3.22.2015

Mães que tudo sabem (#06) - Joana Gama

Chega agora aquele momento de pingue-pongue totalmente inesperado. Ela entrevistou-me, eu entrevisto-a. Nem sei como é que ela deixou passar tanto tempo desde a entrevista que me fez, sem reclamar "então e a minha entrevista?". Ela adora falar dela e eu adoro ouvi-la. Já lhe dediquei um texto mariquinhas, mas agora quero que percebam melhor (se não perceberam ainda) quem é esta mãe. Que sabe tudo, claro, ui, esta então não a contradigam, que está o caldo entornado. Hehe

01- Quando te sentiste mãe pela primeira vez?

É difícil. Senti-me muito Mãe durante a gravidez, por muito "estúpido" que possa parecer. Depois do parto, como contei, não senti nada. Não me senti nem Mãe, nem Joana, nem ninguém. Quando viemos para casa e os sogros pararam de trazer coisas (achamos brilhante a ideia de mudar de casa quando a Irene nascesse) e tudo assentou, o silêncio trouxe-me o coração de volta. Comecei a amar. Devagarinho, mas sempre a aumentar. Ainda hoje. Quando se pensa que já não dá para mais... é como dizes num post: "coração de mãe é elástico". 

02 - Mas nunca tinhas brincado com bonecas (não estou a falar das insufláveis)?

Tinha, claro. Lembro-me de ter Nenucos que faziam xixi, Barbies às quais cortava o cabelo, Barriguitas, etc. Aconteceu algo entretanto na minha vida que fez com que eu visse a maternidade como algo demasiado maior que eu. Que eu não conseguiria estar à altura de tarefa tão importante. Tinha decidido ignorar o propósito do meu útero para sempre até me apaixonar pelo meu Frederico que me faz sentir gigante (no bom sentido). 

03 - No que é que sentes que já superaste todas as expectativas?

Ser Mãe tem sido uma aprendizagem de fora para dentro e de dentro para fora. Aprendo mais sobre mim ao cuidar dela e aprendo muito sobre ela, olhando para mim. Superei as minhas expectativas porque, afinal, sou capaz de amar tanto quanto uma mãe ama. Tenho em mim o material necessário para ser uma mãe do caraças e tenho tomado todas as decisões nesse sentido. Tudo o que gostaria que, um dia, a Irene soubesse da Mãe, é o que eu estou a fazer. Quero que ela se sinta amada agora e quando se recordar, mais tarde, da sua infância.


04 - O que é mais difícil nisto da maternidade?

Maturidade. Auto-controlo. Relativização. Capacidade de respirar. A luta contra a privação de sono. Não endoidecer. Ter vontade de brincar quando temos o corpo cheio de dores e morto por dentro, de cansaço. Deixamos de nos alimentar de hidratos de carbono e de "energia" para vivermos do coração.

05 - Se pudesses mudar alguma coisa em ti como mãe, o que mudarias?

As mamas.
Vá: mudaria a minha ansiedade. Não gostava que a Irene crescesse a achar que a forma urgente que a mãe tem de sentir tudo fosse normal. Gostava que ela fosse livre e que nada a prendesse de sonhar e de alcançar. 

06 - Queres ter mais filhos, mas primeiro queres degustar e engolir a Irene todinha, com tempo?

Sim. Por mim, passaria a vida a parir. Quero muito dar mais seres fenomenais como a Irene ao mundo. E hei de dar. Calma, entidade patronal! Fui filha única durante 10 anos e adorei a experiência de me sentir mãe do meu irmão. Quero que a Irene receba o máximo de amor dos pais, que não encontre uma mãe cansada de acordar 20 vezes por noite por causa do irmão mais novo e, portanto, sem vontade para ir ao Jardim Zoológico com ela. Quero brincar com ela. Quero ser amiga dela e ter tempo, vontade.


07  - A Irene é mais bonita do que imaginaste? 

Nem tinha imaginado nada, acreditas? Não sou como tu, dócil e visual entrevistadora. Mas sim, qualquer coisa que eu pudesse imaginar estaria longe disto. E sei que não é por amor de Mãe. Ela é mesmo muito bonita mas, mais importante que isso (e não estou a ser só politicamente correcta), é muito palhaça, o que me enche de orgulho.

08 - És capaz de devorar agora um pacote de bolachas ou porcarias várias. Quando a Irene quiser, o que vais fazer? Esconder-te na cozinha a comer?

Ainda não pensei nisso. Não creio que o peso da Irene vá ser minha preocupação a não ser num caso extremo. Irá sempre ser incentivada a praticar desporto e a ter uma alimentação saudável. Não acho produtivo não deixar que eles (nós) matem determinados apetites e fazer desses snacks o "fruto proibido". Quer comer? Come. A vida também tem de ser gozada com esses faux-pas. Há quem fume, há quem coma bolachas. No dia a seguir tem natação, não faz mal. :)


 09 - Quando a Irene for para o jardim de infância, vais chorar durante quantos dias?

Por ser ansiosa (depois pago-te a consulta), tenho o dom do sofrimento por antecipação. Quando a Irene for para o infantário será igual a quando fui trabalhar depois da licença de maternidade: não gostei, fez-me confusão, mas lidei com isso. A  minha decisão de vir para casa durante um ano foi racional, graças a ter andado a pensar no que iria sofrer durante três meses, todos os dias, antes de regressar à rádio. Não me matei, mas sim, vim para casa. 

10 - Tu não és muito de sair de casa. Tens feito um esforço enorme para que a tua filha não esteja num Big Brother ou até já te sabe bem fazer programas com ela fora do casulo?

Eu moldar-me-ei a ela. No início fiz um esforço enorme para sair com ela de casa. Ainda para mais não tive o andamento de muitas mães porque a nossa pediatra recomendou não sairmos de casa para sítios públicos durante os primeiros três meses (por causa das vacinas) e, portanto, pouco saiu a Irene. Os problemas de amamentação que houve também não me deixavam confortável com saídas. Ter episódios de recusa de mama em que ela chorava, gritava e esperneava (e eu também), faziam com que não fossemos uma família portátil a não ser na hora imediatamente a seguir à mamada. Sair com contador não é agradável. Ainda para mais, para mim.

Saio com ela sempre que ela está em condições para sair. Mesmo que não me apeteça. Se estiver dormida e comida temos de ir passear. Não me perdoaria se não fosse.


11 - A mãe é que sabe?

Sinto que a Mãe é quem tem mais interesse em tudo saber. E, portanto, em princípio será a mais informada além da que mais tem o coração na boca. Não desfazendo o pai que tem o papel de equilibrar tudo isto, claro.

12 - Vives bem com o facto de eu ser muita mais linda? (Ahahah esta foi a gozar, obviamente)

Vivo muito bem com o facto de achares que és muito linda. Gosto de humor. 



3.21.2015

Afinal Havia Outra (#15) - O cheiro dos bebés

Quando estamos grávidas e começamos a falar do assunto com outras mães há um assunto que vem sempre à baila: o cheiro dos bebés.
Todas, sem excepção, deliram com o cheiro dos bebés recém-nascidos ou mesmo dos bebés em geral. Todas falam do cheiro suave e quente da pele de bebé, do bafo leitoso que se sente quando se encosta o nariz junto à boca deles, do aroma adocicado nos refegos das pernas ou na curva especial do pescoço. E quando se pega num bebé que acabou de tomar banho? Ui, então aí o mulherio derrete-se em suspiros e até sente fraqueza nas pernas. Sim, o cheiro dos bebés é bestial e devia vender-se em frasquinhos para podermos snifar sempre que nos apetecesse... 

Isto se os bebés de que estamos a falar não forem os meus bebés.

Como saberão o cocó dos bebés recém-nascidos não tem propriamente cheiro e as quantidades de xixi são tão pequenas que ainda permitem que o dito fique devidamente retido nas fraldas. A crosta láctea nestas minhas criaturas é inexistente por isso também não temos cheiro vindo daí. A roupa deles cheira sempre bem, obrigada amaciador, e a chucha é pouco usada por isso também não acumula cheiros. Ainda não usam aqueles bonecos dos quais nunca se separam e que são como um terceiro braço, por isso também não levamos com o cheiro estagnado de um peluche que já foi fofinho e novo e agora é encardido e amorfo. Do que é que eu estou a falar, então?

Do cheiro a bolçado.
Esse cheiro meio azedo, meio fresco, que os meus filhos teimam em manter durante o(s) primeiro(s) mese(s). Os gaiatos mamam muito bem, aliás, nasceram ensinados e sempre correu tudo bem no que toca à amamentação, no sentido lato de alimentação e garantia de sobrevivência de um ser vivo minúsculo. Estou muito grata por isso. O que me aborrece, não, é mais forte que um aborrecimento, o que me chateia mesmo, que me lixa o juízo e me consome os neurónios é a reacção automática que eles têm assim que são colocados a arrotar após a mamada e que é deitar cá para fora todo o leite que estiveram a sacar da mãe.

Vá, eu sei que não é toooodo o leite, até porque se assim fosse não cresciam a olhos vistos e também sei que é normal isto acontecer dada a imaturidade da válvula que regula a entrada do estômago, a cárdia, e que impede que a comida volte para a boca. Também sei que uma pequena colher de café cheia e derramada numa toalha faz estragos, sim, já fiz este teste recomendado pelos pediatras para perceber que a quantidade de leite bolçada pode ser uma ilusão de óptica. E antes que perguntem, sim, já verifiquei que a pega e a posição de amamentar estão correctas e dormem numa cama inclinada. 
Não sei porque é que isto acontece, sei que vai melhorando com os dias, vá, com as semanas e meses, mas que fico com nervos fico. É roupa molhada, é babete ensopado, é mais uma fralda para lavar e é, muitas vezes, um fio de leite a escorrer pelo meu peito até à barriga. O que é sempre agradável, principalmente no inverno! Quem te manda ter filhos no inverno, pá? 

Eu até gosto de natas azedas e de queijo fresco (que é como o pai chama ao bolçado mais denso que às vezes aparece), mas prefiro tê-los no meu prato e não na minha roupa! E gostava muito de poder cheirar os meus filhos à vontade, com aquele ar enamorado e derretido, sempre que me apetecesse, sem me deparar com um pijama húmido ou um babete cheio de manchas amarelas. 

Os putos até são fixes, dormem bem, comem bem e são calminhos, mas podiam ter esta cena controlada para a mãe puder sacar-lhes o cheirinho bom a toda a hora e o pai, que nem gosta de queijo, gostar de os pegar ao colo.

Joana David e Silva
mãe do João, de dois anos, e do Francisco, de três meses

a Mãe dá (#15) - Bilhetes para a peça Esperança (com César Mourão)

Não vou tecer grandes comentários à qualidade do espectáculo porque, por ser esposa de um dos autores (o outro é o próprio César), acho que não me levariam a sério. Mesmo que não fosse esposa dele, já não me levariam na mesma, não é? 

Posso dizer-vos o que senti ao ver a peça. Senti que estava a ver um daqueles filmes que, mesmo com sono, não iríamos para a cama sem ver o final. Mesmo que estivesse gravado na box. Mesmo que tivéssemos tido uma daquelas noites, por causa dos nossos filhos, em que acordámos 41 vezes. 

Ficamos a gostar da velha Esperança. Costumemos dar ouvidos aos nossos velhotes ou não, temos muito gosto em ouvir esta Esperança que tanto desconversa mas, afinal de contas, vai conversando durante toda a peça. É uma velha que está muito viva apesar de estar num hospital. Apesar de só ter sido "o que a deixaram ser". É uma velha à portuguesa, que se vai queixando de estar cansada, mas que manda as suas larachas para fazer rir, aproveitando as histórias dos outros. Nós conhecemos esta velha que, segundo César Mourão, é a junção de muitas velhas que ele já conheceu e observou. 

Sugiro que conheçam a Esperança. Que vejam o César a dar corpo (que, estranhamente até lhe assenta bem) a esta velha e também que oiçam o coração que foi posto neste texto. 





19 março a 5 abril

4ª a sábado - 21h30 | domingo 18h | M16

3 abril não há espetáculo

autoria CÉSAR MOURÃO E FREDERICO POMBARES

interpretação CÉSAR MOURÃO

encenação ANDRÉ PAES LEME

produção H2N


Tínhamos um bilhete duplo para oferecer para amanhã, 22 de Março e o vencedor é:


PEDRO PINTO, PARABÉNS! 

É favor levantar o bilhete meia hora antes do espectáculo (17h30) nas bilheteiras e apresentar BI/Cartão do Cidadão.