9.09.2020

Não vos devia contar isto...

E isto vai fazer com que uma centena de pessoas queira a minha cabeça, mas aviso-os já que não é grande coisa. Dá muito trabalho e não compensa. 

É um segredo. É um grande segredo. E fui avisada para não dar muito ênfase, mas não sei como. Faz parte da minha natureza querer partilhar as coisas boas (ou só partilhar, no geral) com as pessoas e isto é demasiado bom para ficar "só para mim". 

O meu pai, madrasta e irmão foram convidados há uns anos para passarem férias numa espécie de paraíso: o Burgau. E, desde aí, é impensável não passarem lá uns dias. Tem tudo o que querem e precisam, além de irem acompanhados de um dos casais que são seus melhores amigos. 

O meu pai torna-se uma pessoa diferente por lá. Enquanto que, no dia-a-dia, gosta mais de estar no seu cantinho, em frente ao computador, a corrigir exames ou a dar aulas, ali parece que vejo o meu pai dantes. Aquele que gosta muito de fazer rir toda a gente, sempre apressado para a coisa seguinte e o que mais se preocupa se estamos todos bem e se precisamos de alguma coisa. 

O meu irmão, de 14 anos, ali tem toda a liberdade do Mundo. É um sítio seguro, onde toda a gente se conhece e, por isso, pode ir da praia para casa e vice-versa sem qualquer problema e às horas que quiser. 

As pessoas tratam-se pelo seu nome próprio ou alcunha e é habitual haver um sorriso sempre que se cruzam porque não há outro modo de estar no Burgau, durante o Verão, que não o de calma e de satisfação. Há praia, bons restaurantes, amigos e cerveja. 

Quem vai ao Burgau conhece a Dona Conceição, quem gere o Hotel Burgau Turismo da Natureza. É uma senhora que dá muito nas vistas. Não por ter flipado e por se vestir de forma bizarra - de todo, mas porque usa aquilo que mais se vê ao longe: um sorriso. 


Ainda que em tempo de máscaras não tenha conseguido vê-lo [o sorriso da Dona Conceição], foi evidente desde o momento em que a Irene, o Miguel e eu chegámos ao hotel que sentimos que tínhamos chegado à nossa casa de família. Nunca foi meu hábito visitar a família por aí em Portugal - andamos demasiado presos nas nossas rotinas, talvez - mas acredito piamente que é esta a sensação: pousar as malas e sentir que estamos entregues. 

Entregámo-nos à Dona Conceição e ao seu staff neste hotel de 3 estrelas no meio do paraíso. Sendo-vos sincera, adoro luxo, adoro dormir em hotéis de 5 estrelas, mas ali não faria sentido outra coisa que não aquele ambiente simples e próximo (embora com as distâncias devidas, não sejam chatas). 

A chave do melhor quarto do hotel veio parar-nos à mão. Tínhamos uma varanda incrível sobre o Burgau em que, por tudo ser tão perto, quase que conseguia acenar à minha família de lá. Aliás, numa das suas saídas à noite, o Miguel e eu namorávamos na varanda e conseguimos metermo-nos com eles enquanto punham a chave na sua casa deste Verão. 



Quando chegámos ao quarto, reparámos que iamos poder dormir "todos juntos". Juntei a cama de casal à da Irene e ficou a parecer que tínhamos uma cama infinita. Onde, se fosse necessário, poderia dar-lhe a mão durante a noite enquanto tocava com os meus pés nos do meu namorado. Para quem está na minha situação, sabe que... é ter tudo ali, à mão (e ao pé). 

Os duches depois da praia eram fantásticos. Deu espaço para tomarmos as duas ao mesmo tempo. Tirarmos a areia de tudo o que é pele do nosso corpo (sim, aí também) e ficarmos as duas cheirosas (os três, mas o Miguel tomou depois, ahah) para irmos jantar em família. Todos os restaurantes onde fomos (que eram já ali) tinham uma carta criativa e serviram-nos como se fôssemos habitués. O que, na verdade, grande parte de nós era e a outra parte vai passar a ser. 




Hotel pequeno o da Dona Conceição, mas melhor assim. Quem procura a Natureza e família para férias não quer um resort porque sabe que o que é mais valioso está fora do hotel. Ainda que a piscina não tenha escapado aos mergulhos da Irene e aquele pequeno-almoço que a Dona Conceição e a equipa preparam diariamente tenha sofrido e muito com a nossa larica matinal. Desde panquecas, ovos mexidos, sumos e doces tradicionais... posso dizer que foi a muito custo que nos contivémos para guardar espaço para o almoço. 








O começo do dia, a forma, dita tanto de como irão ser as horas seguintes... Impossível acordar com birra ali, depois de dias de praia fantástica, jantares até às tantas, namoro na varanda e noites a sentir-me profundamente completa. Porém, todo o staff do Hotel Burgau Turismo da Natureza apesar de manter o profissionalismo necessário, faz-nos sentir em família. Recordo-nos de uma senhora muito simpática que até se veio despedir de nós pessoalmente quando soube que estávamos de partida. 

A maré, durante este Verão (minha primeira vez), quando está vazia dá espaço para que se caminhe imenso até se ter água pelos joelhos. A Irene delirou poder estar no mar tão à vontade e a brincar tanto com o tio e com o amigo novo, o Pedro. Chegou a dizer-me, no início "Gosto tanto dele que quero casar" - atenção, do rapaz que não o tio. Embora, no final, já dissesse "afinal ficamos só amigos porque ele não sabe seguir regras na piscina". 

Libertei-me das minhas ansiedades. Não houve horas. Principalmente no dia do banho nocturno. Ao que parece, todos os anos, no dia 29 de Agosto, os habitantes e visitantes do Burgau, vão tomar banho no mar à meia-noite. A Irene molhou os pézinhos e sentiu-se uma super heroína. Tenho a certeza de que esta memória vai ficar. E é para isso que trabalhamos, não é? Memórias. 









Lembro-me também de toda a viagem em que o Miguel e a Irene foram jogando a um jogo que inventámos. Em que ele lhe deu a sobremesa à boca enquanto ela pintava. Nas várias brincadeiras que eles tinham antes de adormecer e que me fizeram sentir que sou uma privilegiada imensa. Estou rodeada de pessoas que amo e que me amam de volta. E, vai-se a ver, muitas delas também gostam umas das outras. 


A Irene estava a meter gelo dentro das nossas camisolas ;)

Sentir de novo os mimos do meu pai, voltar a brincar e a abraçar a minha madrasta, meter-me com o meu irmão e ver a Irene, no meio disto tudo, a ser o carinho e a cola foi maravilhoso. Também foi giro apresentar o namorado à família, fiquei a achar que ele e o meu pai, noutra vida, seriam inseparáveis. Sim, sim... falarei disto nas consultas ;)

Visitem o Burgau, com respeito pelo segredo, pela natureza, pelo clima, pelas famílias e, acima de tudo, sorriam de volta à Dona Conceição (por enquanto, com os olhos). Sente-se quando quem trabalha o faz por gosto e por amor. E a Dona Conceição abraçou-nos diariamente ainda que sem poder. 


Podem seguir, que eu deixo ;) 

@hotelburgau

@mmikepires (é o rapaz que tem dona neste momento)




8.27.2020

Se me exponho demasiado por aqui?






Mais do que ter aqui um álbum de fotos - a que volto muitas vezes - de sorrisos e de viagens. Mais do que ser o meu diário, de desabafos, dúvidas existenciais e parvoíces. 

Comecei a perceber que a minha visibilidade - mesmo que numa escala muito micro - vai ajudando (rrr não gosto muito desta palavra neste contexto, mas escrevo à uma da manhã) alguém. Mas não “ajuda” em nada muito estruturado/estrutural. 


Não sou coach, não sou minimalista, não sou vegana, não tenho receitas, identifico-me com quase muito do que leio e pratico de disciplina positiva, mas não a domino, nem de perto nem de longe. No fundo, não sou especialista em NADA. Às vezes até me pergunto o que posso eu dar-vos que seja útil e que não seja só um exercício de autocontemplação, que às vezes se confunde muito com empoderamento, com segurança (na lógica “o espaço é meu, faço o que eu quiser”), mas que chega meio vazio? Ou meio cheio? Sei lá. 


Vou percebendo que é nas pequenas coisas. No que não é muito pensado. No que vai fluindo. Mas principalmente quando assumo. Os meus amores, mas também as minhas imperfeições, os meus defeitos, a minha incompletude, a procura por paz interior ou felicidade. A vida a acontecer. Já pensei que me exponho demasiado, mas, sinceramente nada de mal adveio dessa exposição. Ainda, pelo menos. Que eu notasse. 


Não vou usar a palavra “genuíno” nem “mulher real”, que já não se aguenta. Mas a “fórmula” para que este cantinho (rrrr outra) me dê prazer é 50% - não quero saber e 50% - isto faz-me bem e, não sei bem como, a algumas pessoas também. 


Recebi agora mesmo uma mensagem a dizer que com uma coisa que eu disse “fez-se luz” (as palavras não são minhas) e iniciou psicoterapia em janeiro. Ou a do pai de um miúdo gago a agradecer o meu vídeo sobre o tema (sou gaga para quem tiver chegado aqui agora). Da que, quando assumi que o meu casamento esteve de mal a pior, se sentiu menos culpada ou fracassada. Da que consegui “ajudar” na amamentação. Ou da que descobriu finalmente uma dentista de quem a filha confia (e venceu o “trauma”). Chegariam lá provavelmente sem mim, não me dou essa importância toda. Mas não finjo que não encontro aqui mais uma razão para continuar a “expôr-me”. Houve alturas em que senti que não compensava, estava a acusar a pressão. Agora sinto-me mais livre para escrever o que quero, quando quero, quando posso. Não só para picar o ponto. Mas para me beliscar. Para me emocionar. E às vezes só para me sentir “normal”. 


Para que fique aqui registado, para as minhas filhas e netos, se os houver, lerem: posso nunca vir a ser escritora, em páginas que se folheiam, nem jornalista, como um dia achei que viria a ser, ou até mesmo cantora, daquelas que, sem esforço, fazem com que os pelos dos braços se ericem. Mas as poucas palavras que escrevo e algumas das coisas que disse em voz alta significaram, um dia, alguma coisa para alguém. 



8.17.2020

"Agora gosto mais do pai", diz ela.

Não me interpretem mal! Fico muito contente!


Aliás, como vos tenho escrito aqui no blog, uma das maiores missões que temos como pais da Irene é manter o equilíbrio e o bom ambiente entre os dois. Não tem sido difícil. Aliás, até tem sido cada vez mais fácil. Ela é a nossa prioridade. 

Divorciámo-nos quando a Irene tinha 3 anos e, por isso, embora tenha ficado com tudo lá registado na cabeça, creio que imediatamente não terá muitas memórias de nós juntos. Na altura, talvez também por amamentar, a Irene era cega "por mim" (ou pelas minhas mamas, vá) e eu não tinha nem um segundo de descanso. 

E assim foi até há 15 dias ou algo do género. Podemos pensar em mil motivos que fizeram com que a Irene finalmente ficasse louca pelo pai, mas provavelmente serão todos ao mesmo tempo ou até nenhum. "De repente" começou a dizer-me que queria ficar mais dias com o pai, que tinha muitas saudades dele e até a pedir para falar com ele antes de ir dormir convidando-o para vir cá a casa dar-lhe um beijinho no dia seguinte. 

É certo que o pai da Irene tem trabalhado muito, mas isso já aconteceu noutras vezes e o outcome não foi este. 

Também já reparei que noutras famílias, as que continuam a morar juntas, as crianças têm mais fases de mãe e pai. Que vão trocando. Esta é a primeira troca da Irene e, se querem saber, acho extremamente saudável e por várias razões, sendo que a principal é - na minha opinião - ela ter capacidade para verbalizar o que sente e sem vergonhas. 

"Agora gosto mais do pai", diz ela. 

Uma das coisas que tenho vindo a reparar com o tempo é que a Irene se tem comparado imenso a mim. Tudo o que ela faz tem de ser melhor do que o que faço e quer imitar-me em tudo. Faz parte ser o modelo "feminino" dela e também, digo eu, que lhe traga alguns dissabores por se comparar ao único ser humano que existe cá em casa. O pai traz-lhe sossego e aquele colinho de pai que todas nós, em princípio, adorámos e que nos fazia sentir as meninas dos olhos deles. 

Claro que tenho saudades de sentir a ligação umbilical que tinha com ela mas, também por isso, sinto-me perfeitamente segura que o amor chega para todos. Sei que temos uma relação muito sólida e que vamos ultrapassar o que for necessário juntas. Também sei que chega a hora de estabelecer o tal desmame (o das mamas já aconteceu há algum tempo) e a mãe poder ter espaço para si para a Irene também saber quem é. 

E agora é a Irene do pai. ;)

De quem são os vossos?

Claro que são dos dois... mas vocês percebem ;)

Já que estou a usar a imagem dele, sigam-no aqui ;)


Hoje, segunda-feira, a Joana Paixão Brás, no instagram d'a Mãe é que sabe vai conversar com a Ana da Dido&Co sobre estar grávida em plena pandemia e também sobre as causas que defende. Vai ser bom e às 21h30. 

Juntem-se a nós ;)



8.16.2020

Roteiro de 2 dias por Marvão e Castelo de Vide (e cascatas!)

Foram só dois dias. Uma noite. Precisávamos tanto de estar só os dois, que deixámos as miúdas com os avós em Évora e seguimos para o Alto Alentejo. A ideia era descansar, adormecer ao sol, dar uns mergulhos, provar comida boa e conhecer sítios novos. Assim foi. 

Deixo-vos o nosso roteiro para dois dias em Marvão e Castelo de Vide, com passagem por duas das cascatas da Serra de São Mamede. 


Cascata: Pego do Inferno


Como tínhamos marcado a noite num antigo convento perto de Castelo de Vide, parámos pelo caminho para fazer tempo até ao check-in. Primeiro na Cascata do Pego do Inferno, perto da localidade de Mosteiros. É relativamente fácil de encontrar (até porque vêem logo alguns carros na estrada) e menos de 5 min a descer. Adorámos! A água não é muito fria (até parece aquecida pelas rochas, na zona mais íngreme da cascata) e apanha-se bastante sol - ao contrário da outra que fomos conhecer. 
Começámos por baixo, pelo lago, onde dá para nadar, e subimos até ao ponto mais alto, com pequenas descidas que, como são escorregadias e polidas, são autênticos escorregas (pelo menos nas duas que experimentei) e piscinas com peixinhos e girinos. Espetacular. 



Como a barriga já dava horas, fomos almoçar ao Mil Homens, em Portagem, e comemos muito, muito bem (as meias doses são enormes e os senhores muito divertidos). Dizem que o restaurante Sever, mesmo ao lado, também é "bem bom". 

Passámos a tarde a namorar no Convento da Senhora Vitória (até parece pecado, dito assim ahah). Peçam ao Filipe que vos faça mojitos, que "são daqui". Ao final do dia, rumámos a Marvão, onde queríamos ver o pôr-do-sol e onde jantámos. Claro que, pelo caminho, há uma paragem obrigatória numa das estradas mais bonitas de Portugal, que liga Portagem a Marvão. Aqueles freixos com as riscas brancas são deslumbrantes e a paz naquele ramal é incrível (não gozem com o rabo no asfalto, vá). 



Marvão

Marvão é incrível. As casinhas brancas, as janelas e as portas, a vista interminável e a luz... a luz do fim do dia é mágica! Já estávamos a ficar atrasados para o jantar (no Varandas do Alentejo - onde fomos igualmente bem servidos. Muita atenção aos lagartinhos e às farófias), por isso não passámos lá o tempo que gostaríamos. É daquelas terras a que vai saber bem voltar, sem dúvida (e já lá tínhamos estado ambos).




Castelo de Vide 

Depois de jantar, fomos até Castelo de Vide, onde era a nossa casinha - daquelas bem antigas, remodeladas, com chão a ranger, esconderijos e janelas lindas (ficámos nas Espinhosas, que pertence ao mesmo convento onde passámos a tarde). Estas casas são mesmo no centro, praticamente ao lado da fonte da vila, da judiaria. Percorremos a pé, de mãos dadas, a vila, bebemos água na fonte, iluminada, e deixámo-nos conquistar por aquelas ruas. 




A subida ao castelo ficou para o dia seguinte, depois de uma manhã passada na piscina do convento, onde nos deixámos passar pelas brasas numa das camas situadas na relva, aproveitando a lanzeira do Alentejo. Já não me sentia tão relaxada há meses. 





Almoçámos uns petiscos num restaurante muito giro no centro, o Jerico, depois de uma grande caminhada pela vila.

Subir à Ermida N. Sra Da Penha 

Aproveitando o conselho do meu vizinho, o Sr. José, fomos até à Ermida da N. Sra. Da Penha, que é uma capelinha no cimo de um monte, na serra de São Paulo, construída no século XVI e com uma vista espetacular sobre Castelo de Vide (e de onde se consegue ver também Marvão). Vale a pena o esforço da subida da escadaria (e bem que precisávamos para “desmoer” o almoço). 





Cascata de S. Julião 

Última paragem antes de regressar às miúdas: Cascata de S. Julião, na localidade de Monte Sete, relativamente perto de Portalegre. Vimos corajosos com filhos pequenos a deslocarem-se até lá, nós agradecemos, de certa forma, não as ter levado. Ao contrário da primeira a que fomos, nesta custa bastante subir até ao carro, no final, e previmos muito colo e lágrimas.
No entanto, na mesma medida em que deve custar ir lá com crianças, deve ser uma daquelas experiências inesquecíveis para elas. É um sítio absolutamente idílico e apaixonante. 







Muitas árvores, faixes de luz sobre a água fresca (gelada, vá), rãs e libelinhas e um som constante da queda da água que transmite paz. Maravilhoso. Vejam este post muito bom do VagaMundos com mais dicas sobre as cascatas.

Ao descer depois a Serra de São Mamede, passámos por Portalegre e, se tivéssemos mais um dia, por ali teríamos ficado para conhecer melhor. Aliás, acho que numa semana chegava. Há muitas coisas giras para fazer por ali. Ficaram a faltar-nos as ruínas da Ammaia, fazer railbike no caminho de ferro entre Beirã e Marvão (deve ser tão giro), ir conhecer a Barragem da Apartadura, a praia fluvial do Rio Sever, em Portagem, ir a Nisa e ao Crato...

 
E que mais? Ficámos tão apaixonados por tudo o que vimos que queremos voltar!


7.16.2020

Ri-me mas depois fiquei a pensar...

“Tenho saudades de Miami”, disse esta amostra de gente, quando estávamos em casa, num dia destes. 



Claro que me parti a rir, para logo depois ficar a pensar sobre isto. É uma sensação maravilhosa saber que guardam memórias das nossas viagens, saber que gostam de conhecer o mundo e que o tempo em família é aquilo que mais as deixa felizes. 

Mas, por outro lado, pergunto-me se vão ter noção do privilégio que têm. 
Se vão conseguir continuar a dar valor às coisas mais simples. 
Se vão gostar de estar em casa, sem planos, e não exigir tanto da vida. 

Por isso, tinha planeado ficarmos por casa este fim-de-semana. Só que uma das melhores amigas, que tem casa de campo e piscina, acabou de nos convidar. É tentador, por todas as razões. Porque é tia delas e as adora. Porque a adoramos. Porque vamos poder refrescar-nos, vão correr e jogar à bola. Vamos conversar, rir, comer grelhados e brindar. Por que não? Porquê ficar neste T2 quente, sem ar condicionado? Ainda por cima depois dos meses por que passámos em que a liberdade era tão mais escassa. 
O que lhes/ me quero provar? 

Sim, a Luísa com 4 anos já viajou mais do que eu quando já tinha tinha carta e podia votar. Sim, já foram a mais hotéis do que eu quando já namorava.
Mas vou prescindir de tudo isto só porque tenho medo que se venham a tornar numas miúdas mimadas ou exigentes? 
Acho que consigo ensinar-lhes coisas importantes sem deixarmos de ter estes momentos bons em família. Acho que consigo,  no dia-a-dia, que se surpreendam com as coisas mais pequenas - aliás, as crianças são pródigas nisso: a ver mais além, a imaginar, a encontrar pormenores em coisas que nos escapam. Que se aborreçam com tédio, que é tão importante para criar. 
Espero conseguir passar-lhes uma dimensão do mundo, do esforço, das diferenças, de uma realidade que não se prenda no nosso umbigo. Sem perder a noção. Espero. 

Aproveitar, agradecer, dar valor... a tudo. 
Acho que é isto. Mas sei lá eu. 

7.09.2020

Fim-de-semana a 7 no Ohai Nazaré

No fim de semana passado, fomos matar saudades do OHAI Nazaré. O espaço é magnífico e tínhamos-nos divertido bastante da última vez que lá estivemos, há um ano. Desta vez, fomos sete (uiiii que a Joana Gama já nos apresentou o Mike!), ficámos em bungalows e pusemos três miúdas a dormir juntas! Bebemos uns gins no alpendre depois da tarefa hercúlea de as adormecer, conseguimos apanhar sol, desfrutar da natureza e fazer desporto (só alguns). 

Quem não tiver paciência para ler a nossa review, gravámos hoje mesmo em podcast e também está disponível em IGTV. ‘Tamos em todo o lado, ‘migas, já sabem. 

Enquanto a Joana Gama e o Mike "jogavam padel"  (jogavam mesmo, pusemos em aspas para efeitos ligeiramente humorísticos)

Assim que começámos a viver a experiência, percebemos que teríamos coisas boas e más a apontar e, como nos perguntaram no instagram várias coisas sobre o resort, decidimos desde cedo que iríamos apontar as coisas boas e as coisas más, para que possam ir de forma informada. 

Primeiro, aspecto geral: está ainda mais bonito, mais arranjado, tem imensas árvores, sombras e o ambiente é predominantemente calmo, familiar. As miúdas, então, adoram. Pinhas, piscina, escorregas de água, slide e parque infantil: paraíso. 

Os bungalows são bons, bem equipados e bem decorados: têm ar condicionado, boas dimensões. Nota máxima para a pressão da água do banho que, além de bem quentinha, é excelente. Acho que estamos sempre à espera que num parque de campismo seja tudo a conta-gotas, mas não. A casa de banho tem toalheiro daqueles que aquecem as toalhas e que ajudam a secar os fatos de banho. As camas são boas e os lençóis macios. A cozinha tem fogão, torradeira, microondas, frigorífico grande; pratos, taças, copos... tudo. Até detergente para lavar a louça. Tem vários armários nos quartos e, assim, parece que está tudo sempre arrumado. Gostamos disso. 

Contudo, ao contrário das tendas, onde estivemos no ano passado, não há muito espaço entre bungalows, estão muito colados. Às 23h já tínhamos um vizinho a espreitar à janela por estarmos a falar no alpendre. 



Devido aos tempos em que atravessamos, tiveram de limitar o número de pessoas no parque aquático. Ainda bem que tiveram essa preocupação, que é essencial, mas só podermos usar a piscina com marcação, em turnos de 2 horas por dia (momento em que desinfectam as espreguiçadeiras), é pouco. Domingo era o dia do nosso check out e, quando na véspera tentámos marcar, já não havia vaga das 10h-12h, o primeiro horário do dia. Pelo que o senhor  nadador salvador nos disse, já umas 50 pessoas tinham tentado marcar e teve de lhes dizer que não. Quando, no próprio dia, dissemos à Isabel, até chorou. Para as crianças, o parque aquático é o ponto alto do parque.
Parte boa que deriva desta: ir à descoberta de mais coisas para fazer. Convém programar o dia a contar com uma ida à praia e aproveitar para conhecer as da região, que são óptimas ou um passeio nas redondezas (adorámos São Pedro de Moel e também a Praia da Polvoeira), usar o parque infantil - que é enorme e muito giro, de madeirinha - e o slide, por exemplo. Para quem gosta de jogar padel (há uma de nós que adora, adivinhem qual), há campo. Também há de basquete e até ginásio (também funciona por marcação e bem). 










Os pequenos-almoços, apesar de serem com marcação e de distribuírem máscaras (ponto a favor), têm demasiada gente, em self service, numa fila que não respeita a distância de segurança. As pinças para por o pão na torradeira são as mesmas. Tocar no mesmo utensílio que muitas outras pessoas, sem que seja desinfectado, não nos deixou confortáveis. Uma solução que poderia ser implementada seria haver pinças de utilização única, que iam a lavar, sendo revezadas (ou um pinça por família durante toda a estadia - há um hotel a fazer isso - ou, ainda, ter alguém do staff responsável por essa função. Criámos um sistema de só ir um adulto por família buscar a comida para todos e tivemos pena de não saber que, afinal, dá para pedir o pequeno-almoço em takeaway. Não nos deram qualquer informação sobre isso. 


Adicionar legenda



A comida no buffet, regra geral, é boa (tirando um rosbife que era duro), com boas saladas e opções saborosas. Tivemos pena de não poder experimentar o restaurante para jantar (que fica no piso de cima e que tem muito bom ar), que estava cheio quando lá chegámos na sexta-feira.

Achamos que a comunicação entre as várias partes envolvidas não está a funcionar a 100%. Mais clareza e informação sobre os procedimentos, aquando das marcações, ajudaria a alinhar as expectativas às limitações, ainda que necessárias. 

Contudo, achamos que há grande margem para melhorar. O staff é muito disponível e simpático. O ambiente é acolhedor e extremamente bonito e bem cuidado e, acertados alguns pontos, tem tudo para satisfazer miúdos e pais. 
















Podem ouvir aqui, enquanto arrumam a casa ou conduzem:



Até breve, Ohai!  

7.07.2020

Foi a nossa primeira noite a sós fora de casa.

Hoje até usei o desodorizante dele porque sabia que ia ficar a morrer de saudades. Sabem o quanto o cheiro nos faz sentir em casa, não sabem? Quando gostamos, quando estamos apaixonadas, o cheiro da outra pessoa funciona melhor que a melhor vela da Rituals (são caras, pá!). Faz-nos sentir abraçadas. 

Foi a nossa primeira noite a sós fora de casa. O nosso primeiro mês de namoro. Foi precisamente há um mês que ele me pediu em namoro. Embora talvez hoje em dia já não pareça ser habitual, para mim, pedir em namoro é importante. É uma escolha, é o princípio oficial de um compromisso que vai além da química e das emoções. Assinala-se o respeito e a vontade de trabalhar em conjunto, de crescer individualmente, mas em dupla. Aceitei aos pulinhos, abraçada a ele - cheirando o desodorizante (não se preocupem que não é um post a vender um desodorizante) - e a tentar acalmar a cabeça, também ela aos pulos e cheia de pressa para viver tudo o resto. Sei que estou a viver um grande amor. 



Chegámos ao Dream Guincho e fomos só nós. No fim-de-semana imediatamente anterior tínhamos estado em família com a Joana Paixão Brás e com o David na Nazaré e, por isso, soube ainda melhor viver o silêncio, ainda que recheado da química que temos entre nós. É visível, é palpável e, se querem que vos diga, um simples toque mexe comigo. 

A menos de 30 minutos das nossas casas, senti que deixei para trás as preocupações. Deixei para trás o stress e também o peso de ser mãe. Ser mãe está cada vez mais entranhado em mim, no entanto, já não me sinto culpada por adorar não estar com ela, ainda para mais agora. Todos os momentos em que não estou com a minha filha servem para me dar alento e ainda mais amor para a encher de colo e beijinhos (como se ela me deixasse). 

Lá chegámos. Fomos recebidos pelo caseiro Sr. João. Ele é de Trás-os-Montes e confesso que nos fez sentir em casa. Toda a decoração é maravilhosa. Muitos livros espalhados por todo o lado, o que acredito que tenha aumentado o FOMO tanto a mim como ao Miguel, mas com a sensação de casa de férias com personalidade. Gosto muito de minimalismo, do estilo nórdico, mas nada se compara a um sítio que seja decorado de dentro para fora e não para parecer um catálogo. O Sr. João faz um bolo maravilhoso que nos ofereceu assim que chegámos, juntamente com um chá vindo de Macau. Tomámo-lo junto à piscina que tem uma vista fantástica sobre o mar enquanto, discretamente, rezava para que o Miguel não comesse as duas fatias dele. Mas comeu. Ofereceu. Eu disse que não uma vez (vá, tinha que ser), mas lá embuchou o bolo do Sr. João como gente crescida. 


Antes disso tínhamos estado estendidos nas espreguiçadeiras que estavam à nossa espera e bebemos uma limonada. Queríamos ler, queríamos continuar a conversar ou a inventar os jogos parvos que nos tinham surgido na praia, mas aquela vista impediu-nos disso. Fomos obrigados a sermos felizes e extremamente gratos não só por nos termos um ao outro, mas também por vivermos aqui, em Portugal. A praia do Muchaxo atingiu-me como um pontapé na boca quando cheguei. Caramba! Como é que passei anos a escolher praias por serem as mais perto de casa quando existe este paraíso apenas uns minutos mais longe daqui? Faz diferença. É a diferença entre comprar 10kgs de roupa na Primark ou uma peça de roupa incrível que vamos estimar e que nos assenta perfeitamente. 



Todos os oito quartos têm o nome de uma obra importante. Ficámos no da Menina do Mar de Sophia. Gosto muito de dormir fora de casa. Confesso que me adapto bem a sítios baratos e que me adapto ainda melhor a sítios bons (ahah). Contudo, quando estou num sítio bom, ligo o botão da esquisitice e fico mais atenta aos pormenores. Torno-me implicativa e perfeccionista e anseio por apontar defeitos a tudo e mais alguma coisa. Entre os beijos que fomos dando e os abraços, consegui reparar que as toalhas eram as toalhas que gostaria de ter em casa, que o duche pede para que se tomem banhos a dois e sem olhar tanto ao desperdício de água, que os roupões são tão confortáveis quanto dormir com os nossos pés a tocar nos dele... Iluminação perfeita, materiais naturais, mobílias que contam uma história e não a de faltar um parafuso para que se aguentem montadas mais de uma semana. Mais livros. Muitos livros. E tanto, mas tanto Miguel. 



Ficámos divididos entre ficar na piscina ou aproveitarmos a varanda do nosso quarto. Deslizámos para dentro dos roupões e ainda li um bocadinho da "Câmpanula de Vidro" que uma amiga (da qual tenho saudades, mas a vida têm destas coisas) me tinha recomendado. Tinha dito para ler quando estivesse bem. Três anos depois ou quatro, tal como prometido, comecei a lê-lo. E estava tão bem. O sol a pôr-se lá ao fundo a estender-se no mar, o céu a ficar com aquelas cores quentes como se fosse pintado a pastel e, ao meu lado, ele. Ele que me tem feito sonhar e que me tem feito viver o presente como se fosse um sonho. 



Fomos jantar. Vestiu uma camisa branca que contrastou com o bronze que tem de ser uma pessoa maravilhosa cheia de amigos e planos. Às vezes derreto, noutras tenho um ataque cardíaco e muito raramente acredito que isto me esteja a acontecer. Estou a ter o privilégio de conhecer, de criar e de viver a vida com alguém que é tão apaixonante por dentro como por fora. Olhar para ele e saber ouvir mesmo o que ele não diz, dizer tudo (até demais) o que não consigo evitar é uma dança que me faz circular o sangue, sem ser preciso abocanhar Daflons que nem uma doida. 

Jantámos em Cascais. Comemos tão bem. Parecíamos estar a festejar um ano de namoro, que espero festejar com o mesmo entusiasmo. Porém, o que sinto que festejámos foi o termo-nos encontrado e termos decidido deixar-nos entrar. Ainda que ambos tenhamos a nossa bagagem, arranjámos espaço. E, melhor, não a deitámos fora. Temo-la connosco. Honramo-la, não nos esquecemos dela e tornamo-la útil para amarmos melhor. 

Voltámos ao Dream Guincho. Pusémos o código na porta. Tudo silencioso. Sentímos que a casa era nossa, só para nós. Assim como aquela lua cheia a reflectir na piscina. O som dos aspersores da relva e, com atenção, lá ao longe, ainda conseguíamos ouvir as ondas. Subimos até ao Menina do Mar e instalamo-nos na varanda a ouvir música baixinho.  Fechei os olhos e encostei a cabeça para trás, isto com as pernas esticadas em cima de uma mesinha, a brilharem com a luz da lua e com o roupão um pouco acima dos joelhos. Não sei quanto tempo estive de olhos fechados, talvez duas músicas. Abri-os com saudades de o ver. Ele olhava para mim. Sorrimos com os olhos. E soubémos, mais uma vez, que é precisamente o nosso timing. Fez tudo sentido até aqui. Tudo de bom, tudo o que aprendemos e tudo o que somos faz com que encaixemos assim. 



Tínhamos os cortinados abertos da janela gigante do quarto. Entrava aquele ar puro pelo Meina do Mar adentro. Dormímos com aquele momento parado no tempo nas nossas cabeças, sabendo que iríamos acordar ali naquele local que parece um cenário perfeito para o que nos tem atravessado. 

Descemos e tomámos o pequeno almoço preparado pelo Sr. João e pela Dona Zulmira (tem uns olhos encantadores).  A loiça tem personalidade também. Ao mesmo tempo que nos sentimos em casa, também nos sentimos parte de uma casa que recebe só os amigos mais próximos. A monotonia, a simetria e mais outros conceitos matematicamente agradáveis são postos de parte, optando pelo carinho e pela história. Bebemos chá e comemos iogurte grego com pedacinhos de ananás. Ainda fomos às torradas com manteiga e queijo, pedímos uns ovos com salsa e estávamos prontos para mais um dia na piscina. Mas e aquele quarto? E aquela varanda? E aqueles robes? Optámos por ir para a varanda e fazer uma das coisas que sabemos fazer melhor. Calma. Mesmo que o tivesse feito não vos diria. ;) Fomos gravar uns vídeos para o meu instagram a contar os jogos imbecis que tínhamos inventado na praia no dia anterior. Nunca tive um namorado ou namorada que fosse tão pateta quanto eu e que não se importasse de aparecer. Acreditem quando digo que vou tirar o melhor partido possível disto, ainda que ele possa acabar comigo para a semana que vem. 



Conseguímos ir à piscina, antes que fosse buscar a Irene. Bricámos aos desfiles (aconteceu, sim) e aos mergulhos da malta que arregaça os calções até às virilhas. Talvez um dia o Miguel publique no instagram dele. Despedimo-nos do Sr. João e da Dona Zulmira e ficámos com vontade de celebrar ali todos os nossos meses ou, até, numa outra vida, todos os nossos dias. 

Esqueci-me de vos dizer que conhecemos a criadora do Dream Guincho e que foi exactamente o que esperava depois de conhecer o espaço que preparou com tanto carinho. Uma mulher com visão e, acima de tudo, quem quer proporcionar paz a quem a procure e respeite. É disto que se trata ali: calma, paz e sentir que a vida é o que quisermos fazer dela.

Agora que já cá estou em casa, depois da Irene ter entornado - sem querer - o prato da sopa no chão, sinto que foi tudo um sonho. O que vale é que tenho estas fotografias para voltar sempre que quiser. 

Tenho uma sorte enorme de ter espaço em mim para todas as eus que existem, sendo que todas elas amam amar e que o aprenderam com a Irene, mon cœur.

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