2.05.2015

Sonho com uma casa de campo

Sonho com uma casa com jardim. Ou com um quintal. Sonho com a Isabel a rebolar na relva. Passarinhos pousados nos parapeitos das janelas. Um cão a correr. Amigos nas espreguiçadeiras a beber uma cerveja. Churrascadas e música alta. Crianças a dispararem pistolas de água e a darem gargalhadas. Uma horta com morangos e alfaces. Ervas aromáticas. A carrinha do pão a apitar. Ver o pôr-do-sol, embrulhados numas mantas. Ouvir o som dos grilos no verão. O som da lenha a estalar no inverno.

Tudo isto sem estar uma hora no trânsito infernal e a desejar, todos os dias, viver num T0 na rua do trabalho. Perto das comodidades de uma cidade. Sem as paredes estarem a cair de podre e sem um vendaval dentro de casa. Sem ter de vestir 14 camisolas à Isabel e um gorro. Sem ter de pôr um desumidificador em cada canto. Sem ter de gastar um dinheirão em aquecimento. Uma casa barata.
Já estraguei tudo, não já? Isto só existe nos filmes, não é?
Ou há por aí alguém que tenha conseguido transformar este sonho em realidade?



2.04.2015

Tenho umas coisas para te dizer.

(tentei ao máximo fugir do ao título do "Carta do telemóvel para a mãe", por já não conseguir ver mais "cartas" à frente aqui na internet.)

Olá, sou o teu telemóvel, aquele que tu tanto adoras, mais até do que a tua carteira. 

Sei que sou muito importante na tua vida, visto que me levas contigo para todo o lado. Até para a casa de banho, quando vais tomar banho, não vá alguém ligar e não sei quê. 

Sei que me adoras e agradeço. Agradeço do fundo da bateria até o facto de seres uma mariquinhas e de me pores capas para não me riscar, para não me partir se cair ao chão. 

Há algumas capas que me fazem sentir um pouco mais efeminado mas, realmente, quando é que te disse que não sou uma rapariga? 



Sinto-me seguro nesta relação. Sei que me amas e, por isso: 

1 - Não sinto ciúmes se ligares mais à tua criança do que a mim. 

2 - Eu posso esperar. Respondes depois à tua amiga no Whatsapp. As minhas mensagens não vão embora. Estão cá para quando tu puderes. 

3 - Não percas sorrisos da tua criança, por minha causa. Sei que represento "o mundo lá fora" para ti, mas o "mundo lá fora" não está a crescer e não precisa da mãe. 

4 - Não faz mal se não me usares para tirares fotografias da tua criatura. Às vezes, há momentos em que deves estar mais presente do que a imaginar como vão ficar as fotografias no Instagram.

5 - Usa e abusa de mim, se quiseres, não me importo, quando a criança está a dormir. Não me importo de ser apenas um amigo para as ocasiões. Afinal de contas sou um aparelho electrónico e não tenho sentimentos. 

Estamos entendidos? 

*imagem do site We Heart It. 

Sou culpada e gosto.

Assim que sabemos que estamos grávidas, nasce logo a culpa de mãe. É algo que sentimos desde o início. Às vezes até ainda antes de sabermos que estamos populadas por dentro. 

"Devia deixar de fumar porque estou a tentar engravidar", "Devia fazer mais exercício físico", etc. 

Há até outras mulheres que podiam dar óptimas mães que sentem tanto essa culpa antes de seja do que for que até preferem nem o ser. Era o meu caso, modéstia à parte. Achava que não ia ser uma mãe de jeito (até conhecer o meu velhote - são só 9 anos de diferença, estou a brincar, mais ou menos, claro.). 

Acho que a culpa, esta culpa, é uma coisa boa se for bem direccionada. Funciono bem com ela. É essa culpa que me faz esforçar mais (claro que também é o amor), mas o "sair de casa", sentar-me com ela no chão a brincar em vez de ficar só a vê-la do sofá, fazer sopas novas sempre que possa para não andar sempre a embuchar a mesma, etc.

Desde a gravidez que a sinto e muito e isso reparava-se no meu pânico quando descobria que algo era abortivo: 

"A canela é abortiva? E eu que comi meio arroz doce no outro dia? Meu deus, o que fui eu fazer? A miúda ainda nem nasceu e eu já sou péssima mãe!"

As hormonas ajudam muito a que esta culpa seja, muitas vezes, confundida com loucura. Porém, a verdade, pelo menos no meu caso, é que aprendemos a lidar com ela. 

Acho que, o melhor, visto que ela não vai desaparecer, é torná-la nossa amiga. Vamos tentar ver nela uma força para sermos ainda melhores mães, para aquele extra mile. 

A culpa já me ajudou tantas, mas tantas vezes. 

A ganhar coragem para entrar no quarto e tapá-la com a manta (mesmo correndo o risco de a acordar), a ir passear com ela para um jardim, mesmo não me apetecendo sair de casa há uns dias, a superar questões de amamentação, etc. 

Obrigada, culpa.