais cara do que aquela que vimos”. Sim, esta foi a última que me apanhou desprevenida. Caraças.
Posto isto, com este desabafo dela, ficámos com a certeza de que temos de ter um bocadinho mais de cuidado com a atenção que lhe damos. E em pequenos pormenores. Tentamos muitas vezes justificar com “a mana é mais pequenina, amor, ela ainda não percebe” para desculpabilizar a Luísa de algumas coisas e se calhar temos de começar a atribuir mais justiça na hora de resolver algum conflito. Peço à Isabel para deixar a Luísa chegar ao elevador ou para ser ela a desligar a luz e essas pequenas coisas acabam por lhe tirar também o prazer de ser ela a fazê-las. Claro que depois fico felicíssima quando a vejo a pegar na irmã ao colo para ela chegar ao botão do número 5, mas se calhar a Luísa terá de ficar a chorar mais vezes e ser a Isabel a fazê-lo. Eu sei que isto está ali a roçar já o “não assunto” mas eu acho que é nestes pequenos pormenores que nós vamos acumulando frustrações, até explodirmos. Foi claramente o que se passou com a Isabel. Ela acumulou e explodiu quando estava mais vulnerável, com sono e cansada.
Ainda bem que o fez. O comentário está ao nível do “não gosto da mãe. És má é feia”, não corresponde exactamente à verdade, mas pelo menos demonstra necessidade de atenção. Vou/ vamos tentar ter mais cuidado. O pai já a levou ao cinema a ver o filme do dragão entretanto e já foi com ela ao Benfica e costuma ser ela a ir às compras também, mas se calhar tem de haver mais atenção aos detalhes, no dia-a-dia.

O que fariam? O que acham disto?
Obrigada!






Fomos por Portugal fora de auto-caravana. ♡

Bom dia :)

Acho que ainda nem tive tempo de processar o que aconteceu. Pareceu tudo um sonho e nem por isso aconteceu assim tão rápido. A brincadeira começou há um ano e pouco, como vos disse, quando a Irene viu um episódio qualquer da porquinha Peppa em que a família ia de férias de auto-caravana. 

A Irene pediu-me, na altura, para irmos de férias de auto-caravana e eu pensei: "quem sabe, um dia". Quando estava a marcar as férias para o "ano inteiro", seguindo aquilo que partilhei convosco de me obrigar a parar mais vezes por ano, deixei logo o espaço para a "auto-bikanka". Não sei de onde veio o nome, mas ficou.

Partilhei a minha ideia com vários colegas meus até que a Sónia Santos da Renascença (uma das pessoas que me formou como locutora e animadora de rádio e que agora faz com o Renato Duarte - um dos melhores amigos da Joana Paixão Brás - o "Nunca é Tarde") me contou que ela e um amigo têm algumas auto-caravanas para alugar. Como não experimentar? 

A "nossa" Bikanka.


Experimentámos, claro. Marcamos para as férias do Carnaval. Sabíamos que não ia estar muito calor e era uma primeira experiência para ver como nos daríamos com a coisa. O roteiro foi simples: Lisboa, Ericeira, Peniche, Baleal e Nazaré. Parámos sempre ao lado de praias, de manhã fomos sempre pôr um pezinho na areia, conhecemos as vilas à noite e dormimos com aquecimento-central (nunca pensei que pudesse haver este tipo de mordomias, sinceramente). 

Tomámos banho com água quente - até tivémos de ter cuidado porque rapidamente saia a ferver - levámos internet connosco para ver uns filminhos depois da Irene adormecer, podíamos carregar os telemóveis e as máquinas fotográficas, duas camas de casal, espaço de "sala de estar" mesmo com a segunda cama aberta, tudo fechado, cortinas e afins para termos privacidade e também para não levarmos logo um chapão de sol de manhã. 

Outra coisa que me surpreendeu foi o conforto das camas. Não estava à espera que, numa auto-caravana, as camas fosse iguais às de casa. Eram mesmo. Dormimos com edredão e foi o suficiente. 

De manhã, abríamos a janela e lá estava a praia à nossa espera. 

A sorte... Fez-lhe maravilhas às vias respiratórias também... 

Fartámo-nos de comer fora, mas também cozinhamos uma refeição na bikanka. Comemos uns hambúrgueres no pão com salada e ao pequeno almoço uns ovos mexidos. 

Lembro-me de quando era mais pequenina e passeava com os meus pais de passar por parques de campismo e achar que as pessoas que iam nas auto-caravanas deviam estar super desconfortáveis, mais ainda do que a malta que ia de tendas, mas... afinal nem sempre é o caso.

Só há um problema: fiquei com o bichinho. O de querer mais. Queremos tornar isto numa tradição familiar e fazê-lo todos os anos. 

De janela aberta ao final da tarde a comer uma laranja. 


Vou escrever-vos mais posts sobre isto, quem sabe até com umas dicas para quem quiser começar - apesar de não ser NADA complicado.

Estamos tão felizes. A Irene delirou e contemplou o mar. Foi bom vê-la a sentir as coisas assim. 


Querem experimentar?