3.29.2015

Do cuspo.

Mete-me algum nojo. Há pessoas que quando nos beijam na cara, deixam bocadinhos de cuspo, que reservam nos cantinhos da boca, nas nossas bochechas. Tenho de, discretamente, limpar a cara com a manga da minha camisola.
Há pessoas que quando falam connosco fazem cair uma chuva de perdigotos e não há muito que possamos fazer a não ser, discretamente, distanciarmo-nos.
Há pessoas (homens) que cospem para o chão e por sorte não nos acertam nos sapatos. Já tive de dizer alto e bom som "que nojo!" e "que porcaria!" e até já fiquei tão mal disposta que me ia vomitando.
Há homens brejeiros que gritam do alto dos seus andaimes: "fazia-te um pijaminha de cuspo" e naquela hora desejo que se engasguem com saliva.

Nunca tive uma relação muito boa com o cuspo dos outros. Até ser mãe. Acho que quando somos mães a nossa relação com os corpos, com os excrementos, com os cheiros e com o cuspo se altera. Até me imagino a fazer aquela coisa nada higiénica de molhar a ponta de um dedo com cuspo dela para limpar qualquer coisa na cara dela. Estão a imaginar?


Esta converseta toda é no fundo para justificar esta fotografia, que queria muito mostrar-vos. Nesta imagem a Isabel está a fazer a bolinha de cuspo mais fofa da história e a meter-se comigo, vê-se bem pelo sorriso no olhar. Que coisa mais linda esta minha filha e que pequenina aqui (tinha 4 meses e ainda sabíamos o paradeiro da Camila - a boneca ao lado).

3.28.2015

Peixinho (fora de água)


Quando somos mães damos muita importância às primeiras vezes. Lembro-me bem da primeira vez que ela dormiu sete horas seguidas (tive de ir ver se ela tinha ido desta para melhor), da primeira vez que deu uma gargalhada (mesmo tendo sido a dormir), do primeiro dia de creche, do primeiro dentinho e tenho medo de me esquecer. Isto é parvo, eu sei. É só um símbolo, um marco, tem pouca importância. A soma dos dias, das conquistas, o todo, é muito mais importante. Uma e qualquer gargalhada. Todas elas. Mas a primeira... a primeira fez-me chorar.

Hoje a primeira aula de natação e quem chorou foi ela. Chorou não, choramingou, resmugou. Lágrimas, nem vê-las. Foi-lhe desconfortável tanta água ou então o simples facto de estar mais fresca que o habitual, no banho. Mas gostei, gostei de partilhar com ela a descoberta. Gostei de ver que acalmava com o som da minha voz e com o corpo coladinho ao meu. Depois foi ganhando cada vez mais coragem e até saltou para o meu colo, sentada na borda da piscina, ao som do 1,2,3. Lá pelo meio pensei em desistir, mas ainda bem que não o fiz. Quero que ela vença os medos, comigo por perto.

Era uma aula experimental e decidi: vamos para a natação. Pelo menos até à primeira otite... confesso que é o meu maior medo nesta história toda.








 Poupei-vos a fotos com a minha presença. Ainda por cima de touca. Não têm que agradecer.




Adoro as expressões, mega concentrada e com cara de poucos amigos. Mas não tarda muito está a rir-se e a dar à perninha. Ou não, ou não.

Afinal Havia Outra (#17) - Não queria ser mãe.

Esta foi uma questão que me assombrou durante muitos anos. Foram uns tempos valentes em que tive completamente convencida que nunca viria a ser mãe. E verdade seja dita, estava feliz com a minha decisão.

O único incómodo eram todas as mães que me rodeavam e que não conseguiam compreender a minha escolha. Como se fossem elas que nas suas conversas iguais me conseguissem de alguma forma convencer. Sim, porque tendo filhos eles até seriam criados por elas, não é?!

Olhava para aquelas mães conformadas em que a felicidade estava toda em ser mãe e deixar de ser mulher e sentia-me cada vez menos convencida.

Quando muito, mas mesmo muito, esporadicamente pensava sobre ser mãe, era sempre pelos motivos que considero errados. Sim, gostava de experimentar estar grávida e ter "aquela" barriga para exibir; sim queria receber mimos e presentes; sim, queria ser o centro das atenções enquanto grávida. Mas queria um bebé, dependente de mim, que precisa de comer, tomar banho, dormir, chupetas e birras, vómitos e cocós, ou até mesmo brincadeiras intermináveis e gritos e gritinhos? Não, não queria nada disso.

Gostava da minha vida tal como ela era. Dormir até tarde ao fim de semana... Decidir às nove da noite que não me apetece fazer jantar e ir a qualquer lado... Fugir das compras e do supermercado até restar apenas um enorme vazio no frigorífico... Sair à noite com os amigos... Apanhar umas bebedeiras... Prolongar os meus dias até tarde, porque não há horas para ir para a cama... Pegar nas poupanças e estourá-las em sapatos... Eu era MUITO, MUITO feliz assim.

Chegou-me durante felizes 9 anos de casada, e acreditem, continuava a chegar, e continuaria. 
Um dia, tudo mudou, afinal tudo muda! Não sei como nem porquê, e nem sei se os meus motivos estão certos ou errados, porque nem motivos tenho afinal. Mas tudo mudou.

Dia 5 de Novembro de 2014, apareceram 2 riscas naquele pedacinho de plástico, que mudaram tudo.

Não foi acidente, pelo contrário, eu queria aquelas riscas... Porquê? Não sei... Não sei mesmo. Sei que era feliz, com a minha vida irresponsável, e sou igualmente feliz agora enquanto me adapto à nova realidade.

Dúvidas? Tenho muitas... Afinal de contas, sei lá eu ser mãe.



Ana Filipa Guerreiro