2.03.2015

(O crime da) banana com bolacha

Sei que "banana com bolacha" parece o nome de mais uma loja de roupa compostinha (para não dizer betalhona) no facebook mas, por acaso, não é disso que venho falar. No outro dia, o meu marido sugeriu que desse banana com bolacha (umas Maria especiais visto que a Irene é APLV) e a miúda adorou. O problema é que não foi a única. 

Enquanto que com a sopa o meu principal objectivo é que ela coma tudo (sem birra) ou praticamente tudo, esta sobremesa veio mudar a nossa dinâmica alimentar - sempre que se usa a palavra "dinâmica" parece que tudo fica muito mais credível, não é? 

Ora, eis que me começo a aperceber que não insisto muito que ela coma a sobremesa toda. Inicialmente disse a mim própria que era porque "a banana faz prender o cocó", por isso, se ela não quer, melhor para ela". 



Depois apercebi-me que não era bem isso que estava a acontecer. Eu queria, afinal, comer-lhe a sobremesa. Se não abria a boca cheia de vontade uma vez ou duas, dizia logo: "não queres? não faz mal filha, não há problema". Zinga! Tudo para o bucho da mãe. Porquê? Porque é das coisas mais deliciosas de sempre. 

Se é ou não... agora não sei! Como estou numa espécie de dieta, até os individuais da mesa de refeições me parecem estar a piscar o olho.

O meu pai sempre me disse: "ser pai é tirar da nossa boca para dar aos filhos". Yewwww. 

No meu caso, sou mãe e tiro da boca da filha para pôr na minha, mas é porque a banana prende muito o cocó, claro.

2.02.2015

Adeus casaquinho da Zara e gorro da Benetton...

Estamos aqui reunidas para nos despedirmos, com muita tristeza, de um casaquinho da Zara que a Irene tem. Sim, ainda tem, mas ele agora vai ter que partir. Vai ser lavado, passado e posto com outras roupas que já não servem à minha filha, dentro de uma caixa de plástico grande do Ikea e arrumado na cave lá em baixo, na garagem. 

Passámos bons tempos com aquele casaquinho. Muita pêra nas mangas, sopa, bolachas, baba, pó, pêlos de gato. Muitas boas fotografias, boas sestinhas, muitas vezes que foi pendurado a apanhar um bronze na janela para ficar bem seco... Agora, tudo isso, acabou. 

Foram três meses intensos. Em que, todas as semanas, foi usado e abusado. Amado e babado. Não foi a morte que separou este casaquinho do corpinho da minha filha, mas o tempo. 

Custa. Custa termos roupas tão giras (não tão giras como as da Joana Paixão Brás, que a minha filha anda de fato de treino e de long sleeve) e irem a abrir tão rápido. Às vezes até nos armamos em parvas, queremos que voltem a servir e lá andam os nossos filhos apertadinhos durante uma meia hora só para usarem aquela roupa uma última vez, enquanto estamos a fazer o nosso luto. 

Hoje estamos aqui para enterrar este casaquinho na cave, mas já com o coração muito sofrido a pensar no gorro de ursinho que, qualquer dia, também vai "a abrir". Já corri a Benetton a perguntar se sobrava algum em todos os tamanhos acima, mas nada. Por mim, ela usaria este gorro até sair da casa dos segredos (lá usam muito os gorros, deve ser para disfarçar o cabelo oleoso ou assim). 



Mãe sofre. 

Adeus casaquinho da Zara. Vamos ter saudades tuas. Mais eu que a Irene, porque ela ainda não se lembra de nada de jeito. Agora, vou vestir-lhe a porcaria do gorro, mesmo em casa, para render mais tempo. 

Suspiro.


Afinal havia outra (#04) - "Mãe, viste o monstro azul?"

Mortinha de saudades do pai que estava longe há duas semanas – e com apenas dois anos e meio - a Maria Rita voltou-se para mim e disse: “Ó mãe, se as nuvens fossem minhas amigas sopravam sopravam sopravam e o avião do pai chegava cá mais depressa!”



Uma pessoa passa os nove meses da gravidez a falar com eles, a cantar para eles – pobres coitados! - a partilhar tudo com eles. Mal nascem, queremos contar-lhes as histórias que nos contaram em crianças e dizer-lhes tudo. Tudo! E depois eles começam a falar e nós perdemos o pio.

Quando as nuvens sopraram sopraram sopraram e o tal avião do pai chegou, houve uma tarde em que ela pediu uma bolacha de chocolate. Estávamos na cozinha e o pai disse-lhe que se quisesse podia comer uma bolacha maria – “das outras não”. Ela olhou para mim, olhou para ele, voltou a olhar para mim e disse, apontando para o pai: “Quando é que ele volta para o Brasil?”

Com quatro anos, as “saídas” dela continuam a ser espontaneamente engraçadas, mas estão cada vez mais salpicadas de curiosidade. Há umas semanas, estávamos a passear e ela perguntou-nos o que é que era aquela casa junto ao mar, que parecia um castelo. O pai disse-lhe: “Aquele era o castelo do Príncipe do Mar!”. “Então e porque é que já não é?”, perguntou ela logo de seguida. “Filha… já não é porque ele já não vive lá”. Dois segundos de silêncio: "Porque já não vive lá ou porque isto é só uma história inventada?".

A dúvida fica no ar, para dar trabalho à imaginação – à dela, desassossegada por natureza, e à nossa também. Como daquela vez em que entrei na sala e ela perguntou se eu tinha visto o monstro azul. “Monstro azul, monstro azul… mas que raio?!” Eu juro que pensei em bonecos, livros, puzzles e até roupa com estampagens de um monstro azul, mas nada. Na minha cabeça, só princesas da Disney. “Monstro azul, filha? Não sei do que é que estás a falar…” “Ah, esquece mãe, claro que não viste porque assim que tu entraste ele escondeu-se debaixo do sofá!”

A imaginação das crianças não conhece limites. Inventam jogos, canções, palavras, tudo e mais alguma coisa. Tanta coisa que eu dou por mim a invejar o “disco rígido” delas. Dava-me jeito na altura de responder a saídas do género “estava aqui a imaginar que amanhã não tinha escola e estava a ser tão bom!”. Não estamos preparados para isto e muito menos para conversas sobre namorados:

Eu: então, o teu namorado ainda é o Vasco?

Ela: sim, ele não mudou de nome...

Eu: pois, eu sei, mas podia ser outro, tipo o Rodrigo ou o Martim...

Ela: achas mãe?! O Rodrigo e o Martim portam-se mal e não comem o almoço todo!

Eu: e o Vasco porta-se bem é?

Ela: também não, mas é o mais bonito...


Catarina Raminhos
mãe da Maria Rita, de 4 anos, e da Maria Inês, de 2 anos