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6.11.2019

O que fariam vocês?

Ontem, quando o avião aterrou, estavam as duas a dormir. Eu estava sozinha com elas. Levantei-me, mochila às costas, saco com os documentos e livros de colorir, uma num braço e a outra no outro. Pousaram as cabeças e continuaram a dormir. E eu continuei corredor fora. Não houve ninguém que me oferecesse ajuda. Atenção que não estou a fazer queixinhas. Quando escolhi ir de férias com elas e com o meu irmão, já sabia que ele regressaria 4 dias mais cedo e que regressaríamos à noite, tarde, e que isto poderia acontecer. No entanto, tive esperança que o carrinho estivesse à nossa espera logo no corredor, como já me aconteceu algumas vezes. Mas não. Paciência, vamos lá, não encontrei outra solução. Felizmente, uns metros depois, a Isabel disse-me ao ouvido: "mamã, estás pesada, eu posso ir a pé". Não estão bem a ver o meu coração a explodir de alegria. Inesperado. Único. À meia noite e meia a minha filha estava, contra todas as expectativas de uma criança de 5 anos cansada, a ser tudo aquilo que eu precisava - uma ajuda. 

A Rita Ferro Alvim, que foi connosco, não é para aqui chamada. Além de vir mais atrás no avião, tem uma filha pequena que também estava a dormir e um filho também pequeno e muito fez ela depois ao ficar à espera do carrinho, que não vinha, e a ir buscar-me o carrinho às bagagens de formato irregular, que ficavam só no sítio mais distante possível - o que dá sempre jeito para quem tem bebés. Confesso que nunca me tinha acontecido - costumam ou entregar logo à saída no corredor ou estar logo no tapete das malas. Só lhe tenho de agradecer a companhia e a ajuda.

Isto não é, volto a frisar, um ataque a ninguém. Nem eu tenho a certeza do que faria numa situação destas ou se sequer ainda "via" alguma coisa àquela hora. Quero acreditar que sim, sei lá. Uma senhora com alguma idade, já no tapete das malas, quando me sentei no chão com a Luísa a dormir no colo e a Isabel encostada, se ofereceu para ajudar em alguma coisa. 


Mas pus-me a pensar em duas coisas:

- se calhar as pessoas têm medo de se oferecer para dar colo a uma criança que não seja "delas"

Uma vez li um post da Joana Gama que falava de um certo desconforto que cumprimentassem a Irene com abraços ou a agarrassem - já não me lembro bem - e percebi que somos todos muito diferentes no que diz respeito a limites, medos, corpos, etc.
Eu não vejo, à partida, razões para temer, nestes assuntos. Sou das que não fica melindrada com o facto das minhas filhas trocarem de fatos de banho na praia e fiquem um bocadinho nuas com receio de que haja predadores algures. Ou que mostrem mamas com estas idades. Ou que o animador da piscina a leve às cavalitas ou lhe faça cócegas. Por favor! Por que havemos - sempre - de pensar o pior? Que clima de suspeita é esse que se foi criando? Não sou ingénua, não, mas acho que o clima de medo com que querem que vivamos ou em que escolhemos viver também não nos faz bem enquanto sociedade. Ensinarmos aos nossos filhos o consentimento e os limites, sim, claro, não os obrigarmos a irem ao colo de outra pessoa, caso não queiram também me parece óbvio, mas calma! Nem 8 nem 80. E já nem falo das casas abertas para os vizinhos nas aldeias, que acho que isso já não existe, mas acho que andamos a ficar um bocado medrosos de mais, e que isso impede que se construam "aldeias" de entreajuda: "ficas aí um bocadinho com o meu filho para eu ir ali ao banco?", dito à vizinha do lado. Estamos a perder, cada vez mais, um olhar atento ao outro e às necessidades do outro e isso também nos prejudica a nós, num todo, enquanto comunidade.

- se calhar as pessoas acharam que se eu precisasse de ajuda, pediria

Não sei se ganhámos vergonha de pedir ajuda. Se calhar sim. Como se fosse significasse fraqueza. Queremos provar aos outros que está tudo controlado, que somos muito fortes e práticos e que somos capazes. Assumimos a responsabilidade de tudo, por inteiro: "os filhos são meus, aguenta". Eu já comecei a conseguir pedir mais ajuda, até para poder ir fazer coisas que não são assim tão importantes - por exemplo, no outro dia pedi à minha cunhada para me ficar com as miúdas para eu ir jantar fora ou assim, já nem sei. Não era para ir trabalhar, nem para resolver nada sério. Era simplesmente para ir espairecer e estar com amigos. E então? Correu tudo bem. Um dia, se ela ou outra pessoa qualquer me pedir ajuda, por saber o bem que me soube, vou querer retribuir, em dobro até. Favores em cadeia! Uma utopia? Talvez.

Mas bem, se fossem no mesmo voo que eu e só tivessem uma mochila para levar (e estivesse tudo okay com as vossas costas, etc), o que acham que fariam? E se fossem vocês as mães com duas crianças ao colo, pediriam ajuda? Acordavam-nas?

P.S. Aproveito para vos convidar a verem o primeiro vídeo do A Mãe é que sabe AJUDAR que já saiu no Youtube! Aqui!

5.27.2019

Eles não deviam ir para a escola.

Já pensei nisto centenas de vezes. Na maneira como escolhemos organizar o mundo em torno do dinheiro e das necessidades não essenciais nas quais nos focamos tanto para nos iludirmos com uma sensação temporária de satisfação em vez da de "felicidade" ou calma mais constante.  Foi uma frase muito...? Agora andam a dizer-me que às vezes entro em modo guru e que não me calo mas... convém irmos pensando nas coisinhas porque para estar em modo automático temos os electrodomésticos. Se somos racionais, convém usarmos isto da... racionalidade? Diria. 

Já me irritei. Já me irritei achar que as mães e os pais não deviam estar a trabalhar para pagar as escolas onde os miúdos ficam para as pessoas tomarem conta deles, mas depois da reunião da semana passada na escola e estando a Irene a passar por uma fase boa, não consigo não... mudar um pouco o mindset. 

A Irene já tem 5 anos. Obviamente que acho horrível - principalmente os pais não querendo - que as crianças tenham de ir para infantários e creches por falta de direitos, de liberdade, de compreensão da entidade patronal... por tudo. Acho mesmo que devíamos focar-nos mais na questão da parentalidade como um bem essencial para que o mundo melhore e continue a existir e deixarmos de ver as pessoas meramente como ferramentas para obter mais dinheiro. Porém, na maioria dos casos, é assim que funciona. Ainda. 

Há quem tenha de voltar a trabalhar com 3 meses de pós parto e 3 meses de bebé e isso devia ser crime. Estando a recibos ou a contrato, o quer que seja, fazer isto a uma família é algo com o qual nem os próprios patrões deveriam compactuar. Antes de serem patrões, são pessoas e um dia calha-lhes no colo serem mães e pais e espero que ponham a mão na consciência. 

A questão é que muitos patrões até já o são sendo pais mas estão muito focados no trabalho e, por isso, consciência destas coisas é infelizmente um espaço que não lhes assiste dada... a urgência do trabalho. Tudo é legítimo. É mas é escusado serem as crianças a pagarem por isso e, ja agora, os pais que querem dar-lhes a atenção que eles merecem. 

Fomos tomar um brunch só nós no outro dia, foi tão, mas tão bom... 

Estou irritadinha hoje, não sei se é de andar a dormir pouco, mas depois compenso nos próximos posts com mais simpatia, vá. 

Bom, seja como for. A Irene agora tem 5 anos. Está crescida. Deixá-la na escola não tem sido um drama. A minha vida está mil vezes melhor, estou muito mais feliz (e, newsflash: estas coisas estão ligadas umas às outras). Na reunião do colégio em que puseram a par de todas as actividades e jogos que têm vindo a fazer ao longo do ano (nesta escola e nesta idade a aprendizagem é feita em torno de brincadeiras e em momentos propostos pela professora e outros pelos alunos) e confesso que, pela primeira vez senti que afinal isto até está certo. "Nem tanto ao mar, nem tanto à terra". Tendo a sorte de encontrar uma escola que nos deixe descansadas e professoras nas quais consigamos confiar, faz muito sentido que as crianças passem os dias em conjunto e que haja uma orientação de alguém que também os ame (que seja uma espécie de mãe da escola, nesta idade) e que saiba o que está a fazer. Que além de ter sido formada para isso, também tenha vocação para o mesmo. 

Claro que não quer dizer que passassem 8 horas na escola ou às vezes 12h (que dor para TODOS), mas a escola não é um sítio errado ou mau - sendo a escola certa. A falta de liberdade de horários é que é horrível. 

Muita sorte tenho eu de conseguir para já ser freelancer e de a poder ir buscar a partir das 16h. No entanto, que bem que lhe faz. E que bem que tomam conta dela e a ensinam. O resto têm de ser os pais e a família a fazer ;). Mas, para isso, tem de haver tempo e descanso, caramba. E "trompas" para, mesmo cheias de medo, ajustarmos a nossa vida às nossas prioridades o melhor que soubermos. 

Aqui entre nós: a Irene só foi para a escola aos 2 anos e meio. Mesmo sentido tudo isto agora, nunca a teria posto mais cedo (porque pudemos tê-la em casa, claro). Há uma diferença gigante entre os 3 e os 5. E antes dos 3 achei mesmo - no caso da Irene, pelo menos - uma violência muito grande para todos.





5.23.2019

Descobri a solução para mim: acordar às 06h30 da manhã

O dia de hoje correu mesmo, mesmo bem. E eu acho que sei porquê: levantei-me muito mais cedo.


Costumo acordar só quando as miúdas acordam (vantagem de quem não tem horários e cujas filhas ainda não andam na primária) e costumava gostar deste sistema. Elas levantavam-se, vinham para a nossa cama, ficávamos ali na ronha, passávamos pelas brasas. Era bom. 

Mas eu sentia que o dia não rendia. E, se quero continuar a tirar uma hora por dia para fazer desporto - ando a fazer treino com PT duas vezes por semana, Yoga uma e Pilates uma -, continuar a ter a casa mais ou menos organizada, tempo para trabalhar e estar descansada quando as vou buscar e estar presente, acho que é esta a única solução. Hoje fui fazer análises e exames, cheguei a casa, estendi a roupa, arrumei a louça da máquina, fui treinar, fui ao lixo, fiz o jantar, fui aos correios, trabalhei, fui buscá-las, brincámos, banhos, jantar, e ainda tivemos tempo para três histórias antes de dormir. Coisa que, acordado mais tarde, não teria acontecido. Alguma coisa teria ficado por fazer. 

Tenho de me reajustar, agora que sou freelancer. De ganhar mais tempo, de me organizar de outra forma. E eu li há uns tempos que até há grupos de pessoas que partilham esta filosofia de acordar bem cedo: o 5am club. A primeira vez que li 5 da manhã ri-me. Mas a verdade é que quem acorda mais cedo tende a ser mais produtivo, mais proactivo, consciente, além de que, dizem, reduz ansiedade e depressão. Encontrei o texto sobre isto. 

Há todo um ritual matinal que não passa, como devem imaginar, por ir para o instagram mal se acorda. :)  Esta filosofia partiu do Robin Sharma, autor do livro O Monge que vendeu sua Ferrari. A primeira hora do dia deve ser dedicada a exercícios físicos durante 20 minutos (eu encaixaria aqui a saudação ao sol, do yoga), 20 minutos a planear o dia e a definir objectivos e outros 20 a ler ou a estudar algo novo. 20/20/20.

Claro que depois temos de nos deitar mais cedo. Beber muita água. Alimentarmo-nos bem.

Agora que as miúdas já dormem razoavelmente (apesar de ainda acordarem quase todas as noites), até acho "fazível". Ou acho hoje, que estou bem-disposta. Mas se nunca tentar e persistir, como saberei?

E vocês, o que acham disto? Conseguiriam?



Fotografias: The Love Project




5.20.2019

Leriam o diário dos vossos filhos ?

Por muito estranho que isto pareça, a Irene já tem um diário. Com código e tudo. Foi uma exigência dela. 

Sei que andou a passear com uma das avós no outro dia e viu um diário num centro comercial. Chegou a casa e pediu-me um. Como sempre que acho o pedido razoável digo: “em princípio sim, se vir algum, vou comprar”. 

Comprei e tem sido uma paixão enorme. Faz sentido que também tenha interesse no diário (embora inicialmente nem sequer soubesse para que serve) porque começa a treinar as primeiras letras. Já sabe praticamente escrever o seu nome (andou a escrever M em vez de N e nem reparei, teve de ser o pai, haha), mas pouco mais. De resto tem-me pedido para que eu escreva coisas de maneira a que ela consiga imitar. Tão giro. Nunca tinha presenciado este início de escrita. Começou com a lista de compras, ser ela a pedir um bloquinho para fazer a lista e agora quer um diário. Giro.


Partilhou o código com uma amiga, a Constança. Gostam muito uma da outra. Ao ponto de ter sido a única a quem ela revelou o código. Relembro que nem ela sabia para que servia o diário. Aos 5 anos quis ter algo seu, que parecesse secreto, embora ainda sem segredos para lá escrever. Digo eu, mas na volta já terá os seus. Como quando diz foi fazer xixi e não fez. Gira. 

Lembrei-me que fui muito de ter diários. E, pelos vistos, continuo a ter. Este blog é uma espécie disso mesmo. Fui tendo diários desde que me lembro. E houve um, pelo menos, que chegou a ser lido. Não tinha código nem cadeado. Um psicólogo diria que eu queria ser apanhada, mas nem por isso. Escondia-o como um caderno normal entre os meus livros ou, numa fase posterior, debaixo da última gaveta da minha secretária. 

Lerem-me o diário foi horrível para mim. Muito menos eu ter que saber que o fizeram, ter sido confrontada com isso. Creio que falava muito dos rapazes por quem estava apaixonada e com quem namorava. E talvez tenha sido daí que tenham tirado a conclusão que eu não pudesse ir de férias para o campo de férias naquele ano por ser “muito arisca com os rapazes”. Ou anos depois, não sei. 

Nunca cheguei a ir ver o que queria dizer. Fui ver e ainda não compreendo. Sempre entendi que quisesse dizer “badalhoca” ou algo do género. Diz aqui que não corresponde “aos bons modos”. Na volta tem a ver com isso, não sei. 

Agora sei o que me levava tanto a querer que gostassem de mim. Continuo a querer, olhem eu: escrevo um blog, faço vídeos, sou comediante... Está cá tudo na mesma.

Sei que estava no quinto ou no sexto ano. O meu caderno tinha uma fotografia dos Offspring na capa e na contra-capa. Impressa numa impressora já com falta de tinta amarela, então estava tudo azul ou lá o que era. 

Não gostei da sensação de me terem lido o diário. Senti que a minha privacidade não era algo a ter em conta. Como se de alguma forma não estivesse segura sequer a pensar, na minha própria intimidade. 

Se precisasse de ler o diário da minha filha, lê-lo-ia? Sendo completamente honesta, só tenho a certeza de uma coisa: se o lesse, ela nunca iria saber. Nunca lhe diria isso. Nunca a faria sentir-se violada dessa forma.

Se calhar sou péssima na mesma, mas pondo-me numa situação em que falar com a minha filha fosse impossível (por eu ser incapaz ou por ter uma relação com ela que se baseasse em medo e controlo), talvez lesse o diário, sim.

Não sei se aos 15 leria. Não sei se aos 16. Aos 17 muito menos. Sei que se estivesse extremamente preocupada que talvez fosse ler o diário dela.

Agora digo-vos, seria a minha derradeira tentativa. Só depois de tentar tudo. Desde questionar a minha forma de educar e amar, a tentar criar uma estratégia de apoio para a minha filha e para a família, a educar-me ao máximo, a tentar incluir outros players no jogo, a deixá-la em paz... Seria apenas na base do desespero TOTAL. E só porque confio em mim ao ponto de saber que o que leria não seria julgado nem alimentado com medo. Seria sim informação para a ajudar melhor e à família.

As mães são capazes de coisas extremas, mas têm de estar centradas.

Eu acabei por escrever os meus diários em DOS. Tive de me educar a criar documentos sem ser em windows e protegê-los com uma password para ter direito a algum ar livre. A poder processar as coisas, mas sempre a medo. Em tudo.

Às tantas creio que a noção de privacidade se alterou em mim e vejo o quão libertador é dizer-se a verdade. Não por haver quem diga a mentira, mas a transparência e ser-se tão genuíno quanto se sabe ser traz uma música muito mais saudável ao mundo. Trazendo amor, compaixão e começando por nós mesmos.

Quero muito nunca ter que ler o diário da Irene (quando ela souber escrever, vá). E todos os dias faço o melhor que sei. Tal como sei que os meus pais, dentro do que têm para me dar, também fazem o mesmo.

E vocês? Leriam o diário dos vossos filhos?






5.07.2019

Calma, todos fazem birras!

Ontem estive a falar com uma leitora que me pedia conselhos e que desabafava comigo sobre o facto do filhote dela ter sido um santinho até ter soltado a franga, agora com 22 meses, e de ser uma carga dos trabalhos para vestir, para comer, para tudo basicamente. Que cerra os punhos e que deita a casa abaixo (daqueles espectáculos que nós jurámos que "filho nosso não fará!". E, ainda, sobre a pressão dos outros sobre o facto de ele não comer e ser pequenino.

Ora bem. Tenho uma coisa a dizer: não estão sozinhas. Eu não tenho o hábito de partilhar imagens de birras delas e/ou quando estão a zangar-se uma com a outra ou a bater-se, por respeito pelo momento delas e por elas, mas, apesar de não partilhar, não quer dizer que não as façam. 


Tanto a Isabel como a Luísa tiveram fases "terríveis" (mas normais, acho) para se vestirem. Para saírem do banho. Para irem para a cadeira/ovo no carro: ui o que cada uma estrebuchava, parecia o exorcista! Se calhar fala-se pouco sobre isto, mas não, o vosso filho não está avariado! É normal. Para comer então, ui, super comum. Lembro-me de desabafar por aqui o facto da Isabel ser uma pisca a comer e, de repente, ter centenas de pessoas que partilhavam da mesma frustração. Felizmente tive uma pediatra que sempre desvalorizou e que sempre me acalmou relativamente ao crescimento dela. Percebi, até hoje, que ela é de pouco alimento (felizmente diversifica bastante e gosta - ainda, que eles têm fases - de coisas que eu diria serem improváveis). É dela. E eu respeito-a. Só não a deixo comer outras coisas depois. No outro dia, disse-me que tinha fome antes de ir dormir e eu fui aquecer o prato do jantar e ela comeu, sem protestos alguns (mas outras soluções que funcionem e achem bem serão válidas, digo eu). Obrigar a comer não é bem a minha onda. Negoceio um bocadinho (nem sempre), mas nada que me pareça intrusivo e invasivo. Tento não a comparar com a irmã (mas até isso já me escapou, sim, sim confesso: "olha para a tua irmã a comer tão bem". Mea culpa).

Soluções?

Estamos juntas nas birras, nas personalidades fortes, nos desafios diários e nas frustrações. Eu resolvo muitos dos "nãos" delas com cócegas e brincadeiras / jogos. 

Quando não se querem vestir (mais a filha de dois anos), invento jogos da máquina que faz pipipi quando o braço ou a perna passam. Ou digo as partes do corpo em inglês para ela repetir. Ou faço o jogo dos olhos fechados, em que ela tem de acertar nos buracos (nas mangas e pernas) com o corpo, sem ver. Parece demorar muito mas não, nada - nós é que acertamos. 

Claro que também explico que nos vamos atrasar e que vai perder alguma coisa na escola, mas raramente pega. E, como odeio gritar e stressar-me toda de manhã, opto pela brincadeira. Fiz o mesmo com a mais velha e hoje já não é preciso nada disto, graças a Deus. E não sinto que tenha perdido autoridade, sinceramente.

Para a saída do banho, depois de já ter avisado, digo que o monstro vai atacar. Ou conto até 5 e se ela não sair sozinha, tiro-a eu do banho, ao colo. Tem resultado que ela gosta de sentir que é ELA que está no comando e que sai sozinha. :) 

Para o carro também muito contorcionismo foi preciso, credo. Às vezes parecia que a estava a esfolar viva ao prendê-la no ovinho ou na cadeira. Já passou, felizmente. 

Passa. Vai passando. Outras coisas surgem, mas as outras melhoram. Não comem hoje, comem amanhã (com a Luísa não sofro disto que a miúda deve ter um buraco no estômago, de certeza, mas com a Isabel sei bem o que é...). E as birras? Tudo normal, a sério. Desgastam, mas temos de olhar para eles como seres em construção e que ainda não sabem resolver conflitos e gerir sentimentos. 

Agora, o que os outros nos dizem sobre os nosso filhos? A sério, caguem nisso.



4.25.2019

As coisas que as minhas filhas me ensinaram

Ser mãe era o meu grande sonho, o meu grande projecto. Mal sabia eu que iria açambarcar quase tudo na minha vida e que um dia teria um trabalho que girava em torno desse sonho. 

Sempre achei que iria conciliar um trabalho, para o qual me formei, com as minhas filhas. Mas, afinal, pelo menos por agora (nunca digo nunca), o meu trabalho é o meu blogue, onde falo sobre as minhas filhas e sobre isto de ser mãe. A ele, junto outros projectos paralelos. Abro portas a inúmeras possibilidades.




#01 Por isso, a primeira coisa que as minhas filhas me ensinaram, mesmo sem querer, foi que não vale a pena fazer grandes planos, que a vida encarrega-se de nos fazer chegar aonde teremos de chegar.

#02 A segunda foi que, afinal, uma pessoa consegue desdobrar-se, reinventar-se, criar as próprias oportunidades. Não é fácil, correr o risco não será possível para todos, mas tenho visto tantos casos de pessoas a criarem empresas e negócios (sai-lhes do pêlo, claro), que acho que o paradigma está a mudar. 

#03 É preciso saber esperar. De nada vale querermos apressar as coisas. Querer que eles durmam sozinhos quando não estão preparados; querer que andem quando ainda não sentem confiança; querer voltar ao nosso corpo antigo quando está tudo ainda, devagarinho, a ir ao sítio; querer recuperar a vida e o desprendimento que tínhamos antes. Calma. 

#04 O coração cresce desmesuradamente. Não há limites para o amor que sentimos pelos nossos filhos. É visceral. Não é nada parecido com qualquer outra coisa que tenhamos sentido. E cresce a cada dia que passa. Está em tudo e em pequenos nadas. Naquele olhar puro, naquela voz de desenho animado a dizer que gostam muito de nós, naquela mão dada durante a noite, quando vêm ter à nossa cama para se sentirem aconchegados e protegidos de um sonho mau. 

#05 Tomar um banho sossegada e em silêncio é dos maiores luxos do mundo. Pensavam que a lista era só fofinha, não? Nem pensar. Aqui há sempre aquele toquezinho de realidade que é para não enjoarmos. Concordam ou não? Ter a casa de banho só para nós sem estarmos a ouvir chamar por nós ou sem assaltarem a retrete quando estamos a fazer o número um sabe ou não como uma massagem?


Ser mãe é tudo aquilo com que sonhei, mas ainda mais intenso ainda. Uma coisa é certa: aprendi imenso e sinto que ainda tenho muito para aprender com as minhas filhas. E vocês? O que já aprenderam desde que foram mães? (E pais, se estiverem por aí!, claro)




4.24.2019

Sou viciada em ter filhos!

Acho que sou viciada em ter filhos. 

Pode parecer incoerente vindo de alguém que só tem duas, mas sabem lá o que eu peno por ter uma cabeça e um corpo que me "pedem" mais. 

É uma luta interior entre um "nem pensar, agora não" com uma vontade assolapada por mais um bebé na família. É uma luta interior entre um "era já que tudo se faz" e um "quero ter mais tempo agora que elas estão a ficar cada vez mais independentes e podemos aproveitar tudo melhor e com mais calma". 

Três é a conta que Deus fez mas Deus não contou com o carro, que tem de ser diferente, com mais uma escola, com as férias que saem mais caras ou com a loucura em que as nossas vidas se tornariam com três. 

Estas confrontações só são boas porque me fazem analisar o que a nossa vida tem de bom, valorizar cada coisinha e deixar-me de projectar coisas. 

Mas digo-vos já que é uma sensação muito estranha de que ainda não estou completa, e, por outro lado, a sensação de que nem mais um bebé iria trazer-me isso. 

Adoro ser mãe e gostava de ser mãe de mais uma pessoa. De aumentar a família e de aprendermos todos uns com os outros lições fantásticas, construir relações para a vida e de rir com mais e mais disparates. Sou muito visual e imagino as conversas à mesa, as viagens de carro, a cama cheia de gente de manhã, os abraços que não acabariam nunca, a paixão assolapada por mais uma pessoa, o crescimento pessoal de todos por contar com mais uma personalidade, mais uma forma de ver o mundo. 



Somos uma família de quatro e somos felizes, sabem? Se por um lado não vejo forma de isto melhorar muito mais, por outro tenho aqui umas hormonas malucas a quererem procriar e trazer ao mundo mais amor. 

É vício? Se calhar é.



4.17.2019

O que fazem a tantas amêndoas e ovos da Páscoa?

Já tive uma postura mais fundamentalista (ou consciente, vai depender sempre de quem lê isto e do que pensa sobre estas questões) quanto a ovos de chocolate e amêndoas de chocolate nesta altura do ano.

Quando a Isabel tinha dois anos acabadinhos de fazer eu não achava bem dar-lhe ovos da Páscoa. Escrevi este post: Cá em casa não há ovos de chocolate e ponto. Sinceramente, acho que estava certa. Nenhuma criança, com dois anos, precisa de se encher de doces, ainda para mais não pedindo, nem sentindo falta. Quanto mais tarde, melhor.

Mas - adoro usar adversativas - com a segunda filha não consegui estender tanto tempo o período de isolamento (estou a usar esta expressão com um toque de humor, ok?, calma), uma vez que a mais velha já dava as suas "facadinhas" em doces. No entanto, a Luísa não gosta de coisas muitoooo doces e há chocolates que não consegue mesmo comer e deita fora, por exemplo. 

Ora bem, não me preocupa minimamente que comam um chocolate de quando em vez e quem diz chocolate diz gelado, diz sobremesa, diz doces no geral. No outro dia, comprei-lhes os gelados (de congelador) que cada uma quis, sem olhar a rótulos. Estão ali praticamente cheios ainda porque sabem que não se pode comer todos os dias. Nem pedem. Acredito muito na lei da compensação e se fizerem todos os dias uma alimentação saudável, acho que há espaço para uns doces de vez em quando. 

Adorei que a vizinha lhes tivesse dado ovinhos e até fiquei comovida com o gesto (que amor, que generosidade), mas depois a juntar aos que receberam dos avós e dos que ainda vão receber da família, já começa a roçar ali a dor de barriga de 138 horas (e se fosse só isso). 

Posto isto, nada de errado em se oferecer (todos o fazem com boa intenção), mas eu tento controlar o que se come - não consigo fazer diferente. Aliás, até elas já percebem que têm de fazer essa gestão e sugeriram oferecer alguns às primas e dar uma caixinha à vizinha. Ficam umas negociadoras natas, as espertalhonas, também. E já sabem que nem todos os ovos da caça aos ovos são para comer (essa parte da brincadeira eu adoooooro).

Quero saber, o que fazem a tantas amêndoas e ovos? Guardam muito tempo numa gaveta (eu preferia não os ter por perto para não os devorar, se é que me entendem...)? Dão a outras pessoas? Instituições? Não sei, fico perdida. :)




P.S. há receitas para amêndoas caseiras bem boas [não encontro o post que já fiz sobre isso, paciência, mas basicamente levam a amêndoa, cacau derretido e mais qualquer coisa - será tâmaras?] - não vou fazer, mas fica a dica.

4.02.2019

Morte às palhinhas.

Vocês já sabem disto? Dei por mim a escrever sobre isto porque, no início (há dois anos, para aí), assim que li aqui na internet que as palhinhas entravam pelas narinas das tartarugas achei um pouco rebuscado, mas deixei de conseguir usar palhinhas. Comecei a interrogar-me sobre o motivo de usar e não consegui entender. A palhinha não serve para grande coisa, no geral, a não ser talvez nas pessoas com problemas motores, mas essas palhinhas também poderão não ser de plástico. 

Depois vi o vídeo. Não vou por aqui. O vídeo é muito triste, mesmo. Também vi vários documentários sobre a produção de leite de vaca em alguns sítios, fiquei mal disposta e vou poupar-vos a isso. Apelo apenas a que nos informemos quando tivermos disponibilidade. Claro que não é preciso que tomemos 2019 como missão e deixarmos de consumir tudo e mais alguma coisa mas, pelo menos, como em tudo o resto, fazermos escolhas mais conscientes. 

Entretanto e muito por causa do vídeo, muitas marcas começaram a dizer que vão abolir as palhinhas de plástico (há as de cartão, de bambú e outras... de certeza que já terão usado por aí), até porque são demasiado pequenas para serem apanhadas pelos equipamentos de reciclagem e não se biodegradam quando chegam ao oceano. Em vez disso dividem-se em partes mais pequenas apenas, os microplásticos que muitos animais acabam por confundir com comida...

Até existe o Dia Internacional Sem Palhinha. 


Depois, há quem diga que nos estamos a concentrar na parte mais insignificante do problema que as "palhinhas são apenas uma gota no oceano".


#teampalhinha ou #teamsempalhinha ?





3.27.2019

São desnecessárias as festas de aniversário com produção?

Depois de vos mostrar aqui no post da festa de aniversário da Irene como tudo aconteceu e como foi a festa, surgiram alguns comentários (todos válidos, claro) de como é desnecessário aos olhos dessas leitoras (e tantas outras que pensam o mesmo e que não comentaram) elaborar uma festa de aniversário infantil a esse ponto. 

Confesso que, se não fosse blogger, se tivesse de pagar tudo do meu bolso, mesmo que combinado em família, preferia gastar o meu dinheiro noutras coisas. Reconheço que, apesar de muito bonito e de transformar um dia fantástico num dia de sonho "visualmente" (embora isto seja subjectivo, também) não conseguiria gastar o meu dinheiro em catering, decoração, planeamento, etc. Porém, se tivesse MUUUUUITO dinheiro, talvez não me custasse tanto e pensaria "why not?". Ninguém me obriga a que as festas da Irene sejam assim, mas as oportunidades são bastante fáceis para nós e, na verdade, é um descanso não ter que arrecadar com grandes custos no geral. 

As coisas mais bonitas são as mais simples, mas também acredito que não é só no dia de aniversário que se vivem. Ou até no dia da festa.

Olhem com muita festa ou pouca, a Irene enquanto se soprava o bolo chorava porque tinha feito uma ferida no dedo. :)

Tive imensa sorte de ter a Ana e a sócia da Party Office a tratarem de tudo o que era relativo à festa da Irene deste ano. Confesso que é algo que me deixa sempre algo ansiosa e desconfortável porque não quero ter a família toda cá em casa (pais divorciados, etc), não tenho casa para receber muitos miúdos e seus pais... Como é em Março nunca sei se vai chover ou se faz sol... Não me parece divertido para a Irene ir para um restaurante... 

Confesso que tenho preferido - porque posso - jogar pelo seguro e mais fácil. Talvez tenha habituado a Irene a um tipo de festa que poderá não ter para o ano, mas tudo se explica, tudo se enquadra e tudo pode ser um ensinamento, digo. 

Acho que, como em tanta coisa na vida, tudo depende de quem quer fazer, quando (fases da vida) e se os miúdos gostam e se os pais também e se os convidados também. 

É como tudo. Eu não compreendo as grandes cerimónias matrimoniais. Tanto que, a nível pessoal, gastei pouco mais de 100 euros no processo. Acho que até já gastei mais a divorciar-me, ahah. Quem puder, quem quiser, quem gostar... siga :) Não? 






3.18.2019

Não serão muitas prendas nas festas de aniversário?

Nunca na minha infância ou adolescência pensei vir a dizer isto, mas "são demasiadas prendas!". O ano passado, na festa da Irene, convidamos - não me lembro ao certo - várias crianças, talvez mais do que 20 e acabámos com um saco enorme de prendas (todas muito giras ou quase todas, ahah), mas que foram claramente um exagero. 

Claro que ja me passou pela ideia, à semelhança de várias iniciativas no facebook, dizer que, em vez das prendas, pedir dinheiro aos pais para uma causa ou instituição. Ainda para mais, o aniversário da Irene é num espaço muito bonito ligado a uma associação com uma causa muito bonita da qual falarei mais à frente. Honestamente, faltam-me os ovários (não literalmente) e creio que a Irene é muito nova ainda para compreender a diferença entre ela e as outras crianças suas amigas que também receberão presentes. Um dia, talvez, caminhe para aí. 

Para já, não. E compreendo que se leve uma prenda para o aniversariante nos aniversários. Faço parte disso. Costumo oferecer livros, acho que é uma prenda que ocupa pouco espaço, que é bonita, que dura para sempre (dependendo da idade do aniversariante porque ainda me lembro da Irene babar desalmadamente tudo o que era papel ou... tudo no geral, até) e que poderá proporcionar bons momentos em família ou até a sós. Não há mal nos livros, a não ser talvez o de serem em papel (epá, estou tão cansada de vivermos nesta época em que estamos conscientes de tanta coisa, vamos acabar por oferecer frasquinhos de bambú com ar da praia lá dentro à malta, caramba). 



Uma vez, na escola anterior da Irene, não sei se era pelos pais falarem mais entre si (já não me recordo bem), tomou-se a iniciativa de, em vez de oferecer pequenas lembranças à educadora, dos pais se unirem todos e de, em conjunto, darem algo à mesma. Claro que é o oposto da lembrança singular, amorosa dos alunos, não sei bem o que pensar disso, mas transponho essa situação para o aniversário dos miúdos. 

Seria mais giro e produtivo os amigos convidados juntarem-se e, em vez de várias prendas pequeninas, contribuírem para uma boa prenda grande? Digamos: uma bicicleta, por exemplo. Uma (se ainda estivéssemos nos anos 90) aparelhagem. A roupa toda que ele precise para a nova sessão Primavera/Verão só para a mãe não ter que ir à falência só de pensar nisso. 

Será muito fora? Acho que seria um bom movimento. #menosémais será? Uma boa bicicleta (compre uma o ano passado para a Irene, das baratuchas e saiu um valente cocó) deverá custar 100 euros, imaginemos. São precisas 20 pessoas que contribuam com 5 euros para comprar uma prenda de 100 euros. 

Acho que assim até será mais emocional lembrar-se das prendas de aniversário. "Olha, foi na festa do 5º aniversário que recebi a bicicleta". Em vez de ter que se lembrar das Barbies, dos Cães de peluche, etc., etc. 

Claro que se perde o lado de ter sido a melhor amiga a dar a prenda x, mas a melhor amiga poderá acrescentar uma prenda feita por si, um desenho, não sei.

Estou muito distante de uma realidade? O que acham disto? E quem deve propô-lo? A mãe? Ou parece "aproveitador" sugerir isto? Confesso que como mãe que também tem de comprar prendas, parece simplificar muito mais a vida aos pais, digo eu... 

Não há é "muitas prendas grandes" que eles queiram, não é?

Querem pensar comigo? 




3.07.2019

O que os nossos filhos serão é o que lhes dissermos.

E mostrarmos. Que nada ou quase nada se resume apenas ao verbal. Nós funcionamos, na minha opinião, tendo como referência as pessoas mais próximas de nós e as mais marcantes que, em princípio, serão os pais ou quem terá exercido essa função. 

Eles funcionam como uma lente do mundo que nos é passada (não só geneticamente), mas em tudo o resto ao longo da vida, especialmente nos primeiros anos de vida. 

São importantes e fulcrais os rótulos que nos põem, mesmo que sem querer. São rótulos que podem durar anos e anos e que, sem consciência disso - até porque as palavra dos pais, para nós, até muito tarde, são a verdade - poderão limitar a vida e, acima de tudo, a percepção que os "filhos" têm de si. 


Concretizando: se estiver constantemente a dizer à Irene que ela é desastrada, que não tem jeito com as mãos, o mais provável é que ela venha a interiorizar o que eu disse e que não desenvolva essa capacidade por assumir o rótulo que lhe dei - injustamente já que tendo 4 anos, é natural que ainda esteja a desenvolver muitas aptidões, principalmente as que exigem minúcia. 

Isso dos rótulos, um dia a ver se me alongo. No outro dia apercebi-me que, por sempre querer ter um namorado (sentia-me sempre muito sozinha e pouco gostada) fui alvo de rótulos atrás de rótulos, tão cedo quanto aos 10 anos. A ver se um dia refletimos todas sobre isso e no que podemos fazer para que a geração dos nossos filhos não sofra tanto e não faça sofrer tanto os outros e tão cedo.

Isso começa antes. Aquilo que lhes dizemos que eles são e que lhes mostramos que eles são para nós. Actos, palavras e vá, não omissões. Não digo para andarmos sempre hiper mega ultra conscientes de tudo o que dizemos e fazemos, mas sim, termos uma noção geral presente de que estamos a moldar e a construir não só um ser humano, mas a percepção que ele terá de si próprio e dos outros também. 

A Irene não é desastrada, ela tem quatro anos. 

Ela não é teimosa, ela quer muito algo.

Ela não é mentirosa, está a aprender a lidar com as ferramentas que nos fazem ter aquilo que achamos que precisamos. 

Ela não é birrenta para ir dormir, ela provavelmente já estará a ir para a cama fora da hora dela e todos nós, privados de sono, somos insuportáveis, principalmente se alguém estiver a dar-nos ordens. 

O primeiro instinto, o mais básico, é rotular os outros. Até os nossos filhos, tal como nós fomos rotulados. O próximo passo, difícil já que temos tanto para fazer, resolver e assegurar, é ganhar tempo a tentar perceber se tal será justo e não poderemos estar a ser parte do problema. 


"Não tens jeitinho nenhum para desenhar, dá cá que eu faço isso". 

Uma das coisas que mais gostei de aprender até hoje é que, com treino, todos melhoramos em princípio a nossa aptidão para fazer algo. Até a desenhar, cantar, escrever, saltar, correr... tudo. 

Os rótulos são uma preguicite nossa, uma defesa nossa para nos sentirmos melhores connosco, mas não é necessário que seja à custa dos outros e até dos nossos filhos. 

Não é só o não dizer. É ver. Compreender. Aceitar. Ensinar. Abraçar e... muito importante: olhar nos olhos. 

Lembro-me que o momento que mais me marcou até agora de ser mãe da Irene foi quando uma vez, a primeira vez, trocamos olhares e estavamos completamente focadas uma na outra. Esta sintonia além de trazer serotina para a família (sempre vantajosa a milhares de níveis) faz com que surja a "auto-estima" nos nossos filhos.

"Auto" não por ter sido automática mas de "estima por si". E nós somos os primeiros (mães e pais e familiares próximos) a sermos os olhos daquilo que eles são e daquilo em que eles acreditam que poderão vir a ser. 

Hoje não consigo porque só dormi 4 horas (fui actuar à Universidade de Aveiro ontem e voltei hoje de comboio, estou de rastos - espero que este post esteja a fazer sentido), mas a ver se um dia fazemos todas o exercício de pensar quem queremos que os nossos filhos sejam e de vermos aquilo em que podemos ser úteis, além das funções básicas de assegurar a alimentação, segurança e afecto. 

Eu quero que a Irene tenha muita confiança em si e que seja compreensiva e empática, para também ser consigo mesma. 

E vocês?

Conseguem pensar que parte daquilo que vocês acham que vocês são foi transmitida pelos vossos pais? Que rótulos? Que orgulhos? :)

Acho que fritei os 2 minutos de cérebro que me restavam para hoje, mas fica aqui a intenção. É o que está na minha cabeça desde ontem, no espectáculo (e conversa) em que se falou de Tabus... 





2.18.2019

Quero a minha mãe!

Opá, eu sou das que não gosta de pedir ajuda, que gosta de se imaginar toda independente e toda survivor mode. Quer dizer, não sei se gosto, se é aquilo a que me habituei. Seja como for, há coisas que mesmo com 30 e tal anos (quase 33, que horror) devia ser a nossa mãe a tratar. Não estamos preparadas emocionalmente para isto.

Tive que ir tirar o siso. Demorei só 6 anos até ir tirar. Porquê? Porque não tinha ninguém que me obrigasse. Então, claro que fui protelando. E posso dizer que, se nunca parece um bom dia para tirar o siso, agora aos 32, tendo de tomar conta de uma filha de 4 anos e com duas reuniões importantíssimas amanhã (vêm aí novidades por aquiiii), não é o melhor timing. 

Na semana a seguir começo a gravar o programa que vou ter com uma pessoaaaa (que ainda não vou relevar) para o canal Maluco Beleza do Unas (viram-no no Lip Sync?) e, por isso, não me posso dar ao luxo de parecer um esquilito inflamado, vá.

Isto também me fez reflectir sobre outra coisa que aconteceu ontem à noite. A Irene estava a falar do quanto ela costuma acordar irritadiça e que é por culpa dela. E eu tive que lhe explicar que é por não dormir o suficiente. Que pela maior parte dos miúdos da sala dela não precisarem de sesta que já não há essa rotina. E ela disse que, então, era por ela não querer dormir a sesta que acordava irritada. 

Expliquei-lhe que sou eu quem manda. Que independentemente do que ela querer, quem decide se ela faz a sesta ou não sou eu e que, por isso, além de ser expectável que acorde irritada quando dorme pouco, de certeza que não é da sua responsabilidade. 

Senti o alívio dela. 

Ela que aproveite em quanto tem quem mande nela, não é?

Já agora, ficam aqui com a maneira mais parva que arranjei de segurar o gelo para vos escrever este post. 



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1.26.2019

É um alívio, não é?

Já repararam que, por mais que sintamos que estamos a fracassar quando eles “não nos respeitam”, “nos desafiam” e até dizem que não gostam de nós (já me aconteceu...),  a verdade é que quando eles brincam uns com os outros ou até com bonecos, usam as nossas expressões, distribuem o nosso amor e são extremamente meigos e até empáticos? Fica lá qualquer coisa! Fica lá muito do bom que lhes damos!

É inevitável irmo-nos questionando se estamos a fazer as coisas certas, se têm de nós o suficiente ou até se os “nãos” que lhes dizemos serão suficientes ou demasiados. Se somos bons pais. Se eles, quando nos parecem virados do avesso ou até mesmo ingratos (quando sentimos que demos tudo o que tínhamos e não fomos reconhecidos), serão bons filhos ou se vão ser boas pessoas. 

Mas depois, nesses momentos, em que lhes vemos o olhar brilhante, o sorriso, a voz querida, quando nos desarmam, quando o nosso coração explode de amor, percebemos que esse amor está a chegar lá. Que eles serão o que tiverem de ser mas que levarão algo de bom com eles. E que, em parte, contribuímos para isso. Que alívio.


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1.10.2019

É horrível fazer cócegas?

Ahhhh... aqui estão as bloggers a lançar mais um tema que poderá parecer tão imbecil quanto o forçar violentamente (de forma física ou não) a dar beijinhos aos avós ou a quem quer que seja. Porém, tem o seu sentido e, mais do que chegarmos a um consenso, aqui o ideal é apenas parar-se 2 minutinhos (espero não me alongar muito que ninguém tem saudades de estar sentado numa secretária a olhar para alguém falar durante 45 minutos ou 90) para termos noção de qual é a nossa opinião sobre o assunto, pondo-nos no lugar das crianças. 



Por que temos cócegas? 

Os cientistas ainda não chegaram a conclusões consensuais (haverá conclusões científicas se não forem consensuais?), mas existem várias escolas de pensamento no que toca a esta pergunta. 

Há quem diga que as cócegas são um mecanismo de defesa para mostrar submissão ao toque e, portanto para, no caso de contacto próximo com o intuito de haver uma luta, encorajar a mudança da dinâmica, alijeirando o ambiente(giro e interessante, sabe-se lá como eram as coisas há milhares de anos quando éramos peludas também na barriga toda?). Ou seja, se um macaco se aproximasse de nós para lutar e nos fizesse cócegas e nos rissemos, a luta provavelmente acabaria ou não começaria, foi o que percebi. 


Por outro lado - e esta já tinha ouvido - as cócegas podem servir para aproximar as pessoas (que já devem estar próximas o suficiente para conseguirem fazê-las, digo). 

Apesar de ainda não terem chegado a um consenso, os cientistas sabem que fazer cócegas estimula o hipotálamo - região do cérebro ligada ao controlo das emoções, ao prazer sexual e que também controla a temperatura corporal, a fome, a sede e os ritmos circadianos (sono). 

Quando nos rimos quando nos estão a fazer cócegas (não me lembro da última vez que estive numa situação desse género, ahah) pode não ser porque nos estejamos a divertir, mas sim por resposta automática do nosso corpo. 


As crianças gostam de cócegas? 


Depende. A Irene, por exemplo (minha filha), odeia cócegas. Prefere lutas. Não gosta mesmo nada e pede até encarecidamente que, de vez em quando, se relembre alguns familiares para que não lhe façam cócegas de tanto que não gosta. 

A Isabel, da Joana Paixão Brás, não só adora cócegas como provoca situações para que passem a existir. Chama pelo monstro das cócegas e adora rir-se com os pais enquanto acontecem. 

Por que não fazer cócegas? 

Isto surgiu porque comprei um workbook de parentalidade (já cito ali em baixo) para o qual ainda não tive tempo de olhar - e, ao folheá-lo parei logo na página que tinha um quadrado informativo "Why not tickle?". 

Até com este testemunho (tradução livre): 

"O meu pai costumava fazer-me cócegas quando era pequena. Eu sei que era a maneira que ele tinha de se aproximar de mim, mas odiava sentir que não tinha qualquer controlo no momento. A parte estranha era que eu ria tanto que eu nem conseguia gritar para que parasse. Isto fez com que o meu pai pensasse que eu estava a gostar quando, na verdade, me sentia entre a espada e a parede e odiava."
 Mari, mãe de uma criança de 4 anos e de um bebé de um ano. 


Ao que parece, segundo esse livro, há a possibilidade da criança sentir-se desprotegida, o que pode criar ansiedade. A resposta psicológica às cócegas parece envolver uma parte diferente do cérebro daquela que usamos quando nos rimos (que é mais uma espécie de alívio de tensão, tal como acontece quando uma criança prefere brincar "às lutas"). 

A autora afirma que o que ouve da maior parte dos pais quando começam a fazer outro tipo de brincadeiras que aliviem a tensão (como "as lutas", a autora utiliza o termo "roughhousing"), as crianças deixam de pedir cócegas. Quando uma criança pede cócegas pode ser porque provavelmente percebeu e aprendeu que é uma óptima maneira de se rirem juntos. Porém, a manter a brincadeira, segundo a autora, poder-se-á experimentar as "cócegas aéreas" em que apenas ameaçamos fazer cócegas, o que provocará riso na mesma e aliviará a tensão. 

No caso da Irene, nem por isso a deixaria muito confortável, mas é uma brincadeira que já aceita bem melhor. 


O que fazer? 

Como mãe (e como cantora pimba que um dia irei experimentar) acho que passa por observarmos as reacções dos nossos filhos quando a brincadeira surge. Se pedirem a brincadeira, também valerá a pena perceber porquê e ir variando a mesma, digo. 

Duvido muito que haja muitos pais e mães a fazerem cócegas contra a vontade dos filhos mas, nestas coisas, nunca se sabe. E escrevo este artigo com o intuito que chegue a mais pessoas que não apenas os pais para despertar a consciência de estarmos mais atentos à reciprocidade ou não neste tipo de brincadeiras. As crianças são pequeninas e fofinhas mas isso não quer dizer que possamos tocar-lhes e fazer o que quisermos com o corpo delas, mesmo em "brincadeiras".


O que acham vocês? 

12.07.2018

Pai obriga filha a ir a pé para a escola por ter praticado bullying.

Já viram aquela "notícia" do pai que, pela filha ter sido bully e, portanto, suspensa do autocarro da escola, embora em intencionado, a obrigou a fazer o caminho a pé para a escola? Está aqui no Notícias ao Minuto, se quiserem ler e ver (o vídeo...). 

Não há qualquer dúvida que o pai está a agir como acha melhor. Que não julga nem sente estar a prejudicar a filha de alguma forma e que, ainda para mais, está a contribuir para um mundo onde o bullying um dia possa não ser um assunto por estes motivos. Agiu e de acordo consigo mesmo. Não há julgamento aí. Todos temos de tomar decisões difíceis baseadas no que sentimos e pensamos e todos corremos o risco de não serem as melhores... mas ninguém é perfeito. 

Não quer isso dizer que estes casos não sirvam para discussão e talvez para uma evolução conjunta. Tal como ainda ontem propus com o post do "A mãe vai andando..."

O pai está a fazer tudo certo de acordo com as suas premissas, mas o que é o bullying? Na prática, são actos de violência física ou psicológica constantes e intencionais. É o que diz a wikipédia.  Importante discutir aqui a "intencionalidade" da coisa, porém. É intencional, mas não consciente, tal como provavelmente esta medida do pai. 

Sem ser na prática, o bullying certamente virá de alguém que tem uma imensa necessidade de se sentir aprovado pelos outros (todos precisamos). Aquela criança está a demonstrá-lo de uma forma socialmente inaceitável e magoando e traumatizando o outro. Está a ser bully. 

Sendo este alguém (o bully) uma criança, há a possibilidade de estar a imitar um comportamento que já tenham tido consigo ou que seja repetido no seu ambiente. Um pai com este grau de determinação e de firmeza já poderá ter tido atitudes, por exemplo, que tenham feito com que a criança se tenha sentido maltratada psicologicamente sem que ele se tenha apercebido. Este poderá ser um deles. 


Este "walk of shame" até à escola, à vista do seu pai (cálculo que maioritarimente por questões de segurança da filha), não deixa de ser, em si mesmo, um acto de bullying (isolado, já que não tenho conhecimento da relação entre eles). O pai que, como reparámos, é extremamente sensível ao bullying (poderia ser interessante divagar sobre os porquês), decidiu aplicar uma medida muito recta com a filha. Esta, ao frio, porque foi bully pela 2ª vez e suspensa do autocarro da escola, vai a pé até à mesma, durante 5 miles - 8 kilómetros. Vamos acreditar que, algures a meio, a atitude do pai terá mudado e que os dois terão conversado sobre o assunto, feito "as pazes" e o pai a terá levado à escola ou, pelo menos dado uma valente boleia a mais de metade do caminho... Não sabemos. 

Não deixa de ser bullying. Não intencional, mas bullying. 

A criança aprende toda uma linguagem de "seguir o que pensa que está certo" sem olhar a contextos e forma. Ou, ainda, através da tristeza e da raiva reprimida ou lidar com este tipo de autoridade e de disciplina, poderá ter que a deixar "sair" quando se sente perto de alguém que não a fará sentir-se insegura: os mais novos da turma, os mais pequenos no autocarro ou até alguém que já a tenha provocado antes mas de quem se consiga defender. 

Aprender a lidar com a raiva, com a frustração, tristeza e com a mágoa é crucial. À semelhança de qualquer coisa que introduzamos no nosso corpo, terá que sair. Ao nos agarrarmos a esses sentimentos ou ao não sabermos trabalhá-los, ficam em nós e depois saem de forma descontrolada: discutindo mecanicamente com os nossos parceiros, falta de tolerância no geral, pessimismo e violência psicológica ou física. Creio que todos ou quase todos seremos bullies nos "piores" momentos da nossa vida. 

O que se passa com esta miúda? Qual será a sua história? E a do pai? E a do pai com o bullying? 

Seja como for, é verdade que, enquanto pais não somos santos, não deixamos de ser humanos a criarem humanos e, por isso, é impossível ter uma postura drunfada e sempre calma e consciente todo o tempo. Ainda para mais quando sentimos que o que estamos a fazer é aquilo que achamos que é o melhor não só para os nossos filhos, mas também para o mundo. 

É aqui onde entra a empatia e o auto-conhecimento. 

Já tendo percebido o que me ser bully, consigo empatizar com outros bullies e perceber que algo de errado se passa ou já se passou com eles. Já tendo sido alvo de bullying também percebo e sinto as consequências de se ser a vítima óbvia numa situação desse género. 

Gostaria muito de saber que o pai, além desta consequência que lhe terá aplicado com os argumentos que sentiu necessidade de expôr (talvez também para ter aprovação alheia por algo intuitivamente lhe cheirar a esturro), também terá tentado perceber o que se passa com a sua filha e tentar ensinar-lhe ou proporcionar-lhe a oportunidade de aprender ferramentas para gerir as suas emoções ou, até, garantir que estará a ter o máximo de apoio que precisa da família, amigos e, se necessário, de um profissional. 

Os comentários a esta notícia deixam-me com o coração apertado por todas as crianças cujos comportamentos serão visto como desafiantes e não como uma incapacidade óbvia de expressar o que sentem e o que precisam. 

Tenho as minhas dúvidas que a filha tenha aprendido com esta "lição" alguma coisa que a ajude a lidar com o que sente. Talvez o medo de ir novamente a pé para a escola a motive a deixar de agir desta forma e neste contexto, mas outro comportamento irá surgir e talvez ainda menos óbvio para os adultos conseguirem ajudá-la já para não mencionar que poderá também vir a ser mais perigoso.


12.06.2018

"A mãe vai andando!"

Para muitas de vocês que acompanham o nosso blog, têm reparado que vamos reflectindo sobre coisas que vamos fazendo. Aquele pensamento que, geralmente, me surge depois de ter deitado a Irene, uma espécie de "processamento" do que aconteceu durante o tempo em que estive com ela, o que podia ter feito melhor ou que fiz bem, aproveito para escarrapachar aqui. 

Não só porque me habituei a pensar a escrever desde sempre, mas também porque muitas de vocês poderão ter as mesmas questões e ajudarmo-nos mutuamente. 

No outro dia, a meio de uma birra, utilizei o "olha, a mãe vai andando" e fui ameaçando sair de fininho do sítio onde ela estava. 

Na prática isto resulta, é só preciso passar o tempo suficiente para que o medo se apodere deles e venham ter connosco, venham ainda zangados, com medo ou o que seja. Mas será mesmo a melhor técnica? 

A Irene já verbalizou algumas vezes que tem medo que eu desapareça. Acho que, quando a disse a primeira vez ainda não tinha vindo de quem já sabia que a morte é uma realidade, mas sim de algo muito mais primitivo. Talvez também porque como o "pai saiu de casa, quem sabe se a mãe um dia não sairá também. 

Desde aí e sempre que consigo nos momentos que considero apropriados, vou sublinhando e mostrando à Irene que a mãe veio para ficar. Que nunca, nunca irá desaparecer. O ano passado, na escola dela, a frase que a educadora mais dizia e que eu repetia era "a mãe volta sempre" (o que é diferente de "a mãe vai andando").


Prefiro dizer que nunca fugirei, que nunca desaparecerei. As minhas ausências não têm que ser sentidas como tal mas como também uma nota do meu tipo de presença. Claro que há timings. 

Quando ela era bebé e se passava da cabeça só porque eu saia da sala ou o desespero total dela quando eu saia de casa para ir trabalhar... não é o timing perfeito para, verbalizando, mostrar-lhe o quer que seja, mas começa-se o trabalho por aí também. Pesquisei e li um pouco sobre ansiedade de separação nos bebés. 

Adormeço a Irene. Deito-me com ela na cama e abraço-a ou faço-lhe cafunés. E é um prazer imenso para ambas (foi um longo caminho até aqui da minha parte porque já desesperei horrores a adormecê-la, a ter fantasias de a abanar e de tudo o que tivesse à mão para que ela adormecesse quando EU queria). 

Quero mesmo que ela sinta que os pais (falarei sempre mais por mim) são estanques. Que não fogem. Que a amam incondicionalmente. E que - agora menos unânime - somos uma equipa. 

A nossa relação é algo de parte a parte. É, tento eu, de respeito mútuo. Aliás, nem é de tentar, é mesmo o que surge entre nós. Ela exige respeito, exige ser ouvida e sente-se brutalmente ofendida quando não a oiço ou quando me imponho à vontade dela. Ontem fez uma birra enorme porque não queria vestir as calças que lhe tinha vestido à socapa, enquanto ela estava distraída. Sentindo que isso era uma falta de reconhecimento da minha autoridade, insisti. Quando me acalmei - ainda para mais a Irene está doente e, por isso, tenho de lhe dar o desconto - percebi que as calças novas que lhe tinha comprado e que lhe ficavam maravilhosamente bem (a quem vê de fora) apertavam-lhe na barriga. Ela não gostava por isso, porque lhe apertavam na barriga. 

Claro que depois de ter tirado a etiqueta, fiquei furiosa, mas não vou obrigar a Irene a andar o dia inteiro a andar com calças apertadas na barriga pelos 12 euros que me custaram ou por me sentir insegura se ela respeita a minha autoridade ou não. Independentemente de como me sinta, existe o facto de: a miúda não se sente confortável com as calças. E isso tem de ser importante. Mais importante que 12 euros ou que o meu ego. 

Por tudo isto e pela nossa dinâmica, percebo que o que me leva a dizer "a mãe vai andando" é um acto de falta de paciência e da minha forma de fazer birra "Quero que ela venha, já, agora, sem ter que estar com merdas". Ainda para mais o argumento que estava a dar para não ir comigo era "Só vou se tiveres prendas!". Eu que nem a encho de prendas, enfim. Deixa-me ainda mais enervada. Apesar de já ter percebido por aqui que é uma fase. O materialismo será sempre mais apelativo às crianças, mesmo que tenhamos de educar para o resto. 

A Irene não tem feito sesta na escola. A Irene entrou para uma sala nova este ano com colegas mais velhas que, a fazerem o que têm de fazer, a têm feito sentir pequena. E a Irene, afinal, já estava a cozinhar uma gastroenterite. E eu, perante a situação e a minha ignorância momentânea (e também tenho os meus motivos para ser menos paciente e compreensiva) fingi que me ia embora sem ela. 

Nem resultou, não esperei, talvez, o tempo suficiente.Talvez também pelo óptimo trabalho que tenho feito com ela em dizer-lhe que não fujo, mas não é a ferramenta certa. Isto de ser mãe, como todas sabemos, implica muito amor, muito sacrifício, tempo e... disponibilidade para nos pormos de cócoras e falarmos com eles, tentarmos ver o que é que eles nos querem dizer por trás daquela forma tão infantil (ahah, pois...) de manifestarem o que sentem. 

Essa responsabilidade é nossa. E de criarmos pessoas que um dia venham a reagir assim com os filhos e com os outros. Em vez de nos tornarmos todos bebés crescidos que cobram uns aos outros o que acham que precisam como precisam e não que se foquem na conversa que não se consegue ter. Temos que entender os outros antes que eles se entendam. 



Compaixão, empatia, amor, carinho, aceitação. 

No meu caso começa primeiro pela minha filha e, depois, vou conseguindo fazer comigo. Também temos que ser compreensivos connosco como somos com eles... Fica para um outro post, pode ser?