Chorei.
Foi exactamente a mesma sensação do dia do nascimento dela, quando o Pai a pegou, pela primeira vez, tão pequenina e quente nos braços dele. Os mesmos braços que me acolheram e que me foram enchendo por dentro com amor, esperança, vontade.
Estava ali o resultado da soma das partes: o todo.
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Estava ali a consequência directa da nossa paixão, de nos termos encontrado e esquivado para dentro um do outro. Aquele pulmõezinhos, naquele bichinho cor-de-rosa, estavam a mexer-se por causa da nossa paixão, por termos passado horas a olhar um para o outro na cama, por eu gostar tanto dos olhos dele. Quando bate a luz do candeeiro do quarto e fica com um ar tão meigo e quando, na rua, parece do mundo, mas é meu.
Temos os dois olhos iguais e temos os três o mesmo coração. Somos uma família.
Ontem voltei a sentir tudo isto. Foi um abraço enorme, mas em forma de chapada. Não estava à espera, chocou-me e despertou-me.
O Frederico nunca adormeceu a Irene. Estabelecemos (sem conversar) que não haveria outra hipótese de a adormecer sem ser na mama. Ele perdeu a fé de que pudesse fazê-lo por não dar maminha e eu também, apesar de nunca termos tentado. A maminha pode privar os pais de muitas coisas, se não se pensar no assunto. Foram 19 meses em que a Irene, todos os dias, em todas as sestas e todas as noites, nunca foi adormecida de outra maneira.
Ontem, pela primeira vez, o papá adormeceu a Irene. E eu vi.
Espreitei à porta do quarto e ouvi, baixinho, a música que o pai assobiava enquanto lhe fazia festinhas pelo corpinho e pelas mãos.
Ela estava agarrada ao seu coelhinho cor-de-rosa, mas deitada de frente, fitando o papá e deixando-se adormecer por se sentir segura, protegida, em casa.
Olhei para eles e senti-me. Senti-me completa, sã, cheia de amor, com força, com vontade.
Não há nada mais forte que uma família com amor.