4.13.2015

Afinal Havia Outra (#19) - As crianças são pessoas horríveis

Tem um narizinho pequenino, amoroso, tão fofinho. Uma boquinha delicada, de lábios bem desenhados, dentes pequeninos com um espacinho entre os da frente como eu quando era pequena.

Tem umas mãos e uns pés pequenos que me dá vontade de os comer, umas perninhas de alicate macias e umas costas e ombros que me comovem. E a pancita? Não há palavras para descrever. Os olhos enormes e redondos de pestanas compridas a olhar para mim, o sorriso malandro, os caracóis despenteados. Uma falsa. Acha que me pode conquistar só com os atributos físicos e com aquela voz pequenina que me enche o coração de alegria.

A minha filha é um monstro horrível que se está nas tintas para mim. Tanto se lhe dá se o meu braço está dormente de ficar pendurado na cama de grades porque a menina precisa de companhia para adormecer de todas as sete vezes que acorda de madrugada. Tanto se lhe dá se estou cansada, a morrer de sono, com frio ou dor de cabeça.

A minha filha quer lá saber se eu estou prestes a perder a paciência quando sou obrigada a repetir dez vezes que não, “não podes pôr a comida do cão no vaso da planta/bolsos/boca/chão/nariz”. Ri-se e continua a fazer disparates enquanto olha para mim, divertida, não sei se com o meu olhar incrédulo se com o meu tom avermelhado raiva.

A minha filha não podia estar-se mais a cagar para mim quando me chama a cada dois minutos e me diz “mão” que é código para “dá-me já a mão antes que desate a chorar mesmo que estejamos dentro de casa e não haja estrada para atravessar e estejas a tentar fazer o meu jantar/almoço/lanche.”

A minha filha não quer saber se ao fim de semana eu mereço preciso de um pequeno-almoço calmo a ler o meu livro enquanto enfardo as melhores coisas que consigo arranjar em casa às nove da manhã: ela quer ficar ao meu colo a enfiar os dedos nas minhas torradas e fruta e não há espaço para negociações. Nem para o meu livro. Ela faz de propósito quando aos dias de semana se recusa a acordar antes das 9h e ao fim-de-semana salta da cama às 7h30.

A minha filha não se comove com o sono que me ataca à tarde nem se deixa convencer com um “vamos fazer ó-ó as duas, na cama da mãe”. Grita “yoyo” que é código para Pocoyo e pede o iPad para ver os episódios e nem os olhos posso fechar porque ela passa o tempo a tocar no ecrã e a pôr aquela merda na pausa e depois não sabe carregar no play. Quer dar cambalhotas e atirar-se para cima de mim, encher-me a cara de baba porque acha divertido.

Ela quer lá saber se estamos atrasados para sair quando lhe pedimos para vestir o casaco e ela foge e diz que não e cruza os braços. O mesmo se aplica a pôr calças e meias, peças de roupa que ultimamente rejeita. Não podia estar-se mais nas tintas por ter transformado a hora de vestir numa espécie de wrestling patético alternado com tentativas desesperadas de a distrair, seja com canções infantis ou com histórias inventadas que metam as palavras “mamã, papá, cão, avô e avó”.

Ela não quer saber se me apetece mais ver o “Lei e Ordem, unidade especial” ou a “Miss Marple” do que a porra do Piggy, dos Heróis da Cidade, do Ruca ou a Ovelha Choné. Ou se não me apetece cantar pela 34ª nesse dia “a barata diz que tem…”. 

Ela simplesmente não quer saber. Deve ser bom viver assim com total omnipotência. Pena que não se irá lembrar destes tempos quando for adolescente e esta sensação de omnipotência for substituída pela de impotência face à tirania parental, castigando-nos com esgares de desdém e olhares acusatórios até quando espirro. É que mal posso esperar.

Leididi 

Domingo em família

São estes dias que nos aquecem durante aqueles  em que não há sol, em que está frio, em que não há muita vontade de ir fazer alguma coisa a não ser vontade de ter vontade. 

É para isto que existem máquinas fotográficas. Para a Irene um dia voltar a ver as fotografias e pensar: "por que é que a máquina da mãe não focava em condições?". É para que a Irene veja como eram os avós Filipe e Bibi e o Tio Tiago e o Pai e a Mãe quando ela tinha um ano.

É para ela construir a sua infância com verdade, mas achando que todos os dias eram destes, dos que há sol, em que está calor e em que parece que toda a gente quer é sair de casa todos os dias e estar uns com os outros. 

Sabia lá eu há uns 6 anos, quando comprei esta máquina, que iria servir para fotografar a minha filha, o seu pai e meu marido e todos juntos num almoço num dia de sol. 












4.12.2015

As crianças betas agora são hippie-grunge-hipsters

Estou a exagerar. Nem todas. A morte das golas de meio metro, dos laços XL em cabeças S e das carneiras de franjas está longe de ser declarada. 

Mas não podemos fechar os olhos à tendência do momento. Pronto, se calhar também já está na moda há anos e eu só despertei para ela agora. Dêem-me um desconto, não sou uma blogger de moda e não percebo patavina disto. Mas tenho notado uma misturada de estilos e padrões nos miúdos. Gosto. Confesso que, de vez em quando, sabe bem variar um bocado e desenjoar do look casamento e batizado, de quem está sempre impecável, até para descer um escorrega e despejar um prato de sopa em cima.

O que está na moda agora é dar uma no cravo, outra na ferradura. Algumas mães conseguem misturar numa criança uma gola beta, com um turbante hippie, com uns sapatos hipster, com um casaco de cabedal grunge, com uma mala tribal, com um cinto étnico. Os miúdos parecem uns palhacitos, mas espalham charme. Dá sempre aquele ar "I don't care", o importante é que eles subam às árvores e despejem um Calippo na roupa, tudo com muito estilo. Até há t-shirts com statements para crianças do género "I woke up like this" e "My hair is a mess" e os miúdos ficam com ar de quem lê Foucault e de quem vê Wes Anderson.

Portanto, para que os vossos filhos fiquem com um ar intelectualmente superior e cool só têm de ter em casa:

- TURBANTE OU FITA COM LAÇO PIN-UP (se forem raparigas, claro, para rapazes troquem por um gorro comprido) 

- ALL STARS

- SAPATOS DE FRANJAS

- BOTAS LENHADOR OU GALOCHAS

- CALÇAS COM BONECADA (caveiras, crocodilos, setas)

- CAMISOLA COM FRASE COOL

- LENÇO OU CACHECOL

- CAMISA DE GANGA 

Se tiverem UNS ÓCULOS DE MASSA, mesmo que eles não sejam pitosgas, compõe sempre o cenário.








Caso queiram que se perceba que os vossos filhos vão para a Comporta de férias, misturem estas coisas com outras do glossário de roupas betas, aqui.