5.21.2015

Um tapinha não dói?

A propósito do post de ontem As palavras que nunca te direi, que está a ser bastante partilhado (fico mesmo contente por terem gostado e se terem identificado), venho deitar mais achas na fogueira para reflectirmos juntos.


Um tapinha dói ou não dói? 
Eu acho que dói, principalmente na alma. De quem dá e de quem leva.

Deixo-vos uma história, com a ressalva de que o meu pai é mesmo o melhor pai do mundo. Errou, apercebeu-se do erro, pediu desculpas.

Não me lembro de apanhar. Duas vezes talvez. Não era hábito. O meu irmão talvez tivesse levado mais vezes, não sei, apaguei da memória. Mas lembro-me do meu irmão, muito pequenino, fazer asneiras e ir ter com a minha mãe, com as mãos esticadas, e dizer "bate, bate, bate" e da minha mãe se desmanchar a rir e não bater.

Os meus pais eram pacientes (tinham de ser mesmo muito, com dois irmãos que não se davam lá grande coisa, andavam sempre a brigar, mas que se adoravam, não é Frederico?) e resolviam a coisa quase sempre na base do diálogo. De vez em quando uns berros, que ninguém é de ferro.

Mas houve um episódio que me marcou. Digo que me marcou porque até hoje está bem presente na minha memória. Não que tenha ficado uma mágoa ou algum ressentimento, mas se me lembro de tudo de forma muito clara é porque foi impactante na altura.
Eu estava na sanita. O meu irmão conseguiu, não sei como, enfiar a carteira do meu pai na sanita. Deve ter ido dizer ao meu pai que tinha sido eu, porque só me lembro do meu pai vir ter comigo e me dar uma valente palmada no rabo. Chorei, chorei muito. Ele chorou mais ainda, quando se apercebeu que me causara dor. E, ainda por cima, por se ter apercebido que não tinha sido eu. Errou duplamente. Tenho essa imagem guardada. O meu pai ajoelhado à minha frente, na casa de banho, a chorar e a pedir-me desculpa. Só de me lembrar disto, fico com os olhos cheios de lágrimas, a pensar na culpa do meu pai.

Um tapinha dói. Dói a todos. E deixa memórias que não se apagam. 

Eu amo o meu pai, desculpo-o, desculpei-o logo na altura. Errou, como todos erramos. Mas não acho que as palmadas que levei tenham feito de mim a mulher que sou hoje. O que fez de mim quem sou hoje foram os ataques de cócegas, as festinhas a ver filmes deitada com a cabeça no colo dele, a paciência a explicar-me as equações, as boleias que apanhávamos nas ondas, as conversas à mesa da cozinha, a presença dele nos campeonatos de ginástica, a segurança que me passava, a motivação que ele me dava, o exemplo de esforço, de trabalho, a abnegação pelos filhos, as piadas secas, o humor (e o mau humor às vezes), a forma de dançar que me envergonhava, os conselhos, os abraços, os passeios, as manhãs de sábado passadas na cama, os quatro, a rir.

Bater não resolve nada. Nem sequer gosto de limpar o pó, por isso não deverá ser na minha filha que o farei. Para mim, um tapinha dói.

Como consegui armazenar 7 litros de leite materno.

Se alguma vez pensei armazenar leite e muito mais do meu e quanto mais 7 litros. O que a minha vida mudou nos últimos anos. Dantes, as mamas serviam apenas para desviar a atenção da barriga em coisas menos justas, agora foram o que fez com que a minha filha crescesse. 

Um dia conto a minha experiência até a amamentação ser só uma coisa boa. Ainda não me apetece. Muitos pormenores e tenho de fazer um esforço grande para me lembrar. Pensei, porém, em tentar ajudar as mães que têm de ir trabalhar e deixar os filhotes com outras pessoas. 

Atenção que não se deve começar a tirar leite enquanto a amamentação não estiver estabilizada para não correr o risco de problemas por excesso de leite.




- Não é necessário comprar uma bomba de leite. Se já tiverem amigas mães, basta pedir-lhes. Se tiverem sido mães há relativamente pouco tempo, o modelo ainda será dos melhores e poupam um bom dinheiro. Também há empresas que alugam bombas de leite, como a GEOFAR. Também há vídeos que ensinam a tirar leite manualmente no youtube, mas não é muito a minha onda. 

- Tirar leite é uma experiência por si, muito semelhante à da amamentação em muitos casos: é preciso querer muito, estando consciente dos benefícios. 

Ok, sou "só" mãe. Não sou especialista no assunto, mas eis o que funcionou comigo: 

- Comecei a tirar leite 3 meses antes de voltar ao trabalho  (DICA MAIS IMPORTANTE DE TODAS)- a pressa é inimiga do armazenamento de leite. Assim, tive tempo para todos os dias em que não saía nem uma gota, para os dias em que só saiam 10 ml, os que saiam 30ml e os que saiam 90ml e isto das duas mamas.  Sem stress.  Tirar leite com a bomba é um processo que demora muito tempo até começar a resultar. Se, durante várias tentativas não conseguirem, não stressem. Vai acontecer e é menos tempo que falta para conseguirem. Eu demorei imenso, imenso tempo. Acho que foram precisas umas 20 tentativas para começar a sair alguma coisa. 

- Comprei sacos da Babies 'r' Us no Toysrus - são muitos e muito baratos, torna-se mais fácil arrumar o leite no congelador, sem roupar espaço a tudo o resto. São os mais baratos que já vi à venda e sem artimanhas de mandar vir da internet.  Atenção que há bombas que já vêm com o seu próprio sistema de armazenamento integrado e que, portanto, pode ser mais fácil ainda do que transferir o leite do recipiente da bomba para o saco. 

- Tirei leite imediatamente após as mamadas - como nunca sabia quando ia oferecer mama à Irene e não queria sentir que poderia ter mais leite se não tivesse estado a tirar leite uns minutos antes (apesar da mama nunca ficar sem leite - é uma torneira e não "um cantil", mas são coisas que nos passam pela cabeça à mesma). Achei que, ao tirar leite assim que lhe acabava de dar mama, estava a dar indicações ao corpo de que o bebé tinha continuado a mamar e num breve espaço de tempo, o meu corpo começaria a produzir mais por mamada. Assim foi. Tirei leite após praticamente todas as mamadas do dia. 

- Guardei pequenas quantidades por saco - já que são baratos, borrifei-me para isso. E como, na altura, ela beberia por volta dos 150 ml, guardava 50/60/75 mil por saco. Até porque raramente conseguia tirar mais das duas maminhas. Desta forma raramente desperdiçávamos leite ao preparar biberões. 

- Tinha a bomba sempre ao lado do sofá já preparada para a próxima colheita - às vezes dá-nos a preguiça e o melhor é já ter tudo preparado para não haver desculpas. 

- Distraía-me a ver televisão ou a ver fotografias e vídeos dela - convém estarmos distraídas porque quanto mais nos focarmos na quantidade que está a sair, menos sai. Inibimos a hormona de ejecção do leite (oxitocina). Essa hormona, também chamada hormona do amor, pode ser activada por estarmos a ver vídeos e fotografias deles. 

- Via programas com legendas - a bomba costuma fazer algum barulho, por isso, não havia Casa dos Segredos para ninguém quando tirava leite depois da mamada de a por a dormir.

- Especificidades da máquina - convém irmo-nos entendendo com a máquina. A minha, às vezes, deixava de fazer vácuo correctamente porque eu não estava a segurar bem nela ou porque, depois de a lavar, não a limpei com paciência e a água não ajuda ao processo. Há bombas que temos de estar imóveis, outras que não, como aquela a que já fizemos publicidade aqui no blogue e que é, de facto, muito mais confortável (vejam aqui)

- Vi isto como um desafio - é como correr aqueles minutos a mais na passadeira. No final, por termos conseguido aqueles kms extra, sentimo-nos as maiores. Neste caso, com mais o motivo de estarmos a prolongar o melhor tipo de alimentação para o nosso bebé. Senti-me a maior por me ter organizado tão bem, por ter sido tão insistente. Fui trabalhar sabendo que a Irene ia continuar a ter "as maminhas da mãe" por perto. Não é a mesma coisa, mas melhor que nada. :)

- Não adiei - não pensem que depois tiram todos os dias no trabalho. Eu sou super fundamentalista da amamentação e, se tivesse continuado a trabalhar, provavelmente não teria continuado a tirar leite (arranjaria maneira de trocar refeições dela para só continuar a beber leite materno, claro). Não tinha paciência. Levar a bomba, lavar a bomba... era uma chatice. Dêem o melhor avanço possível em casa. 


Não se esqueçam que existem grupos de apoio à amamentação no Facebook e existe a linha SOS Amamentação, ambos repletos ou de mães com experiência ou de conselheiras de aleitamento materno (CAMS).

Mais sobre amamentação no blogue? Carregar aqui.

5.20.2015

As palavras que nunca te direi

Agora que já percebes quase tudo do que te digo e parece que foi num ápice que passaste a compreender os nossos pedidos e perguntas (vai buscar os sapatos, calça a mãe - sim, eu exploro-te um bocadinho - dá um beijinho à mãe, vamos tomar banho?, vamos à rua?, queres papa?, queres banana?, queres água?, não faz isso, faz óó com o Zezé!, deu um pum?, está a fazer cocó?, dá à mãe, entre muitas outras coisas), começo a pensar nas coisas que te quero ou não dizer. De que forma te vou pedir um favor, te vou dizer que concordo ou não com algo, como te vou expressar o meu desagrado, como te vou pedir ajuda e dizer-te o que sinto. Como vou reagir perante as tuas birras. Como me vou expressar quando estiver zangada. Se vou conseguir respirar fundo e não perder a calma e a ponderação. Se vou tentar entender-te. Para já, as boas intenções, tenho-as todas. E estas são as palavras que nunca te direi.

1) A mãe assim não gosta de ti.
Mesmo que digas que não gostas de mim, que sou chata, mesmo que faças o maior dos disparates, a mãe vai gostar sempre de ti. Posso não gostar do que fizeres, mas de ti, sempre.

2) És uma menina feia. És uma menina má.
Nunca me vais ouvir dizer isto, é que nem que caia o Carmo e a Trindade. Não és feia, nem és má. Fizeste algo errado e vamos conversar sobre isso, tentar perceber porquê e não voltar a repetir. Se te digo que és feia e má, vais acreditar nisso. E não és. Nenhuma criança é.

3) Queres que te dê uma boa razão para chorares?
Odeio, odeio, odeio. Não sei se é pior a ameaça ou o facto de se estar a desvalorizar, muitas vezes injustamente, os motivos pelos quais vocês choram. Há sempre uma razão e são sempre boas razões, porque são as vossas. Tentar perceber o motivo e ajudar-te a ultrapassar essa crise, é o meu objectivo. Incutir-te medo, nunca. Não quero que tenhas medo de mim. Sou a tua mãe, a pessoa que mais te ama no mundo.

4) Olha que vem aí a velha do saco! / Olha que chamo a polícia!
Porquê criar-te fantasmas e medos, se sou quem mais deve zelar pela tua segurança e conforto? O que conseguimos com ameaças destas? Que cumpram o que vos pedimos com base no medo? Ou queremos que cumpram o que vos pedimos com base na confiança e na relação de segurança que vamos construindo?

5) Não sejas parva, isso não é nada.
Deixaste o boneco em casa da avó e, para mim, isso não é nada. Para ti pode ser tudo. Cais e nem esfolas o joelho e, para mim, isso não é nada. Para ti pode ser tudo. Querias ter-me ajudado a fazer o bolo e eu resolvi fazê-lo enquanto dormias a sesta para adiantar. Se choras, é porque, para ti, fazer aquele bolo era tudo. Desvalorizar essa dor, isso sim, é ser parvo.

6) É para aprenderes!/ É bem feito!
Qual é o gozo de os vermos a aleijarem-se, depois de lhes termos dito para não fazerem isto ou aquilo, e ainda vincar bem isso? Que necessidade é esta de lhes mostrarmos que temos razão e que a culpa das consequências é todinha deles? Será que não aprenderam por eles que não o deviam ter feito? Ainda temos de lá ir mostrar que somos os maiores e que tínhamos razão?

7) Vais ali para o cantinho, pensar na vida
Li algures e fiquei a pensar nisso: por que é que estamos a ensinar-lhes que "reflectir", "pensar", estar sozinhos, é um castigo? E em que é que isto resulta? Será que as crianças têm capacidade de problematizar as situações? Não seria melhor falar com eles, explicar-lhe qual o comportamento adequado, já que "tens de te portar bem" não diz nada em concreto?

8) Se não comes, não te conto uma história.
Em que é que uma coisa está relacionada com a outra? E por que havia de estragar ainda mais a noite - sem comida e sem história - sendo que ambas são importantes para ti? Para nós? Pode haver mil motivos para não te apetecer comer, tal como acontece tantas vezes comigo. A nossa vida não tem de se tornar num inferno por causa disto. Muita calma nesta hora.



Quero ser firme, mas quero ser paciente, quero ser compreensiva. Não quero ser bruta, estridente, não quero ter raiva de ti. Quero que aprendas os limites, as (nossas) regras, mas não quero que nada disso tenha como base frases feitas, nem medo, nem autoritarismo. Não quero ser permissiva, quero ser justa. Não me quero esquecer que és uma pessoa, que erras (na maior parte das vezes sem saber) e que tens de ser respeitada. Educar é tão difícil. Mas eu quero tentar fazê-lo sem (muitos) gritos, sem castigos ou violência. Com calma, com carinho. Vou tentar, meu amor. Prometo-te que vou tentar.