11.16.2020

Descosi-me toda.

Ai, nem sei como me saiu a coragem para isto. Deve ter sido o ego de ter sido convidada para escrever um livro. Quando isso acontece, quase que não se olha a mais nada, pelo menos nesta fase da minha carreira. Estou a começar e, por isso, convites vindos de sítios que me impressionem são praticamente um sim imediato. 

A ideia, confesso, que já a tinha. Tenho mais umas quantas, mas para as quais ainda me faltam alguma confiança, visto que não me vejo como “escritora”. Admiro muito os escritores e, enfim, toda a literatura no geral. 

A minha ideia para este livro “Alguém que me cale - As entranhas de quem tem tanto medo que já nem se assusta” veio de um caminho que tenho vindo a percorrer: aceitar-me tal como sou, ainda que tenha algo a “perder” com isso. 

Comecei por trabalhar numa empresa em que, apesar de não haver um espartilhamento óbvio, havia um peso institucional gigante e que me limitava (e, por um lado, ainda bem) muito a nível criativo e humorístico. Encontrei no stand-up uma fuga rápida para isso. No palco, se ninguém filmasse (ainda bem que não era moda há uns 10 anos), tinha a liberdade que queria ter - toda a do Mundo - e sem correr o risco que no dia seguinte viesse a interpretar todos os “bons dias” dos meus colegas da empresa como um julgamento. 


Alguma vez poria uma fotografia minha a fumar no instagram? 
Jamais!


Depois de sair da empresa, comecei um projecto com a Rita Camarneiro, o “Banana-Papaia”. É um videocast onde nós as duas somos uma versão nossa empolada com o intuito de fazer humor. Dizemos o que pensamos e, muitas vezes, o que não pensamos para deixar clara uma visão satírica dos assuntos. Tive de fazer a escolha de saber que não estava a seguir o caminho que mais impressionaria os meus pais e que, provavelmente, me iria afastar de instituições e empresas como aquelas onde já trabalhei. 

Mas pensei: vou esperar que os meus pais morram para fazer o que me apetece? Vou continuar a espartilhar-me para ter trabalhos que não se ajustem 100% comigo? 

Decidi que não. 

E consciente de quase todas as consequências inerentes a essa decisão. Foi ponderado. Um pouco como “sair do armário”. Pensei que, quem me amar por aquilo que sou (que frase mais bimba, bem sei), irá conseguir ir além dos seus preconceitos e vaidade e continuará na minha vida. Não pensei na altura que pessoas não me quisessem vir a conhecer por causa disso o que dói. Porém, foi a escolha que fiz: viver o mais possível perto da minha verdade, ainda que eu própria seja um projecto em construção e, se calhar, um dia faça até um videocast sobre religião, não sei. 

Sei que vamos morrer. E que eu faço parte desse “todos”. Por isso, sendo a vida uma coisa finita, um dos maiores propósitos não será vivê-la na sua plenitude, desde que não prejudicando quem nos rodeia? E, por prejudicar, que não se entenda não lhes dar alguns desconfortos e dores de crescimento, mas sim deixá-los viver a sua liberdade de escolha se querem manter a relação e que isso - tal como quase tudo nesta vida - é algo dinâmico. 

E, por isso, decidi. Decidi ser o que sou e contar o que tenho sido num livro dividido em três secções: o início, o meio e o fim [da vida]. Em cada um deles, por meio de uma associação livre, escrevo o que o ser comum denominará como crónicas (embora não me identifique com a designação). E isso passa por contar a minha história, no que a mim me compete: o que senti e sinto, pensei e penso, mas com a noção de que tal será mutável. 


Luís Pereira / MAGG

Uma das minhas grandes ambições com as consultas de psicoterapia é re-interpretar cenas da minha infância/adolescência agora com uma maturidade superior para conseguir encaixá-las de uma maneira mais benéfica e construtiva. E, por isso, uma das coisas que gostava de fazer com este livro seria rescrevê-lo daqui a 10 anos e ver o que mudou. 

Pelo meio quis inspirar (por quem me tomo, meu Deus) mais pessoas a viverem a sua verdade sem vergonhas. Por muito que se sintam sozinhas (aquele “únicas”, mas como uma conotação negativa) ou malucas (aquele “únicas” adicionando o julgamento de terceiros). Acredito que somos todos feitos do mesmo e que, vistos ao pormenor, somos todos malucos ao ponto desse conceito nem fazer muito sentido. 

Escrevi “Alguém que me cale” porque a minha cabeça não pára. E também porque este percurso não é só feito de coragem. É, antes pelo contrário, feito só de medo. De tanto medo que até salto porque “que se lixe” estou pronta para sangrar de cima abaixo como sempre. 

Se ainda não tiverem lido, estejam à vontade ;) Está à venda nas livrarias habituais e também na internet




11.05.2020

Ninguém te diz que ser mãe é difícil?

"Ninguém te diz que ser mãe é difícil". Mito. Acho que o que não falta mais por aí, de há uns anos para cá, é gente a queixar-se. A desabafar. A gritar o quão difícil, e por vezes solitário, pode ser este papel da maternidade.

Foi  um bocadinho esse o nosso papel de início, quando criámos o blogue. Mas não nos enganemos. Já muita gente nos tinha dito que era difícil. 

Claro que muitas mães andaram a dourar a pílula durante alguns anos - acho que era para elas acreditarem nisso. A emancipação trouxe-nos também isso: a pretensão de sermos capazes de tudo. Queremos (continuar a) ser boas profissionais, miúdas espertas, com (alguma) vida social, buço feito, e queremos ser mães, presentes. Ah! E a casa não se limpa sozinha. Não queremos falhar em nada.

Mas muita gente já tinha gritado por socorro, pedido ajuda. Nós é que não estávamos dispostas a ouvir. Convenhamos: antes de sermos mães, quão interessadas estávamos em ouvir falar sobre maternidade? Em ler sobre amamentação? Em querer perceber ciclos de sono? 

E o meu ponto aqui é: se tivéssemos lido, ouvido, visto: o que teria efetivamente mudado? Talvez não nos cobrássemos tanto. Não sentíssemos que estávamos a falhar. A Joana Gama uma vez confessou-me que, por eu ter parido a dar gargalhadas, ela andou alguns meses a esconder o quão traumatizante teria sido o seu parto. Acho que escondeu até para ela própria. Não me apercebi e nós até falávamos todos os dias, imaginem.

Nós tendemos a ativar um modo de sobrevivência e a relativizar algumas coisas para superá-las. Mas acho que é importante continuarmos a partilhar o bom e o mau. Saber que não fui a única pessoa a adormecer a filha a chorar (eu, não a filha - quer dizer, a filha também), que não era a única com dúvidas, arrasada quando ela não comia nada, triste quando não consegui que voltasse a mamar, com 9 meses, depois da pneumonia.



Este espaço tem sido isso: um espaço de partilha. E, apesar de, ao fim de 6 anos, já termos mais equilíbrio em cima da bicicleta, a corrente de vez em quando ainda sai. E temos de sujar as mãos para a colocar no sítio. Talvez já não seja tão visceral, tão duro, mas continua a ter as suas dificuldades.

E quais são as minhas maiores dificuldades e medos neste momento, perguntam vocês? Vamos à lista:

    - andar a sentir-me constantemente cansada

    - não me andar a alimentar propriamente bem

    - não ter tido tempo para fazer desporto (ou motivação?)

    - não conseguir gerir muito bem as crises entre as duas miúdas, que se magoam e aleijam à séria

    - não estar a encontrar ferramentas decentes para as birras da Luísa, que me parecem cada vez maiores

    - ter a casa sempre num caos (ando a pensar seriamente em investir em alguém, nem que seja 4h por semana...)

-     ter receio de que voltemos a estar confinados (não só pela minha sanidade mental e de deixar de ter trabalho, mas receio da ansiedade generalizada, dos despedimentos, dos negócios a falir, das depressões...).

O que é que muda depois de fazer a lista? Nem sei. Mas é como ir ali ao campo mandar um grande grito. É lançar para o universo e ver o que vem de volta. Feito.

Quais têm sido as vossas dificuldades enquanto mães, enquanto mulheres, e o que é que esta pandemia ainda veio piorar - ou até melhorar - nas vossas vidas?


11.02.2020

Ela não gosta dos meus abraços.

Para as leitoras mais sensíveis, aquelas que ficam enervadas por eu ter a mania de escrutinar tudo e analisar tudo, fica já aqui o aviso que, para continuarem com o seu dia tranquilamente, podem dar ali um saltinho ao Facebook ou então pôr na SIC para verem qualquer coisa que entretenha e mais leve - a não ser que esteja na hora da crónica criminal (aquilo sim, stressa-me). 

A Irene não gosta dos meus abraços. E, no outro dia, ao falar disso com a minha psicóloga (podem conhecer o trabalho dela aqui), ela disse-me que "temos de trabalhar nisso". Pus-me a pensar (uau, que novidade), se o "não se querer abraços" não será algo que também possa ser um traço de personalidade. 

Por não se querer abraços, haverá algum problema? Vá, não é só comigo. Daí eu estar a por esta hipótese. Se fosse só comigo, já teria percebido que a nossa relação iria ser tão saudável como a do Afonso Henriques com a sua progenitora, mas não. 

Só se deixa ser abraçada quando vai dormir. Pede a minha mão para lhe cobrir a cintura e gosta de tocar com os pézinhos nas minhas pernas. Gosta... quer dizer, gosta agora no Inverno, porque no Verão não se inibia de dizer várias vezes que tinha de fazer a depilação. Chatice!

Mesmo quando era mais bebé, reparava que ela ficava mais nervosa ao meu colo e, que quando ia para o colo do pai, acalmava. Ainda assim, nunca foi muito disso. De todo. O colo servia só para dar mama (no meu caso) ou, no caso do pai, para algumas brincadeiras. 

Terei uma filha que não é muito dada ao toque?

Ou... será... que existem outras razões por detrás disto?


Foto: Diogo Ventura para a P3.


Além de ter voltado a fumar (6 anos depois de ter parado, quando engravidei) e ser um cheiro que lhe desagrada ("mãe, cheiras mal" - pelo menos espero que seja disso, do tabaco), ponho-me a pensar se não será também por eu viver com um grau grande de ansiedade normalmente. "Eles sentem tudo". Quando estou mais calma, noto realmente - ou tenho capacidade para notar - que ela me toca mais e que está mais receptiva.

Por outro lado, será que ela herdou e ou adquiriu essa ansiedade? Até recentemente também rejeitava o toque quando estava ansiosa. Encarava como uma invasão do meu espaço pessoal e, por estar nervosa, não sabia reciprocar (nem me apetecia) e toda a situação era muito constrangedora para mim.

Querem ver até onde mais vai a minha cabeça? No outro dia desenhou bonecos sem braços e há uns anos (quando eu também desenhei, sem pensar nisso) uma amiga disse que seria sintomático de ter tido pouco afecto. Pelo menos físico. 

A questão é: temos todos de gostar? Será sempre sintomático? Não pode ser só mais timidez? 

A minha cabeça responde com: "epá, 'tá bem... mas da mãe?".

Como são os vossos com os mimos? Vou tentar ficar contente por vocês caso tenham miúdos que não vos larguem a pedir festinhas. 




11.01.2020

E actividades extra-curriculares em tempo de pandemia?

Há de certeza unicórnios por aí. E não só naquela loja que me faz querer drunfar a Irene sempre que passamos por ela (na verdade há umas vinte, mas posso estar a calar da Claire's ou da Note neste momento). Há de certeza famílias que escolheram actividades extra-curriculares fantásticas e que os miúdos adoram e que nem dormem de entusiasmo sabendo que no dia a seguir há Karaté ou Olaria. Não é o caso da Irene. 

Quando era pequenina, teve aulas de música e expressão corporal. Depois, quando o pai dela e eu nos divorciámos, não quis impôr que aos sábados também ele tivesse de fazer alguns kms para ter aquelas aulas pelo que ficaram em banho maria ou águas de bacalhau ou lá como for a expressão. Depois experimentámos aulas de bateria que, no início, tinha um interesse imenso e, depois, com o tempo lá foi ficando cansada das repetições. 


A Isabelinha e a Irene numa dessas aulas de música <3


Pelo meio houve duas ou três tentativas de aulas de natação mas, para dizer a verdade, não tivemos muita sorte com os professores e professoras (não eram muito pacientes com crianças e é isso que procuro em professores já que não ambiciono que a miúda comece a competir).

Cansei. Teve também aulas de ginástica que... tinham um espectáculo que queriam apresentar aos pais no final do ano e, então, privilegiaram os ensaios para o mesmo em vez de empolgarem os miúdos com actividades divertidas... Ah! E a última que estava a correr muitíssimo bem, também música e expressão corporal, foi pelo cano abaixo agora com a Covid. 

Agora que me apaixonei por uma nova modalidade (não revirem os olhos que já deve ter havido muita gente a falar-vos disto), quis ver se a Irene também se interessaria por ela. E...guess what? Está a correr muito bem!


Aconteceu mesmo irmos com as meias iguais e... sem combinarmos!! Juro! Ainda não moramos juntos porque "não há metro ao pé da minha casa e não sei quê" (desculpas).


O Fernando Alvim organiza de vez em quando umas coisas fora de série como, por exemplo, o Padel para Nabos. O Miguel (o rapaz por quem estou apaixonada - é o mesmo de há uns meses, tem-se portado bem) e eu aceitámos o convite e, desde aí, estamos viciados. 

Começámos a ter aulas com um casal amigo nosso e acertámos à primeira no professor: Francisco Dias (vale a pena abrirem o instagram, não somente por ser um bom professor... não me posso esticar muito mais que isto). 


O rapaz aqui estava a levar com sol na cara, mas prometo que não lhe falta o olho direito. Até porque não teria sido tão bom jogador de ténis antes, digo. Quer dizer, o ser humano surpreende...


Além de ter uma paciência enorme para nós (adultos) que temos treinado semanalmente com ele no W Padel Country Club (fica no meio de Monsanto, nem vos consigo explicar o quanto não quero voltar para dentro de pavilhões e ginásios para fazer desporto e não só por causa da pandemia), ele é também o coordenador do ensino de Padel para os miúdos (deve haver uma maneira mais literada de dizer isto, mas não sou da área, borrifei!). 

Também há campos cobertos, não se ponham com coisas das constipações e tal e pandemias ali não há que o ar está mais ventilado que a minha cabeça quando surgiu a puberdade. E... se não forem daqueles pais que ficam em cima dos miúdos a observar a aula toda (eu), têm ali um bar... maravilhoso para arejar as ideias.


Espetei a Irene nas aulas da idade dela, comprei-lhe uma raquete ali naquela loja que tem "Tudo para o Desporto" (wink, wink) e nem imaginam a diferença que tem feito a vários níveis na nossa vida. Primeiro, obriga-nos a quebrar a rotina do final de tarde e fazer algo que a diverte, que a entretém e que ainda socializa com outros miúdos fora da escola. Depois porque através de várias brincadeiras (o Francisco é hiper criativo) os miúdos estão muito longe de treinar apenas Padel. Treinam motricidade, sim, mas treinam muitas outras skills sociais também. Saber lidar com o serem capazes ou não serem capazes, descobrirem a sua não/muita competitividade e também - no caso da Irene, muiiiito útil - respeitarem mais uma autoridade fora da família que lhes dá orientações. 

Sai exausta, sai calminha, sai pronta para jantar (deixo o jantar pronto antes de sair de casa), por isso é banho, comida e dormir. 

Quero tanto que ela aprenda a jogar... um dia será minha dupla no Padel - o Miguel terá de lidar com os ciúmes. 

Já experimentam Padel? Que actividades fazem os vossos miúdos agora durante a pandemia? 


10.26.2020

Fui ver a minha avó e chorei.

Fui ver a minha avó e chorei. Quando me apanhei sozinha, chorei. Fiquei fungosa atrás da máscara, olhos brilhantes e voz mais trémula.



Foi um misto enorme de emoções. Tinha saudades de estar com ela, de falar com ela, de a ouvir falar sobre tudo e sobre todos. O primo que morreu, Jacques Tati e a forma como os seus filmes são ainda hoje atuais, as filas para as senhas de racionamento e a forma como acalmou a mãe, que chorava sem saber o que dar de comida aos filhos: "mãe, está a chorar porquê? Ainda há capilé! Fazemos um refresco!". E a sua voz cansada, atrás da máscara. Cansada da máscara e cansada disto tudo. Sinceramente, e não que tenhamos de fazer um pódio, mas acho que quem está a sofrer mais com isto tudo, são os velhos. A minha avó, a par da Luísa e da Isabel, tem um bisneto que nasceu em plena pandemia e praticamente só o vê ao longe. Estamos a falar de alguém de 84 anos que está sempre a frisar que não sabe quanto mais tempo os vai poder ver crescer. Se isto não parte o coração a alguém, então não sei.

Continua a partir o meu. Mas lá fomos, lá mantivemos o distanciamento, mas não nos faltaram as palavras. E as histórias. E as memórias. A nespereira pequenina, o meu avô Jorge com os meus primos bebés no colo. E agora as miúdas a subirem a essa mesma nespereira, de onde apanhei tantas nêsperas. E onde rasguei o meu vestido num batizado ou casamento de um qualquer primo mais velho. E andaram de bicicleta naquelas estradas, as mesmas que eu tinha andado a descobrir, quase trinta anos antes. 



Foi lindo. Mas triste, ao mesmo tempo. Cheio de nostalgia. De saudades dos que já foram, mas também dos que cá estão.

Que se criem ali muitas mais memórias. E que no verão possam tomar banho num balde ali na garagem, sem máscaras, sem barreiras, e com muitos abraços à bisavó à mistura.









10.18.2020

Deixem-se enganar.

Porque a roupa é isso. Além de ser algo que nos permite andar por aí à vontade, sem frio e, em princípio nos deixa confortáveis para nos sentarmos em qualquer lado, a roupa é mais do que isso. 

É um embrulho, é uma identidade. É uma espécie de massa de açúcar que se põe por cima de um bolo simples já que nos permite sonhar. 

Quando compramos uma peça de roupa para nós ou para eles (partindo do princípio que não estamos numa fase de compras sucessivas para disfarçarmos outras coisas, ahah), imaginamo-la no cenário ideal, com um sorriso, às vezes com um lanche entre amigos, o que for. 

Uma roupa nunca vem só. Vem com a vontade que temos de os abraçar, que possam trepar às árvores, que gostem de si e que aproveitem os dias conosco à sua volta. Podem sentir que estou a exagerar – e estou um bocadinho, mas já senti isto tantas vezes... 

A Joana Paixão Brás, como já vos disse, tem um dom gigante também para a fotografia. Tirou imensas fotografias às miúdas com a coleção Outono/Inverno da Mayoral e olhem para esta delícia!  























Obviamente que sugeri logo um encontro entre as cinco com aquele magnífico pretexto de “tenho saudades” para ver se também pingavam umas fotografias para este lado ;) Não só da Irene, mas deste grupo que vai dar ainda tanto que falar porque vão continuar a crescer juntas. Nas fotografias seguintes, quando fomos passear em conjunto, quiseram ir todas vestidas a combinar. A Luísa estava histérica por ir igual à Irene. Tudo da coleção Mayoral Outono Inverno deste ano. Até os collants com brilhantes que quase tiraram o sono à Irene de entusiasmo ;)




















Deixem-se enganar, vá: não estavam birrentas de quando em vez, não queriam comer uma data de croquetes na esplanada. A Isabel não estava louca para trocar de sapatos com a Irene e... também não aconteceu o do costume: a Irene querer saltar logo para cima da Isabel para brincar e a Isabel ser mais comedida. A Irene ficar obcecada se a Isabel ainda gosta dela e, no meio disto tudo, a Luísa ficar aborrecida porque nenhuma das duas lhe dá atenção. Nada disso aconteceu. ;) 

... mas e então? Estas fotografias, com estas roupas e, acima de tudo, com estas miúdas, não vos deram vontade de sonhar? 

Elas são maravilhosas. E, com este “embrulho” da Mayoral, ainda mais ;) Gostaram?





9.23.2020

Os vossos filhos também precisam de terapia da fala?

Eu sempre soube que sim. Que a Isabel precisaria. Deixei passar se calhar demasiado tempo para intervir, mas mais vale tarde do que nunca, já dizia o provérbio. A Isabel, fruto da morfologia do maxilar, tem dificuldade em pronunciar alguns sons, confundindo-os. Nós dizíamos - em linguagem não técnica - que é ciciosa, como o pai. Decidimos então, em conjunto com a dentista e numa ida à otorrino, iniciar a terapia da fala, com uma primeira avaliação. Já tinha tido uma boa experiência com a Fisiolar, quando a Luísa precisou de fisioterapia respiratória em bebé, para se livrar dos ranhos. Depois da quarentena, pensei que faria ainda mais sentido consulta ao domicílio e/ou online - não só por comodismo, mas também para ela se sentir no seu espaço. Assim foi. A terapeuta da fala veio cá a casa avaliar em que pontos teriam de trabalhar e insistir e a segunda sessão já foi online. 


Primeira coisa - afinidade entre ambas, logo. Segunda coisa - jogos divertidos que facilitam tudo. No meu tempo, a terapia da fala era uma coisa muito chatinha. Eu, que sou gaga, precisei de muitas muitas sessões em miúda para melhorar um pouco, mas ir até ao consultório era um drama. Agora? Aprendem e fazem exercícios de forma tão lúdica que aqueles 45 minutos são escassos para eles :) Depois, vamos treinando (/ jogando) em casa. É a Isabel quem me pede! 



Pedi à terapeuta da fala que fizesse uma breve explicação do problema da Isabel e cá está: “no âmbito da articulação, apresenta alteração dos fonemas fricativos sonoros vibrantes e distorção assistemática dos fonemas fricativos surdos. /f/,/v/,/s/./z/,/x/,/j/.” 

Por isso, tornava-se importantíssimo “atacar” o quanto antes, principalmente antes de iniciar o primeiro ciclo, de forma a não acentuar esta percepção dos sons e a ter uma consciência fonológica correta. Nem imagino o quão confuso poderia ter sido quando estivesse a tentar corresponder um som a uma grafia, no primeiro ano. 


Neste momento, a diferença é gritante: já é rara a vez em que troca algum som. Foi incrível esta mudança na vida dela e nas nossas. Estou muito, muito contente. Estamos todos! 


Se tiverem alguma dúvida ou questão para colocar, prometo fazer mais um post sobre o assunto com as respostas: sejam elas dirigidas a mim ou à terapeuta da fala. Espero que tenham gostado e que tenha sido útil! 


*post escrito em parceria com a Fisiolar 







9.09.2020

Não vos devia contar isto...

E isto vai fazer com que uma centena de pessoas queira a minha cabeça, mas aviso-os já que não é grande coisa. Dá muito trabalho e não compensa. 

É um segredo. É um grande segredo. E fui avisada para não dar muito ênfase, mas não sei como. Faz parte da minha natureza querer partilhar as coisas boas (ou só partilhar, no geral) com as pessoas e isto é demasiado bom para ficar "só para mim". 

O meu pai, madrasta e irmão foram convidados há uns anos para passarem férias numa espécie de paraíso: o Burgau. E, desde aí, é impensável não passarem lá uns dias. Tem tudo o que querem e precisam, além de irem acompanhados de um dos casais que são seus melhores amigos. 

O meu pai torna-se uma pessoa diferente por lá. Enquanto que, no dia-a-dia, gosta mais de estar no seu cantinho, em frente ao computador, a corrigir exames ou a dar aulas, ali parece que vejo o meu pai dantes. Aquele que gosta muito de fazer rir toda a gente, sempre apressado para a coisa seguinte e o que mais se preocupa se estamos todos bem e se precisamos de alguma coisa. 

O meu irmão, de 14 anos, ali tem toda a liberdade do Mundo. É um sítio seguro, onde toda a gente se conhece e, por isso, pode ir da praia para casa e vice-versa sem qualquer problema e às horas que quiser. 

As pessoas tratam-se pelo seu nome próprio ou alcunha e é habitual haver um sorriso sempre que se cruzam porque não há outro modo de estar no Burgau, durante o Verão, que não o de calma e de satisfação. Há praia, bons restaurantes, amigos e cerveja. 

Quem vai ao Burgau conhece a Dona Conceição, quem gere o Hotel Burgau Turismo da Natureza. É uma senhora que dá muito nas vistas. Não por ter flipado e por se vestir de forma bizarra - de todo, mas porque usa aquilo que mais se vê ao longe: um sorriso. 


Ainda que em tempo de máscaras não tenha conseguido vê-lo [o sorriso da Dona Conceição], foi evidente desde o momento em que a Irene, o Miguel e eu chegámos ao hotel que sentimos que tínhamos chegado à nossa casa de família. Nunca foi meu hábito visitar a família por aí em Portugal - andamos demasiado presos nas nossas rotinas, talvez - mas acredito piamente que é esta a sensação: pousar as malas e sentir que estamos entregues. 

Entregámo-nos à Dona Conceição e ao seu staff neste hotel de 3 estrelas no meio do paraíso. Sendo-vos sincera, adoro luxo, adoro dormir em hotéis de 5 estrelas, mas ali não faria sentido outra coisa que não aquele ambiente simples e próximo (embora com as distâncias devidas, não sejam chatas). 

A chave do melhor quarto do hotel veio parar-nos à mão. Tínhamos uma varanda incrível sobre o Burgau em que, por tudo ser tão perto, quase que conseguia acenar à minha família de lá. Aliás, numa das suas saídas à noite, o Miguel e eu namorávamos na varanda e conseguimos metermo-nos com eles enquanto punham a chave na sua casa deste Verão. 



Quando chegámos ao quarto, reparámos que iamos poder dormir "todos juntos". Juntei a cama de casal à da Irene e ficou a parecer que tínhamos uma cama infinita. Onde, se fosse necessário, poderia dar-lhe a mão durante a noite enquanto tocava com os meus pés nos do meu namorado. Para quem está na minha situação, sabe que... é ter tudo ali, à mão (e ao pé). 

Os duches depois da praia eram fantásticos. Deu espaço para tomarmos as duas ao mesmo tempo. Tirarmos a areia de tudo o que é pele do nosso corpo (sim, aí também) e ficarmos as duas cheirosas (os três, mas o Miguel tomou depois, ahah) para irmos jantar em família. Todos os restaurantes onde fomos (que eram já ali) tinham uma carta criativa e serviram-nos como se fôssemos habitués. O que, na verdade, grande parte de nós era e a outra parte vai passar a ser. 




Hotel pequeno o da Dona Conceição, mas melhor assim. Quem procura a Natureza e família para férias não quer um resort porque sabe que o que é mais valioso está fora do hotel. Ainda que a piscina não tenha escapado aos mergulhos da Irene e aquele pequeno-almoço que a Dona Conceição e a equipa preparam diariamente tenha sofrido e muito com a nossa larica matinal. Desde panquecas, ovos mexidos, sumos e doces tradicionais... posso dizer que foi a muito custo que nos contivémos para guardar espaço para o almoço. 








O começo do dia, a forma, dita tanto de como irão ser as horas seguintes... Impossível acordar com birra ali, depois de dias de praia fantástica, jantares até às tantas, namoro na varanda e noites a sentir-me profundamente completa. Porém, todo o staff do Hotel Burgau Turismo da Natureza apesar de manter o profissionalismo necessário, faz-nos sentir em família. Recordo-nos de uma senhora muito simpática que até se veio despedir de nós pessoalmente quando soube que estávamos de partida. 

A maré, durante este Verão (minha primeira vez), quando está vazia dá espaço para que se caminhe imenso até se ter água pelos joelhos. A Irene delirou poder estar no mar tão à vontade e a brincar tanto com o tio e com o amigo novo, o Pedro. Chegou a dizer-me, no início "Gosto tanto dele que quero casar" - atenção, do rapaz que não o tio. Embora, no final, já dissesse "afinal ficamos só amigos porque ele não sabe seguir regras na piscina". 

Libertei-me das minhas ansiedades. Não houve horas. Principalmente no dia do banho nocturno. Ao que parece, todos os anos, no dia 29 de Agosto, os habitantes e visitantes do Burgau, vão tomar banho no mar à meia-noite. A Irene molhou os pézinhos e sentiu-se uma super heroína. Tenho a certeza de que esta memória vai ficar. E é para isso que trabalhamos, não é? Memórias. 









Lembro-me também de toda a viagem em que o Miguel e a Irene foram jogando a um jogo que inventámos. Em que ele lhe deu a sobremesa à boca enquanto ela pintava. Nas várias brincadeiras que eles tinham antes de adormecer e que me fizeram sentir que sou uma privilegiada imensa. Estou rodeada de pessoas que amo e que me amam de volta. E, vai-se a ver, muitas delas também gostam umas das outras. 


A Irene estava a meter gelo dentro das nossas camisolas ;)

Sentir de novo os mimos do meu pai, voltar a brincar e a abraçar a minha madrasta, meter-me com o meu irmão e ver a Irene, no meio disto tudo, a ser o carinho e a cola foi maravilhoso. Também foi giro apresentar o namorado à família, fiquei a achar que ele e o meu pai, noutra vida, seriam inseparáveis. Sim, sim... falarei disto nas consultas ;)

Visitem o Burgau, com respeito pelo segredo, pela natureza, pelo clima, pelas famílias e, acima de tudo, sorriam de volta à Dona Conceição (por enquanto, com os olhos). Sente-se quando quem trabalha o faz por gosto e por amor. E a Dona Conceição abraçou-nos diariamente ainda que sem poder. 


Podem seguir, que eu deixo ;) 

@hotelburgau

@mmikepires (é o rapaz que tem dona neste momento)